sexta-feira, 24 de março de 2017

Os padrões de beleza da contemporaneidade

Os padrões de beleza da contemporaneidade

Será mesmo que a inteligência seduz mais do que o culto ao corpo sarado?... Será que os gordinhos são aceitos no mundo contemporâneo? Ou são apenas tolerados, talvez por complacência piedosa, essa atitude falsamente caridosa que tem cheiro e cor de preconceito?

Pense bem nas vezes em que você disse “coitadinho”, ao ver um ser humano que não se encaixa nos padrões de beleza da sociedade da aparência e do consumo, essas correntes narcísicas que lhe foram impostas na formação do seu aparelho psíquico.

Como diz o Livro de Eclesiastes (12:8):

"Vanitas vanitatum (...) et omnia vanitas" ("vaidade de vaidades (...) tudo é vaidade").

O que é a moda, senão a camisa de força ilusória que os escravos do conformismo social usam para encobrir a própria banalidade? Ou, mudando as palavras, a muleta emocional que os desamparados usam para se sentirem aceitos nesse mundo de aparências e consumo fútil?

Os que vivem além da normose, resistindo aos padrões excludentes e reducionistas que as modas impõem às pessoas e seus corpos, condenam-se ao ascetismo e à solidão. E não é fácil navegar contra a corrente em um rio tão caudaloso...

Eu mesmo, temendo não ser aceito nesse mundo de superfluidades, costumava esconder-me na zona de conforto da normose, aferrando-me, sem perceber, aos padrões que me ditavam as modas mais tolas e alienantes, que surgiam para me aprisionar ao consumo.

Como andava cabisbaixo diante do desamparo, que chamo de mal-estar do processo civilizatório, não percebia que a moda, na verdade, era o muro que me impedia de ver o outro lado... Como diz a música da banda Pink Floyd, na ópera Rock de 1979, “somos apenas mais um tijolo no muro” (“Another brick in the wall”).

Nossos professores e ídolos ditam certezas que nos acomodam na resignação consumista, a escola transforma seres pensantes em autômatos, carne moída e triturada pela propaganda alienante das grandes corporações do capital, cidadãos da normose, padronizados em arquétipos que aprisionam a sua criatividade em muros, pessoas que se reproduzem em massa, para atender às necessidades do sistema político dominante.

Construíram o muro, e nos tornamos parte dele!

Contudo, para quem vive como gado, nada melhor do que a moda. As grandes corporações e academias de culto ao corpo agradecem...

Se você pensa como todo mundo, não se iluda: você é apenas um tolo... alguém está pensando por você...

Continue sendo apenas mais um tijolo no muro da exclusão social, rotulando seres humanos e os excluindo do seu mundinho cor de rosa, de gente com barriga de tanquinho, bunda na nuca e sem estria ou celulite — esse é um direito seu —, mas não coloque os seus padrões no meu corpo nem na minha mente! Eu não sou um desejo seu...

Reconheço, contudo, que o culto ao corpo se tornou uma obsessão da modernidade: as mulheres cultuam abdomens, bíceps e peitorais, enquanto os homens se encantam com bundas na nuca e peitões.

As barriguinhas, celulites e estrias se tornaram chagas cancerosas, quase feridas narcísicas, segundo os padrões de beleza do mundo contemporâneo, que se aprisiona à imagem, e não à essência das coisas e das pessoas.

Bem que eu queria que fosse diferente, enfim que o cérebro valesse mais do que a aparência física, mas a realidade me prova o contrário todos os dias.

As pessoas se esquecem da lei da gravidade: tudo cai um dia...


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


quinta-feira, 23 de março de 2017

O que são cartas de amor?

O que são cartas de amor?

Começo pela definição de Maria Agustina Bessa-Luís:

“Um nada, de diferentes ausências; um tocar a resistência das ilusões presentes, para as tornar realidades perdidas. Os poetas sabem escrever assim, mas não é amor...” (BESSA-LUÍS, Maria Agustina. Dicionário Imperfeito. Seleção e Organização de Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. Lisboa: Guimarães Editores, 2008. p. 43).

Antes de tudo, podemos assentar que não é possível escrever cartas de amor, se não conhecemos o objeto do discurso amoroso. Então, o que é mesmo o amor? Você já tentou defini-lo?

Em seus “Fragmentos de um discurso amoroso”, Roland Barthes define o amor:

“Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo” (BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso Amoroso, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981, p. 14).

Será que amor é o desejo que reconheço no outro, e não em mim mesmo? Enfim, é a especialidade de um desejo que tem o outro como objeto? Mas, nesse caso, o deslocamento do meu desejo para um objeto externo não cria, em mim mesmo, uma ferida narcísica, já que procuro no outro a realização de um desejo que é apenas meu? E se o outro não vê como designada em mim a especialidade do seu próprio desejo, correspondendo, na mesma medida, ao amor que lhe ofereço? Esse amor, tornando-se platônico e unilateral, será apenas paixão?

A resposta a esses dilemas existenciais é bem simples: o amor, quando não firma compromisso com a realidade, mas, apenas, com o princípio do prazer, acaba se transformando em dor! Essa agonia, porém, não se cria do nada; ela resulta da transformação em dor de algum afeto (sentimento ou emoção) mal resolvido!

Nas desilusões de amor, o que mais dilacera o coração é saber que não se devolvem lágrimas roubadas de olhos iludidos. Por isso, ao transformar em palavras o seu amor dilacerado, é melhor não projetar no outro a realização de todos os seus desejos!

Quando se entregar a alguém, por amor ou por simples prazer, quando significar em palavras o sentimento amoroso que pulsa no seu coração, deixe algo insinuado, promissor, mas não revelado, algo inacessível e misterioso, que não possa ser decifrado nas suas cartas.

O sabor do imponderável, a indecifrável poesia do oculto, é que mantém vivo o interesse. Quando a sua alma se desnuda por completo, o desejo abandona seu claustro e encontra o tédio.

Quem a decifra por inteiro acaba por devorá-la, e você fica sem nada... Castrar os desejos e pulsões, muitas vezes, é uma necessidade. Nas suas cartas de amor, não se precipite com as palavras: elas podem devorá-la!

Mas nada na vida é assim tão simples: as pulsões e desejos, quando recalcados no inconsciente, são como peçonhas que envenenam o destino; quando inteiramente gratificados, são como o paraíso que oferece tudo sem dor, mas torna a vida enfadonha.

Essa é a difícil missão do ser humano: equilibrar-se entre as repressões do ego, que resfriam o self com as censuras do superego, e esse fogo do id, que se revolta contra a realidade. Apesar desse mal estar, precisamos conviver em sociedade, aproveitando os benefícios que o grupo nos proporciona em termos de segurança, e isso só é possível quando fazemos sacrifícios pulsionais, renunciando, em certa medida, aos desejos que não se harmonizam com a alteridade. Mas essa equação não é assim tão simples...

Negue os seus desejos por completo, e essa ausência acaba dirigindo a sua vida, criando os abismos em que você se precipita; aceite-os como parte do self, gratifique-os no limite da realidade, e eles se tornam aliados na caminhada existencial, fornecendo a você,  caminhante, o combustível do prazer.

Quem navega no mar da negação, alheando-se às águas que pulsam nas regiões profundas do inconsciente, não se imuniza contra as ondas que surgem abaixo do ego e emergem na superfície, criando esse mar revolto que faz naufragar a ilusão de que a vida pode ser sempre e infinitamente bela, de que existe prazer sem dor, felicidade sem sofrimento, quente sem frio, luz sem sombra.

Quando damos certa liberdade aos desejos e pulsões, abrindo, com palavras soltas ao vento, essas pequenas janelas no claustro em que os encobrimos, eles deixam de criar o destino que tentamos evitar. Para domá-los, precisamos conhecê-los. Negar a sombra não a faz menos sombria. Iluminado é quem consegue tornar consciente a maior parte da maldade que pulsa no inconsciente e, assim, pode dominá-la.

Não deixe, portanto, de aprisionar alguns desejos em suas cartas de amor, não apenas porque a realidade, muitas vezes, assim o impõe, mas para evitar o enfado. O desejo que não encontra seu claustro transforma-se em tédio.

Contudo, eu poderia lembrar outro motivo, para não dar liberdade a todos os seus desejos: quanto mais você deseja ter, mais peso tem para carregar.

Como diz um antigo provérbio indiano:

"Os desejos que repousam em seus ombros são como sacos de pedras. Se você não pode passar sem nenhum desejo, esforce-se pelo menos para que eles sejam leves, pois terá que carregá-los.”

E esse fardo tem nome: frustração! Por isso, ao deitar no papel ou na telinha do smartphone as suas palavras, não entregue todo o seu mundo interior e, sobretudo, não invente sentimentos e emoções.

Minha amiga leitora, uma coisa eu aprendi na vida: o amor não é brincadeira de criança! Ou para você o amor é um jogo? Sendo um jogo, é um jogo de poder? Manipular as emoções seria a primeira regra desse jogo de cartas marcadas?

Vamos imaginar que sim, apenas para refletir...

Pois bem: sendo um jogo de poder — como você insinua — dar a primeira cartada afetiva significa entregar o domínio da partida? Em outras palavras, quem primeiro demonstra afeto cede o controle do jogo ao outro?

Antes de responder, pense nas relações que fracassaram em sua vida. Com elas em mente, responda a si mesma as perguntas que vou fazer:

Invariavelmente, você era a primeira a ligar ou enviar mensagens e a última a se despedir? Dava presentinhos nos aniversários e ocasiões especiais, mas ele raramente trazia algo, mesmo podendo? Lembrava-se das datas importantes, e ele se fazia de esquecido? Quando seus olhos se cruzavam, você achava romântico ir ao encontro dele primeiro? Sempre o beijava, mesmo quando ele não tirava os olhos da periguete na fila do cinema? Quando um beijo lhe parecia um presente especial da parte dele, você se insinuava com a sutileza de um elefante, fazendo boquinha sensual e carinha de pidona? Na hora do sexo, você abanava o rabinho para ele, como uma cadela no cio? Estava sempre disponível, buscando encontrar nele o afeto perdido, mesmo quando o via tentando fugir, sem você, para as mil e uma atividades que ele adorava despejar em sua autoestima?

Em todas as vezes que agiu assim, quem pareceu mais frágil e carente, sempre entregando as cartas ao outro? Era você mesma, eu sei! Você entregou o jogo, revelou todos os ases que deveria esconder na manga. Não faça isso nas suas cartas de amor... Insinue-se, mas não se desnude por inteiro! Repita isso como um mantra.

Sabe o que faltou nesse jogo? Amor próprio! Você só estava disponível demais para amores de menos. Quem se trata pateticamente, como você, acaba se tornando o bufão no jogo do amor. Quem muito mendiga afeição recebe apenas migalhas!

Mas quem é esse projeto mal acabado de Escritor, para falar assim comigo? — Você deve estar pensando com os seus botões.

Ressentida com o passado, necessitando de uma escuta piedosa para a sua autocomiseração, você começa a achar que estou sendo frio com os seus sentimentos mais nobres, esses que você derrama como pétalas de rosas em suas cartas e mensagens de amor.

— O amor é assim mesmo, nem sempre justo, nem sempre fácil, mas não pode ter regras! — Você me responde, tentando salvar a dignidade que ainda lhe resta.

Minha querida leitora, vá devagar com o andor, que o santo é de barro! Entenda primeiro o caminho a que anseio levá-la, para depois me julgar. E não é para o caminho das relações mecânicas e utilitárias que desejo convidá-la, nem para o mundo das cartas de amor sem resposta, essas que envelhecem na posta-restante à espera da sua dignidade.

Só reduzindo seu pensamento ao absurdo, porém, posso revelar o peso da crueldade que ele derrama sobre você.

As relações humanas, quando se transformam em jogos de poder, deixam de ser amor e se tornam jogos de guerra.

Antes de entregar as suas cartas ou de escondê-las, veja se vale a pena jogar. Enquanto se encarar o amor como um jogo de poder, sempre haverá dominantes e dominados. Não preciso dizer quem sofre mais, quando essas guerras terminam...

Se você sempre levou a pior, sempre acabou com as piores cartas nas mãos, lembre-se de que, se houve um derrotado, no caso você mesma, o vencedor era seu adversário, e não amante; era um jogo de poder, e não de amor!

No jogo, os seres humanos são antagonistas, e não parceiros: um deseja a derrota do outro, enfim, a submissão do outro à sua própria vontade! Ninguém joga para perder! Se for esse o seu perfil de amor ideal, vá em frente, mas leve Sun Tzu e a “Arte da Guerra” com você. Quando perder esse jogo de cartas marcadas, não culpe o destino!

Se não for esse o amor que você persegue, desarme-se!

Seja como for, porém, não se iluda: o desejo que não encontra seu claustro pode se transformar em tédio, e o gozo que não acaba pode incendiá-la. De fato, é inegável que o desejo que você aprisiona tende a se fortalecer, como aquela dor que dói ainda mais a cada instante em que você nega o seu significado.

O que eu devo fazer, então? Enclausurar os desejos e pulsões ou gratificá-los? — Você me indaga, já perplexa com as minhas contradições.

Se existissem receitas de vida não valeria a pena viver...

Você quer respostas? Por que eu deveria tê-las, se você não faz ideia das perguntas?

Apenas uma receita eu tenho, e infalível: não use as suas palavras em vão! Se não tiver nada a dizer, escolha o silêncio! Não crie no outro, nem alimente em si mesma as esperanças vãs, essas que você, de si para si, já sabe que jamais se transformarão em realidade. Quando as expectativas começam, a relação acaba! Desse momento em diante, você chora mais do que sorri, e o amor se transforma em obsessão.

Estranha criatura é o Homo sapiens: nem sempre desejamos algo (ou alguém) porque o julgamos bom para nós, mas, ao contrário, simplesmente o julgamos bom porque desejamos. O desejo, quase sempre, precede a razão!

Mas será desejável aprisionar o destino nas correntes da razão, vivendo sem o imponderável da vida? No equilíbrio entre a cabeça e o coração, entre o instinto e a razão pode estar pendurada, por um fio, a sua felicidade...

Olhar para dentro será o melhor remédio na viagem que a conduzirá a si mesma, e a palavra, a melhor companheira! Escute boas músicas, leia bons livros, vá ao teatro e aprecie as imagens do inconsciente, reveladas nas pinturas. As palavras nascem quando menos se espera... Procure-as nos ermos do tempo, como eu mesmo ando fazendo...

Antes, porém de escrever, descubra-se! Encontre a sombra e você saberá onde se esconde a luz! O ser humano desconhecido é você mesma e seus desejos ocultos. Depois de ser quem você está destinada a ser, liberte-se! No instante em que se desvencilhar dos pesos desnecessários, que carrega na forma de projeções e recalcamentos, as palavras de amor fluirão dos seus lábios ressecados pela dor. Essas cartas, a pouco e pouco, formarão frases; as frases haverão de tecer belos parágrafos; e esses parágrafos, misteriosamente, se converterão em cartas de amor...

Não importa quão espinhosa tenha sido a sua caminhada até aqui. Nunca permita que se congelem as suas emoções e sentimentos, pois serão eles — transformando a dor em empatia e afeto — que se decomporão em palavras! Essas lágrimas de dor e desventura que pulsam no seu coração, embora perdidas no tempo dos afetos dilacerados, não podem impedi-la de arriscar novos amores... e novas cartas de amor...

Não há nada definitivo, nem absolutamente seguro na existência humana. Nem a sua vida é para sempre. Feliz ou infeliz, amando ou odiando, invejando ou realizando, o certo é que o suspiro final chegará a qualquer instante. Aproveite esse pequeno intervalo entre o nascimento e a morte. É só o que você tem.

Complicado demais para você? Pois assim é o amor! Se fosse apenas hormônio, não valeria a pena amar. E amar sem medida, mesmo correndo o risco de se precipitar no abismo, ainda é, e sempre será, o melhor remédio.

Ao amor que se perdeu no tempo, simplesmente recite a velha canção do Julio Iglesias:

“Hey,
Não pense que lhe guardo algum rancor.
É sempre mais feliz quem mais amou,
E quem mais amou fui eu.”
(Hey, canção de Julio Iglesias, G. Belfiore, M. Balducci e R. Arcusa)

Sobre a irresistível força do amor e seus fios invisíveis, que nos conduzem no curto caminho entre a vida e a morte, disse Sófocles, pela voz do Coro, na Tragédia Antígona:

“Amor, invencível Amor, tu que subjugas os mais poderosos; tu, que repousas nas faces mimosas das virgens; tu que reinas, tanto na vastidão dos mares, como na humilde cabana do pastor; nem os deuses imortais, nem os homens de vida transitória podem fugir a teus golpes; e, quem for por ti ferido, perde o uso da razão!
Tu arrastas, muita vez, o justo à prática da injustiça, e o virtuoso, ao crime; tu semeias a discórdia entre as famílias.... Tudo cede à sedução do olhar de uma mulher formosa, de uma noiva ansiosamente desejada; tu, Amor, te equiparas, no poder, às leis supremas do universo...” (Sófocles, in Antígona).

Entre a razão e a emoção, simplesmente escolha o amor! Só assim, amando, você escreverá cartas de amor... Essa é a primeira verdade que lhe confesso.

Antes de escrevê-las, porém, entenda que o amor não se mede em graus; o amor não se controla, o amor não tem regras, não tem script, não obedece a fórmulas e convenções. O amor perturba os sentidos, tira do prumo, expõe os paradoxos, muda tudo em que acreditamos. O amor faz o sangue circular nas veias, multiplica a vontade, soma a energia, divide a tristeza, diminui o desânimo.

E nunca se esqueça da regra mais importante: cartas de amor não se escrevem com a razão, mas com a emoção! Essa é a minha segunda verdade, tão essencial quanto a primeira.

A razão transita por paradigmas, traz a acomodação e a rotina: vemos o mundo em preto e branco, com poucas notas que se repetem, como as músicas da moda, que gritam muito, e não dizem nada. Quando agimos apenas pela razão, perdemos, muitas vezes, a humanidade, a experiência do outro. Esbarramos na finitude da vida.

E cartas de amor, minha querida amiga, transitam pela emoção. Elas nascem quando as emoções transbordam, quando as palavras escapam do claustro dos sentimentos reprimidos no inconsciente; cartas de amor são o gotejar dos afetos que já não podem ser contidos no oceano do nosso desejo.

O amor nos impulsiona para novas fronteiras, para o salto no escuro, onde não valem as nossas certezas: vemos o mundo colorido como o arco-íris, sonoro como uma sinfonia. No amor, humanizamo-nos, deixamos de nos sentir medíocres, contingentes e mortais. No amor, navegamos em mares desconhecidos, em meio a tormentas, sem segurança, sem certezas, mas sentindo o gostinho de sal na ponta da língua.

Cartas de amor narram sagas do nosso coração, tormentas que enfrentamos no mar da existência, portos em que deitamos as nossas âncoras...

Ao contrário do amor — esse que inspira cartas, vinhos e rosas —, a razão é constante, regular, simétrica, sem riscos, mas sem empolgação, sem sal, sem tempero.

Com a razão agem os poetas, eternos fingidores; os que escrevem cartas de amor agem pela emoção...

Quem ama não tem medo de parecer ridículo; quem ama inova e se recicla, amadurece, abandona os paradigmas, perde o prumo, aprecia a caminhada. Quem só usa a razão, e não se entrega ao amor, encolhe, se apequena, perde o sabor dos brigadeiros da vida, não percebe o arco-íris, o cheiro de chuva. E não escreve cartas de amor...

Mesmo o amor dilacerado é melhor do que a racionalidade de quem, por carregar no peito uma ferida afetiva, perdeu a audácia dos que preferem correr riscos. Amar sem plano “B”, sem plano de contingência, sem rede de proteção é mais emocionante do que permanecer no casulo, protegido do mundo, prisioneiro do medo de explorar novas fronteiras, de ver as sombras, para reconhecer a luz.

É no amor perdido, no amor platônico, no amor de perdição, no amor solitário dos corações feridos que encontramos o sentido da vida. Quando caímos no abismo, nasce o amor próprio, e mudamos o destino, alteramos o roteiro do nosso teatro de máscaras. Passamos a ser, que é muito mais do que apenas existir. Na dor, encontramos o prazer; no sofrimento amoroso, encontramos a alegria de conviver com o self. Quando o amor se perde na desilusão, quando entregamos o coração e acabamos feridos, olhamos para dentro de nós mesmos, depuramos a alma e nos libertamos da centralidade no outro.

Entre a razão e a emoção, escolha o amor! Só assim, amando, sentirá que está vivo. Quando deixar de amar, estará morto!

Agora que temos uma vaga ideia do que é o amor, ressurge a indagação inicial: como tecer um discurso amoroso?

Meu amigo leitor, se você ainda não sabe como iniciá-lo, perdoe-me por desfazer as suas ilusões: você ainda não conheceu o amor... Ame primeiro, para depois falar de amor!

Não se desaponte com este coletor de palavras! Se você deseja uma carta de amor já pronta e acabada, uma narrativa comovente e fantasiosa, para capturar o objeto do seu amor, algo que baste preencher com o nome da pessoa amada, não o gaste seu tempo copiando o meu discurso amoroso! Simplesmente ame...

Como aprendiz de escritor, eu até saberia escrever uma carta assim como você deseja, mas não seria amor... seria poesia...


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nascemos para morrer

Nascemos para morrer

Ao refletir sobre a vida e a morte, recordo-me do que dizia o Seu Marciano, pai de Eduardo, no Romance “Encontro Marcado”, de Fernando Sabino:

“Nascemos para morrer — nada pior do que não ter nascido. A vida tem dessas contradições, dizia o pai. Onde as verdades eternas? O tempo levava tudo, ele não tinha onde se ancorar.” (SABINO, Fernando. Encontro marcado. 32. ed. Rio de Janeiro: Record, 1981. p. 60).

E o próprio Eduardo, repetindo as palavras do pai, costumava sentenciar aos amigos sobre o tempo e a eternidade:

“Caminhamos para a morte. O futuro se converte, a cada instante, em passado. O presente não existe. Vivemos a morte desde o nascimento. Nascemos para morrer.” (SABINO, Fernando. Op. Cit. p. 147).

E se hoje fosse o seu último dia? Seria melhor recordar o passado, enfim, relaxar, com um bom vinho, e assistir, nostálgico, ao filme da sua vida, passando diante dos olhos? Ou seria melhor aproveitar os derradeiros instantes para fazer algo diferente e especial?

Mas esse algo seria o que mesmo? Reconciliar-se com alguém? Pedir-lhe perdão? Dispor sobre os seus bens? Arranjar o enterro, recomendando, talvez, um sepultamento “sem choro nem vela”, quem sabe “uma fita amarela, gravada com o nome dela”?... Nada de “flores nem coroa com espinho”, mas apenas “choro de flauta, violão e cavaquinho”... O Noel Rosa quis assim... E o Noel, ah, ele era simplesmente o Noel...

Deixe de se iludir! Você teve a vida inteira para tecer os fios invisíveis que formam o destino, e só agora, diante da morte, decide fazer algo especial?

Acho que você desperdiçaria o seu tempo remoendo-se de autopiedade, e não saberia o que fazer de bom e útil, se soubesse que hoje é o seu último dia. Sabe por quê? Porque você não aceita que amanhã pode ser tarde demais... Por isso, continua acomodado na sua zona de conforto.

Como a grande poetisa americana Edna St. Vincent Millay, você prefere o seu canto fúnebre sem música. . .

“Não me conformo em ver baixarem à terra dura os corações amorosos,
É assim, assim há de ser, pois assim tem sido desde tempos imemoriais:
Partem para a treva os sábios e os encantadores. Coroados de louros e de lírios, partem; porém não me conformo com isso.

Amantes, pensadores, misturados com a terra!
Unificados com a triste, indistinta poeira.
Um fragmento do que sentíeis, do que sabíeis,
uma fórmula, uma frase resta — porém o melhor se perdeu.

As réplicas vivas, rápidas, o olhar sincero, o riso, o amor foram-se embora. Foram-se para alimento das rosas.
Elegante, ondulosa é a flor. Perfumada é a flor. Eu sei. Porém não estou de acordo.
Mais preciosa era a luz em vossos olhos do que todas as rosas do mundo.

Vão baixando, baixando, baixando à escuridão do túmulo suavemente, os belos, os carinhosos, os bons.
Tranquilamente baixam os espirituosos, os engraçados, os valorosos.
Eu sei. Porém não estou de acordo. E não me conformo.” (“Canto fúnebre sem música”, poema de Edna St. Vincent Millay, traduzido por Carlos Drummond de Andrade).

Como os poemas perdem um pouco do seu encanto, nas traduções, mesmo nas que são feitas por grandes poetas, como Drummond, cito o original, em inglês, para os apreciadores da boa poesia:

“DIRGE WITHOUT MUSIC

I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely. Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains, — but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,
They are gone. They are gone to feed the roses. Elegant and curled Is the blossom. Fragrant is the blossom. I know. But I do not approve
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know. But I do not approve. And I am not resigned.”
(MILLAY, Edna St. Vincent. Poems. Classic Poetry Series. PoemHunter.com/The World’s Poetry Archive). 

Viver é uma possibilidade, morrer, uma obrigação!

No último suspiro, será tarde demais para dizer: — “E se. . .?”

Pior do que a morte, sempre inevitável e insensível, é partir com tantos “se’s” em sua vida!

Dizia Thomas Hobbes, no Leviatã:

“... a vida do homem é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta.” (HOBBES, Thomas, 1588-1679. Leviatã; organizado por Richard Tuck; tradução de João Paulo Monteiro, Maria Beatriz Nizza da Silva e Claudia Berliner. Ed. brasileira supervisionada por Eunice Ostrensky. — São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 109).

Aproveite! Hoje pode ser o seu último dia... A morte espreita em cada esquina... A minha mãe faleceu há dois meses, sozinha num velho sofá... Nada de lamentos e abraços... Nenhum aviso... O seu coração simplesmente se cansou... E ela cerrou os olhos com um livro nas mãos... Não por acaso, os “Cem Anos de Solidão”, do Gabriel Garcia Márquez...

Como bem disse o Narrador, no Romance “Encontro Marcado”, de Fernando Sabino:

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.” (SABINO, Fernando. Op. Cit. p. 147).


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Eu estava fazendo merda na vida, e a ilusão me chamou...

Eu estava fazendo merda na vida, e a ilusão me chamou...

Depois de tanto fazer merda na vida, quer dizer que você se tornou doutora em decepção?

Essa é a ilusão que anestesia a sua ferida narcísica, fazendo-a menos dolorosa?

Lamento dizer que deveria ser assim, mas nem sempre aprendemos com a decepção. De fato, ela raramente nos ensina algo.

Infelizmente, acabamos repetindo nossas experiências traumáticas, principalmente os comportamentos autodestrutivos, em ciclos de autossabotagem que apenas se renovam.

Fazemos escolhas erradas, buscamos o mesmo tipo de pessoa, o mesmo tipo de emprego frustrante e alimentamos a expectativa de resultados diferentes.

E esse comportamento se repete ao longo da vida. Quando tudo parece estar indo no caminho certo, nos sabotamos.

Mudamos apenas o nome da pessoa a quem acusamos de nos decepcionar, mas continuamos nos sabotando e fazendo tudo do mesmo jeito, sempre nos iludindo com a ideia de que, agora, aprendemos.

Muitos esfriam o coração pelo medo de reviver as dores do passado, mas acabam sucumbindo à tentação de fazer tudo novamente, com outra pessoa e o mesmo enredo. Com medo de enfrentar a realidade, ainda buscamos culpados para as nossas próprias culpas.

Condenar-se a reviver, em outras relações, o mesmo evento traumático e os sentimentos a ele associados, em ciclos de autossabotagem; ou "esfriar o coração" são reações defensivas do ego crispado pela dor.

Nos dois casos, recalcamos o trauma, na esperança de fugir dos sentimentos que ele evoca. As nossas reações defensivas, infelizmente imaturas, refletem o desperdício das vivências passadas e levam a novos fracassos, já que indicam dificuldade de lidar com a dor.

Quando reexperimentamos o trauma, buscando parceiros do mesmo tipo, o processo de autossabotagem é evidente, porque fazemos as mesmas escolhas erradas, mas nos iludimos com a expectativa de resultados diferentes. Recalcamos as nossas culpas e as depositamos no antigo parceiro, sem perceber que o novo é um espelho do anterior, que, por sua vez, pode ser a nossa própria imagem refletida no espelho.

Quando recalcamos o trauma e os sentimentos a ele associados, "esfriando o coração", também reagimos de forma defensiva. Deixamos de aprofundar os relacionamentos, mantendo-os na superfície, como forma de nos defendermos da dor futura, que acabamos vivendo no presente, na forma de um vazio existencial que reflete a ausência de amor.

É o inconsciente moldando nossas vidas conscientes. E o ego, tentando alhear-se ao que se passa na parte submersa do iceberg, continua a atribuir as nossas desventuras ao destino.

A decepção até ensina, mas raramente aprendemos, e as vivências traumáticas acabam retornando como sintomas neuróticos.


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo, alguém que sequer descobriu as perguntas, e não tem qualquer pretensão de saber as respostas.

quinta-feira, 9 de março de 2017

A justiça que me convém

A justiça que me convém

Para iniciar o monólogo, farei uma confissão: eu não sou justo! Ao menos, não sempre e, quando o sou, credito a minha aparente justiça ao acaso, exatamente como Maria Agustina Bessa-Luís:

“Eu não sou justa, ajuízo as coisas. Eu e a justiça somos pura coincidência. O fato de isto se repetir faz talvez o prodígio, mas não a certeza.” (BESSA-LUÍS, Maria Agustina. Dicionário Imperfeito. Seleção e Organização de Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira. Lisboa: Guimarães Editores, 2008. p. 14).

Não espere, portanto, que eu seja justo com você: sou apenas humano e, depois de abandonar a máscara da candura e da sabedoria, passei a ter dificuldade para exercitar a hipocrisia.

Não que eu tenha qualquer pudor em me revelar hipócrita. Bem ao contrario, revelar-me-ia o rei dos hipócritas, se assim me propusesse a atuar no teatro de máscaras disso que chamo de existência e você, de vida. Não se iluda comigo! É por pura maldade que não sou absolutamente falso. A máscara da hipocrisia — que, bem vestida e ajustada, disfarçaria o odor pútrido das minhas entranhas, dando-lhes o cheiro adocicado da astúcia e da bondade — seria a mesma que, ao me projetar no mundo como um ser humano perfeito, recalcaria a crueldade submersa no meu ser, essa mesma selvageria e brutalidade que desejo libertar das sombras, para gratificar na realidade.

É, portanto, para não me sufocar com a minha própria ignomínia, que escolho revelar o monstro cruel e desumano que me habita. Você que se aguente com os comigos de mim mesmo...

O seu desprezo realmente não me importa. Já foi essencial para mim a sua aprovação para aos meus atos, os seus elogios para a minha autoconfiança. Hoje, depois de olhar para o abismo, deixei de me iludir com essa tal autoestima. Bom sabedor que me tornei da absoluta banalidade dos meus gestos, caminhos e escritos, eu mesmo me desprezo, e com singular habilidade. Nunca serei sábio, nunca serei rico e, malgrado os segredos da cosmética e da cirurgia plástica, jamais serei o exemplar perfeito da beleza de Adônis.

Estou mais para o Dionisíaco — da realidade brutal, da volúpia, da embriaguês e da lubricidade sem freios, das contradições, da desintegração e fragmentação do eu e dos subterrâneos do Hades —, do que para o apolíneo — dos padrões beleza, da serenidade no Olimpo e da vivência, na literatura e na arte, de realidades que só existem nos sonhos e na ilusão. A harmonia entre o apolíneo e o dionisíaco, na balança do meu self, está pendendo para o dionisíaco e, diante da brutal realidade que não consigo disfarçar de ilusão, caminho no limiar do abismo, com os pés trôpegos e o corpo letárgico.

Bem sei da minha negatividade diante da existência, esse niilismo que corrói as entranhas do meu ser decadente, e tal consciência, bem longe de me curar, só agrava a doença:

“Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa.
(...)
...não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência é uma doença. Insisto nisso.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Memórias do subsolo. Tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman — São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 18).

Assim fala o narrador-personagem, nas suas “Memórias do Subsolo”, uma densa jornada em direção a si mesmo, a introspecção de um depressivo em seu mergulho existencial, um anti-herói, confessadamente sem caráter, que contempla no espelho os traços mais negativos da sua personalidade.

Creio-me bem parecido com o personagem de Dostoiévski e, a cada dia, mais próximo da loucura. Talvez eu tenha me tornado masoquista, alguém que passa a gilete nos pulsos emocionais. Descobri que a verdade talvez não seja tão sublime quanto os meus sonhos de infância...

A minha existência pode até enfadá-lo, causar-lhe alguma irritação ou antipatia, mas — asseguro-lhe — não preciso da sua aprovação para as veredas tortuosas que segui. Sou um homem doente! — Já o disse em outros textos, e continuarei a dizê-lo. Se essa afirmação o assusta, poupe-se de ler o que escrevo, e experimente ceder ao desejo irresistível de fazer outra coisa, quem sabe ler algum texto idílico que o ajude a ver o mundo cor de rosa. As redes sociais estão repletas de memes...

Eu até posso ajudá-lo, se você desejar se desconstruir... Posso até ir mais longe, dando-lhe o empurrão que lhe falta diante do precipício... Isso o assusta? Que bom!... Fico feliz ao perceber uma pontinha de ressentimento na sua escuta, uma estranha sensação de hostilidade na sua mente autopiedosa. Meu caro leitor, não me suplique misericórdia! Não passarei as mãos sobre a sua cabecinha iluminada pela bem-aventurança. Sou um ser das sombras, e não da luz.

Tanto maior, aliás, é a consciência que adquiro sobre o meu papel secundário nesse mundo de homens de razão e saber — o mundo perfeito e idílico dos bem-aventurados —, tanto maior o prazer que sinto em ser um ponto fora da curva. Sou apenas um ser ignóbil que se afoga no lodo da sua própria ignomínia!

Com passos largos e resolutos, caminho para a inconsciência do belo e do sublime. Dizia Immanuel Kant que a experiência de prazer — que o belo evoca — não está nas coisas, mas no olhar do sujeito e na sua própria imaginação. Seria, portanto, um processo de subjetivação.

Com o meu olhar niilista, é natural que a experiência de prazer, no meu caso, acabe sendo encoberta por uma névoa espessa e amarga, que embaça o colorido das coisas. Tornei-me demasiado consciente da maldade que fervilha nas camadas mais profundas do meu ser e, nesse estágio da minha fragmentação, já não me deixo seduzir pelos seus rótulos, padrões e arquétipos. A experiência do belo, por si só, já não me seduz. Creio que alcancei o estágio de consciência em que o homem se nutre da sua própria iniquidade e degradação! Vejo beleza no caos, e isso o assusta...

Dar-lhe-ia um espelho, se pudesse, para que você, contemplando-se pelo olhar da alteridade, percebesse o semblante de abjeção e espanto, esse asco indisfarçável que crispa o seu rosto a cada palavra que escrevo.

Com os meus textos de autodesconstrução, desejo destilar o veneno da realidade, cultivar o feio, refestelar-me com os seres sombrios, flertar com o anti-herói e dançar nas convenções dessa sociedade apodrecida e hipócrita.

O que não causa dor não vale ser escrito! Para cantar o belo e o sublime, leiam os sábios da bem-aventurança, cultivem os cancioneiros da ilusão e da autoajuda. Eles só escrevem as palavras que você deseja ler. Eu sou apenas o idiota da esquina! Posso escrever o que os homens bons se recusam a dizer. E por que toda essa fúria? Simplesmente porque “sou um homem doente... Um homem mau... Um homem desagradável...” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 18).

Agora, depois de tantas desventuras, encanecido na realidade, já não me importo em parecer nobre e bem-aventurado. Sou o que sou e não preciso da aprovação de ninguém! Não me importo com a desaprovação dos amigos e falsos amigos, nem com os seus olhares de desprezo.

Como o personagem de “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski,

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso — que para nada serve — de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 17).

Sou o idiota que me tornei nos últimos dois anos, um ser humano bem distante do sábio hipócrita que fui um dia! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o que você pensa a meu respeito. O que você pensa de mim é problema seu! Se já me é cansativo saber o que penso de você, ainda mais inútil e penoso seria perder o meu tempo de vida — mais curto do que os meus sonhos — tentando entender o que você pensa de mim.

Quer mesmo a verdade? Sou apenas um rato. Não me pejo nem me orgulho do que sou! Apenas sou... ou me tornei um rato...

Na lama fétida do meu subsolo, zombeteiro de mim mesmo, esgueirando-me pelas fendas da autoindulgência, envenenado por desejos insatisfeitos, que ainda percorrem as minhas entranhas, acabei prisioneiro desse mundo de dúvidas e inquietações, sobrevivendo — recluso, mas resiliente — nessa lama fétida que você chama de sociedade.

Nesse consciente enterrar-me vivo, acumulei culpas e arrependimentos, que arrasto no meu subsolo, como correntes imaginárias, peçonhas que envenenam as decisões que tomei no tempo perdido, quando ainda imaginava, iludido, que sentimentos e emoções podem existir para sempre. Nada é para sempre, nem os meus desenganos!

Hoje, refazendo os caminhos que me levaram ao subsolo, começo a perceber que sobrevivi, apesar de tudo. Aprendi a viver como os ratos, esgueirando-me nos esconderijos do subsolo, entre as fendas do mundo idílico das redes sociais, para sorrir diante de um simples queijo embolorado.

Mas será que esse negativismo existencial é verdadeiro? – É o que me vejo indagando diante do espelho ultimamente.

Começo a me imaginar como o inseto em que se transformou Gregório Samsa, n“A Metamorfose”, de Franz Kafka. A carapaça que o protege da ausência de esqueleto interno, chamada, não por acaso de exoesqueleto, pode ser dura por fora, resistente ao primeiro contato da alteridade. Contudo, sob esse revestimento asqueroso e espinhento, esconde-se um ser frágil e disforme, um inseto molenga e indefeso que se mostra ao mundo fazendo caretas, para assustar os que desejam feri-lo.

Esse niilismo, que assombra as pessoas, pode ser o exoesqueleto das minhas fragilidades, a carapaça cheia de espinhos que me protege da diluição no vazio da normose.

Para não me transformar em suco, uso os meus espinhos niilistas... Mas não se assuste com parte de mim que toca em você: é só o meu esqueleto de inseto a me proteger...

O que escrevo não é refúgio, é catarse; não é a rosa que colore a vida, é a gilete que rasga a carne envilecida; não é a fuga da realidade, é a confrontação do que sou, mas não posso mudar.

Quero ser cruel e desalmado. Sou o cara das tragédias, e não da mitologia que salva; da morte sem glória e sem lamento, e não da redenção pelo heroísmo.

Portanto, não espere justiça nas minhas palavras. Se eu fui justo com você algum dia, perdoe-me: foi mera coincidência...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post Scriptum: a pintura que ilustra o texto — Justice” —, um extraordinário exemplo do poder de persuasão da arte de rua, é de Nikolaj-Arndt e foi realizada para o  “Street Art Fest”, em Haia, na Holanda.