segunda-feira, 17 de julho de 2017

Reencontrando o fio da meada...

Reencontrando o fio da meada...

Depois que abandonei o Direito e a Advocacia, para me dedicar exclusivamente à literatura, comecei a desfazer, lentamente, as infinitas memórias da minha vida, tentando transformar as experiências traumáticas em maturidade, um saudável exercício para quem se aproxima do flanco descendente da escalada, aquele instante em que começamos a descer a ladeira e se inicia o lento e inexorável declínio do vigor físico, quando o corpo já não acompanha os devaneios da mente.

Mesmo sem muitos leitores, continuarei nas trilhas do bom e velho Rocinante, lutando contra moinhos de vento imaginários, como fazia o engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha em seu amor por Dulcinea del Toboso. Ser pobre, eu diria miserável, e ainda escrever — nesse mundo de seres vazios, que não cultivam o hábito da leitura — é bem pior, talvez, do que desafiar moinhos de vento.

Apesar das forças invisíveis que me levam a desistir de escrever — e a falta de remuneração é a maior delas —, continuarei sendo essa “metamorfose ambulante”, indefinível, meio louco, por vezes insensato, que mistura Machado com Proust, mas não se esquece de Sartre; que almoça com Victor Hugo e janta com Kafka; que sonha com Freud e se alimenta de Saramago, mas celebra com Vinícius a “Receita de Mulher”, e ainda sonha com aquela “Mulher sem Pecado”, de Nélson Rodrigues, trajando, quem sabe, o seu lindo “Vestido de Noiva”.

 Acreditem, amigos leitores, mas eu realmente sobrevivi ao “Ulisses”, de James Joyce; fui ao “Inferno” e ao “Purgatório”, com Dante; conheci o amaldiçoado “Doutor Fausto”, de Goethe, e o doce “Menino de Engenho”, do tristemente esquecido José Lins do Rego.

 Confesso, porém, que aprendi a ler nos gibis e nos contos de Perrault, de Andersen e de Grimm, para viajar com o “Pequeno Príncipe”, nas asas do “Correio do Sul”, na doce companhia de Saint-Exupéry e seu pequeno avião. Na verdade, só queria passar “Cem Anos de Solidão” com os Buendía, de Gabriel García Márquez.

Com ou sem leitores, continuarei a expiar os meus “crimes”, para, quem sabe, receber o merecido castigo, com Dostoiévski. Não quero ser pretensioso, nem arrogante, mas eu gosto mesmo é da “Ilíada” e da “Odisseia”, e não do Instagram ou das fotos banais e narcísicas da última balada.

A culpa, bem o sei, é do meu pai e da minha mãe, que me enfiaram nos livros ainda criança, “punindo-me” com educação e cultura! Agora é tarde para esquecê-los.

Eu quero mesmo é me deliciar com a “Divina Comédia”, aprender, com Ivan Fiodorovitch Karamazov, que sou “plenamente mortal”, que não existe ressurreição, para poder, enfim, aceitar a morte com altivez e tranquilidade. Compreender, finalmente, que não há razão para reclamar que a vida é um só instante e que, por isso, eu devo amar de verdade, sem esperar recompensa. Amor é jogo de sedução, e não de poder!

Prefiro viver as angústias de “Guerra e Paz”, com Leon Tolstói, do que perder tempo com as “delícias” do Michel Teló. Amo Baudelaire e Rimbaud, não tolero mexericos de aldeia e desprezo quem procura a minha alma no tênis que calço, imaginando que os caminhos da minha existência foram traçados pela Nike, em alguma fábrica da China.

Que me perdoe o Rei Roberto Carlos, mas “esse cara sou eu”, ser humano cheio de falhas, quase sempre solitário, permanentemente insatisfeito, que nasceu nos livros e vai morrer entre eles! Estou longe da beleza de Apolo, não tenho a força de Hércules, nem conheço os caminhos do coração feminino e, muito menos, os segredos da sedução! Não tenho respostas, e mal comecei a descobrir as perguntas! Mas “esse cara sou eu”: miserável, mas não escravo; torturado e fatalista, mas não iludido.

Assim, taciturno e azedo, doce a amargo, triste em alguns dias, alegre em outros, seguirei escrevendo, mesmo que as minhas palavras não encontrem leitores, como acontece quase todos os dias, nesse tempo de memes e pequenas mensagens de 140 caracteres.

A minha página pública do Facebook (“Contos e Crônicas do Araken”), até aqui um completo fracasso (apenas 181 seguidores), permanecerá viva até o meu derradeiro suspiro, ainda que seja eu mesmo o meu único leitor.

Em que pese andar desestimulado, agradeço aos 181 amigos que a curtiram, não com a intenção de me lisonjear, algo que definitivamente não mereço, mas para acompanhar os meus escritos e mal escritos.

Depois de dois meses sem publicar, reencontrei o fio da meada, que se perdera na gravíssima depressão que me acomete. Se essa doença insidiosa se curou? De modo algum! Na verdade, nem a tratei. As minhas resistências em buscar ajuda especializada — e só um psiquiatra resolveria — são bem maiores do que a vontade de curar a depressão. Escrevo para liberar a peçonha e não morrer envenenado. Só escrevendo, não desisto de viver...

A vida chega ao seu fim, triste e inexorável, quando nos acomodamos ao tédio e vivemos na varanda, sentados em velhas cadeiras de balanço, abandonados pelos parentes e amigos, esperando o nosso enterro passar. Acho que cheguei a esse ponto... Luto todos os dias contra o meu abismo insondável... Sempre existe uma ponte para pular, mas a literatura me dá asas para voar...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post Scriptum: a ilustração faz parte do espetáculo Fio da meada”, de Luiz Pizzaro, também chamado de “instalação performática” pelo próprio Autor, já que mistura artes visuais, literatura, música e vídeo numa profunda reflexão sobre o processo criativo.