quinta-feira, 9 de março de 2017

A justiça que me convém

A justiça que me convém

Para iniciar o monólogo, farei uma confissão: eu não sou justo! Ao menos, não sempre e, quando o sou, credito a minha aparente justiça ao acaso, exatamente como Maria Agustina Bessa-Luís:

“Eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência. O fato de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.” (BESSA-LUÍS, Maria Agustina. Dicionário Imperfeito. Seleção e Organização de Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. Lisboa: Guimarães Editores, 2008. p. 14).

Não espere, portanto, que eu seja justo com você: sou apenas humano e, depois de abandonar a máscara da candura e da sabedoria, passei a ter dificuldade para exercitar a hipocrisia.

Não que eu tenha qualquer pudor em me revelar hipócrita. Bem ao contrario, revelar-me-ia o rei dos hipócritas, se assim me propusesse a atuar no teatro de máscaras disso que chamo de existência e você, de vida. Não se iluda comigo! É por pura maldade que não sou absolutamente falso. A máscara da hipocrisia — que, bem vestida e ajustada, disfarçaria o odor pútrido das minhas entranhas, dando-lhes o cheiro adocicado da astúcia e da bondade — seria a mesma que, ao me projetar no mundo como um ser humano perfeito, recalcaria a crueldade submersa no meu ser, essa mesma selvageria e brutalidade que desejo libertar das sombras, para gratificar na realidade.

É, portanto, para não me sufocar com a minha própria ignomínia, que escolho revelar o monstro cruel e desumano que me habita. Você que se aguente com os comigos de mim mesmo...

O seu desprezo realmente não me importa. Já foi essencial para mim a sua aprovação para aos meus atos, os seus elogios para a minha autoconfiança. Hoje, depois de olhar para o abismo, deixei de me iludir com essa tal autoestima. Bom sabedor que me tornei da absoluta banalidade dos meus gestos, caminhos e escritos, eu mesmo me desprezo, e com singular habilidade. Nunca serei sábio, nunca serei rico e, malgrado os segredos da cosmética e da cirurgia plástica, jamais serei o exemplar perfeito da beleza de Adônis.

Estou mais para o Dionisíaco — da realidade brutal, da volúpia, da embriaguês e da lubricidade sem freios, das contradições, da desintegração e fragmentação do eu e dos subterrâneos do Hades —, do que para o apolíneo — dos padrões beleza, da serenidade no Olimpo e da vivência, na literatura e na arte, de realidades que só existem nos sonhos e na ilusão. A harmonia entre o apolíneo e o dionisíaco, na balança do meu self, está pendendo para o dionisíaco e, diante da brutal realidade que não consigo disfarçar de ilusão, caminho no limiar do abismo, com os pés trôpegos e o corpo letárgico.

Bem sei da minha negatividade diante da existência, esse niilismo que corrói as entranhas do meu ser decadente, e tal consciência, bem longe de me curar, só agrava a doença:

“Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa.
(...)
...não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência é uma doença. Insisto nisso.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Memórias do subsolo. Tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman — São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 18).

Assim fala o narrador-personagem, nas suas “Memórias do Subsolo”, uma densa jornada em direção a si mesmo, a introspecção de um depressivo em seu mergulho existencial, um anti-herói, confessadamente sem caráter, que contempla no espelho os traços mais negativos da sua personalidade.

Creio-me bem parecido com o personagem de Dostoiévski e, a cada dia, mais próximo da loucura. Talvez eu tenha me tornado masoquista, alguém que passa a gilete nos pulsos emocionais. Descobri que a verdade talvez não seja tão sublime quanto os meus sonhos de infância...

A minha existência pode até enfadá-lo, causar-lhe alguma irritação ou antipatia, mas — asseguro-lhe — não preciso da sua aprovação para as veredas tortuosas que segui. Sou um homem doente! — Já o disse em outros textos, e continuarei a dizê-lo. Se essa afirmação o assusta, poupe-se de ler o que escrevo, e experimente ceder ao desejo irresistível de fazer outra coisa, quem sabe ler algum texto idílico que o ajude a ver o mundo cor de rosa. As redes sociais estão repletas de memes...

Eu até posso ajudá-lo, se você desejar se desconstruir... Posso até ir mais longe, dando-lhe o empurrão que lhe falta diante do precipício... Isso o assusta? Que bom!... Fico feliz ao perceber uma pontinha de ressentimento na sua escuta, uma estranha sensação de hostilidade na sua mente autopiedosa. Meu caro leitor, não me suplique misericórdia! Não passarei as mãos sobre a sua cabecinha iluminada pela bem-aventurança. Sou um ser das sombras, e não da luz.

Tanto maior, aliás, é a consciência que adquiro sobre o meu papel secundário nesse mundo de homens de razão e saber — o mundo perfeito e idílico dos bem-aventurados —, tanto maior o prazer que sinto em ser um ponto fora da curva. Sou apenas um ser ignóbil que se afoga no lodo da sua própria ignomínia!

Com passos largos e resolutos, caminho para a inconsciência do belo e do sublime. Dizia Immanuel Kant que a experiência de prazer — que o belo evoca — não está nas coisas, mas no olhar do sujeito e na sua própria imaginação. Seria, portanto, um processo de subjetivação.

Com o meu olhar niilista, é natural que a experiência de prazer, no meu caso, acabe sendo encoberta por uma névoa espessa e amarga, que embaça o colorido das coisas. Tornei-me demasiado consciente da maldade que fervilha nas camadas mais profundas do meu ser e, nesse estágio da minha fragmentação, já não me deixo seduzir pelos seus rótulos, padrões e arquétipos. A experiência do belo, por si só, já não me seduz. Creio que alcancei o estágio de consciência em que o homem se nutre da sua própria iniquidade e degradação! Vejo beleza no caos, e isso o assusta...

Dar-lhe-ia um espelho, se pudesse, para que você, contemplando-se pelo olhar da alteridade, percebesse o semblante de abjeção e espanto, esse asco indisfarçável que crispa o seu rosto a cada palavra que escrevo.

Com os meus textos de autodesconstrução, desejo destilar o veneno da realidade, cultivar o feio, refestelar-me com os seres sombrios, flertar com o anti-herói e dançar nas convenções dessa sociedade apodrecida e hipócrita.

O que não causa dor não vale ser escrito! Para cantar o belo e o sublime, leiam os sábios da bem-aventurança, cultivem os cancioneiros da ilusão e da autoajuda. Eles só escrevem as palavras que você deseja ler. Eu sou apenas o idiota da esquina! Posso escrever o que os homens bons se recusam a dizer. E por que toda essa fúria? Simplesmente porque “sou um homem doente... Um homem mau... Um homem desagradável...” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 18).

Agora, depois de tantas desventuras, encanecido na realidade, já não me importo em parecer nobre e bem-aventurado. Sou o que sou e não preciso da aprovação de ninguém! Não me importo com a desaprovação dos amigos e falsos amigos, nem com os seus olhares de desprezo.

Como o personagem de “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski,

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso — que para nada serve — de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 17).

Sou o idiota que me tornei nos últimos dois anos, um ser humano bem distante do sábio hipócrita que fui um dia! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o que você pensa a meu respeito. O que você pensa de mim é problema seu! Se já me é cansativo saber o que penso de você, ainda mais inútil e penoso seria perder o meu tempo de vida — mais curto do que os meus sonhos — tentando entender o que você pensa de mim.

Quer mesmo a verdade? Sou apenas um rato. Não me pejo nem me orgulho do que sou! Apenas sou... ou me tornei um rato...

Na lama fétida do meu subsolo, zombeteiro de mim mesmo, esgueirando-me pelas fendas da autoindulgência, envenenado por desejos insatisfeitos, que ainda percorrem as minhas entranhas, acabei prisioneiro desse mundo de dúvidas e inquietações, sobrevivendo — recluso, mas resiliente — nessa lama fétida que você chama de sociedade.

Nesse consciente enterrar-me vivo, acumulei culpas e arrependimentos, que arrasto no meu subsolo, como correntes imaginárias, peçonhas que envenenam as decisões que tomei no tempo perdido, quando ainda imaginava, iludido, que sentimentos e emoções podem existir para sempre. Nada é para sempre, nem os meus desenganos!

Hoje, refazendo os caminhos que me levaram ao subsolo, começo a perceber que sobrevivi, apesar de tudo. Aprendi a viver como os ratos, esgueirando-me nos esconderijos do subsolo, entre as fendas do mundo idílico das redes sociais, para sorrir diante de um simples queijo embolorado.

Mas será que esse negativismo existencial é verdadeiro? – É o que me vejo indagando diante do espelho ultimamente.

Começo a me imaginar como o inseto em que se transformou Gregório Samsa, n“A Metamorfose”, de Franz Kafka. A carapaça que o protege da ausência de esqueleto interno, chamada, não por acaso de exoesqueleto, pode ser dura por fora, resistente ao primeiro contato da alteridade. Contudo, sob esse revestimento asqueroso e espinhento, esconde-se um ser frágil e disforme, um inseto molenga e indefeso que se mostra ao mundo fazendo caretas, para assustar os que desejam feri-lo.

Esse niilismo, que assombra as pessoas, pode ser o exoesqueleto das minhas fragilidades, a carapaça cheia de espinhos que me protege da diluição no vazio da normose.

Para não me transformar em suco, uso os meus espinhos niilistas... Mas não se assuste com parte de mim que toca em você: é só o meu esqueleto de inseto a me proteger...

O que escrevo não é refúgio, é catarse; não é a rosa que colore a vida, é a gilete que rasga a carne envilecida; não é a fuga da realidade, é a confrontação do que sou, mas não posso mudar.

Quero ser cruel e desalmado. Sou o cara das tragédias, e não da mitologia que salva; da morte sem glória e sem lamento, e não da redenção pelo heroísmo.

Portanto, não espere justiça nas minhas palavras. Se eu fui justo com você algum dia, perdoe-me: foi mera coincidência...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post Scriptum: a pintura que ilustra o texto — Justice” —, um extraordinário exemplo do poder de persuasão da arte de rua, é de Nikolaj-Arndt e foi realizada para o  “Street Art Fest”, em Haia, na Holanda.