quinta-feira, 10 de agosto de 2017

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

Minha doce e querida amiga — cujo nome, por respeito, não irei declinar —, eu realmente sei muito pouco sobre os dilemas existenciais que a afligem nesse momento, os males que o amor idealizado lhe trouxe na forma de traição. Contudo, eu lhe diria, falando por experiência própria, que o nome dessa estranha mania de criar armadilhas para nós mesmos é autossabotagem!

Costumamos repetir os nossos erros, em ciclos de sucessos momentâneos, repletos de idealizações imaturas, seguidos de fracassos retumbantes, abismos insondáveis e obscuros que vamos criando com os nossos pés, enquanto os atribuímos ao destino. Muda o objeto da nossa paixão, muda o nosso empregador, mas a essência dessas pessoas é sempre a mesma. Escolhemos pessoas parecidas, empregos parecidos, que invariavelmente nos levam à dor seguinte. Esse processo chama-se autossabotagem!

E repetiremos uma, duas, três ou mais vezes os nossos erros, enquanto não percebermos que somos o nosso maior inimigo: o Minotauro do nosso labirinto somos nós mesmos!

Quando penso nos mistérios do amor — não digo que o seu dilema transita por aí —, lembro-me de Rosalinda, a filha do Duque banido, na Peça “Como Gostais”, a nona das dezoito comédias de WILLIAM SHAKESPEARE:

“. . . mal se encontraram, logo se olharam; mal se olharam, logo se amaram; mal se amaram, logo suspiraram; mal suspiraram, logo perguntaram o motivo de haverem suspirado; mal souberam a razão, logo procuraram o remédio...” (SHAKESPEARE, William. Como gostais. Peça escrita em 1600, a nona das dezoito comédias do Autor. Ato V, Cena II).

Esse é o verdadeiro amor: misterioso e inexplicável, insensato e perigoso, quase insano, mas inevitável.

Ainda não se inventaram armaduras contra as dores do amor! Mas é preferível andar à beira do precipício a se proteger numa fortaleza de gelo. É só aprender a voar e não ter medo do abismo. Mas é preciso cuidado para não sair aos pedaços...

A forma como reagimos ao trauma, enfim, a nossa reação de defesa, se não for amadurecida pelo autoconhecimento, pode nos prender ao passado que causa dor. Acabamos repetindo os eventos não superados, em ciclos inconscientes de autossabotagem, em que aprofundamos, sem perceber, as nossas cicatrizes, passando-lhes a gilete em cada passo da vida, para reviver antigas dores, como noites eternas. Mudamos alguns personagens da vida, mas o enredo continua o mesmo.

A experiência do trauma, desperdiçada na negação ou no esquecimento, acaba não servindo para impedir a sua repetição! Mergulhados na ignorância, deixamos de dar significado às vivências geradoras de conflito e desequilíbrio, perdendo a chance de construir significantes e valores que, partindo da consciência plena do passado, e sem desconhecer a dor e o trauma, possam permear atitudes e respostas mais adaptáveis aos golpes inesperados da vida amorosa.

Por imaturidade e medo de sofrer no futuro, acabamos sofrendo no presente, revivendo antigas dores em novos traumas, que não passam de velhos enredos, nascidos da recusa em dar sentido ao sofrimento.

"O que não enfrentamos em nós mesmos será nosso destino", dizia Carl Jung!

Em todas as curvas do destino, o ser humano carente de afetos vê antigos personagens do drama que reprimiu, sem perceber que eles só existem e resistem nas suas projeções, que são os canais por onde retornam à sua vida.

Reaja com inteligência e cautela, mas sem coçar as feridas, tentando retornar à fantasia, porque esse é o processo natural da cura. Também não aprofunde as cicatrizes, passando-lhes a gilete todos os dias, para reviver antigas dores, como noites eternas. Deixe o dia chegar, iluminando os caminhos, e lembre-se que até o sol, para renascer, precisa recolher-se no outro lado do mundo. Deixe o planeta girar, enquanto você renasce!

Essa coceirinha, metáfora da vontade de voltar ao passado, é o início da cura. Resista e deixe o tempo se encarregar do resto! A espera de algo novo, que rompa as correntes da mesmice, não é o fim do mundo, nem a vitória do lado Sombrio da Força. Pode ter certeza de que Darth Vader não venceu a batalha contra Luke Skywalker. Saiba que, no “Retorno de Jedi”, em Endor, Luke queima o corpo do pai, Darth Vader (antes Anakin Skywalker), em um funeral Jedi, e vê que ele, finalmente, se tornou um espírito do Lado Iluminado da Força, ao aparecer juntamente com Obi-Wan Kenobi e Yoda. Por isso, queime seus medos e fracassos, mas guarde as cinzas na urna da experiência, como lembrança constante daquele passado que você não precisa reviver para alcançar o mesmo resultado anterior.

Use a razão, se não deseja repetir histórias que precisam ser sepultadas (cadáveres insepultos apodrecem a nossa vida); ou use a emoção (coração), se deseja passar a gilete sobre a ferida.

Muitas vezes alimentamos a ilusão de que o outro, depois de nos abandonar ou de nos trair, haverá de voltar, rastejando e sofrendo. Mas isso raramente acontece, e temos que lidar, sozinhos, com a dor da separação.

O ex-amor que nos dilacerou o coração nem sempre volta do inferno, para rasgar as nossas cicatrizes ou apodrecer as nossas feridas! Provavelmente permanecerá por lá, assombrando outras pessoas iludidas e cheias de expectativas, como nós.

Na verdade, enquanto nos importamos com a volta do outro ou com o seu sofrimento, ainda não superamos a sua ausência.

Não se importe com o outro e menos ainda com a sua felicidade ou infelicidade sem você.

Não seja prisioneira do ódio nem do ressentimento por alguém que se foi por vontade própria ou porque não soube agir com maturidade.

Que seja feliz bem longe de você!

Quer saber de uma coisa? Ainda bem que raramente voltam! Isso não passa de um desejo reprimido no inconsciente pelo nosso ego crispado de dor pela certeza da ausência.

E só dói porque o amor fica estrangulado entre a certeza da ausência definitiva do outro e o saber de um amor que ainda não se foi.

É passado? Então, deixe passar!

Mas não decida nada enquanto estiver sangrando. Se o fizer, acabará abrindo mão do que sobrou da sua autoestima. Dai para perdoar o que não tem perdão será um pequeno passo.

A traição jamais será apagada, mas você pode aprender com a experiência. Aprender o quê? — Você me pergunta. A se amar e não idealizar príncipes!

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

Deixe fluir! Isso é vida, e não um fluxograma. Nada como um amor depois do outro...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post scriptum: eu posso estar completamente errado! Apenas falei em voz alta e, talvez, nada daqui se aproveite. Mas, se não escolhi o silêncio diante das suas postagens sem autoestima e repletas de ressentimento — o que seria mais aconselhável —, fi-lo porque você é uma pessoa especial na minha vida e na vida de muita gente. Você pode até me odiar por não alimentar a sua autopiedade, mas prefiro lançar algumas dúvidas a permanecer calado.