terça-feira, 9 de maio de 2017

Por que me considero apenas um coletor de palavras?

Por que me considero apenas um coletor de palavras?

Muitos leitores estranham que, ao final dos meus textos, eu sempre me defina como "coletor de palavras”, e não como escritor de verdade.

Creio — não por falsa modéstia, mas por reconhecimento das minhas limitações — que não mereço a qualificação honrosa de Escritor, algo que está muito além da minha capacidade de saber iludir.

Na verdade, Escritor é quem já foi publicado algum dia, quem teve noite de autógrafos e livros vendidos. É preciso, portanto, um livro com capa e boa diagramação, algo real que possa ser folheado pelo leitor, despertando o seu interesse.

Eu nunca tive nada disso, nem mesmo um e-book. Aliás, a minha Peça de Teatro, a maior obra da minha vida, foi abandonada depois do ponto final, por absoluta descrença na sua sobrevivência nesse mundo cruel e diabólico, que desfaz sonhos e utopias, especialmente dos que se iludem com o próprio talento literário.

O que eu faço é autopromoção nas redes sociais. Eu simplesmente invado o espaço virtual do leitor, e o faço sem ser convidado.

Algumas pessoas, especialmente os amigos, poderão objetar:

— Mas os seus textos são publicados no mundo virtual, o meio mais rápido e eficiente de comunicação da modernidade.

Essa é a questão: os meus textos não são publicados em virtude do reconhecimento alheio; eles são "autopublicados", se me permitem o neologismo, e isso faz uma grande diferença...

Reduzido, assim, ao mínimo essencial, eu não passo de um farsante que perambula no reino das palavras, fazendo do fracasso existencial a argamassa dos seus escritos.

A pouco e pouco, as minhas palavras — que brotam da vida que não vivi, que nascem no berço da hipocrisia de uma vida que não vivo, de um homem que não sou — formam frases; as frases tecem parágrafos; e esses parágrafos, misteriosamente, se convertem nos textos que “autopublico” no meu Blog...

Talento? Que nada: isso é apenas consequência da internet disponível e do desejo narcísico de ser Escritor, algo que não tenho a ilusão de que irei me tornar. Já tive ilusões grandiosas, e nelas eu era um grande Escritor, mas a realidade me fez vendar os olhos à utopia.

Contraditoriamente, eu luto para acreditar que, no deserto dessa vida insignificante a que me condenei, ainda pode nascer um lírio! Se renunciar às minhas autopublicações pretensiosamente literárias, sufocarei no silêncio...

Como disse o Cazuza, "vou sobrevivendo da caridade de quem me detesta...". Não exatamente como ele, "sem arranhões", mas cheio de escaras e marcas de queimadura na pele sensível do ego.

Um Escritor sem livros é como um engenheiro que nunca construiu um prédio, como um médico que nunca curou um paciente, como um piloto de aviões que nunca abandonou a quietude do hangar...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.