sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Feliz navidad!

Feliz navidad!

Muitas vezes não é o dinheiro que importa, nem o cargo ou a posição social! Tudo isso passa, num lindo caixão de madeira...

Hoje — que não tenho um só centavo no bolso, nem cargos ou carreira —, eu enxergo a vida com o olhar melancólico de quem está do lado de cá da sociedade da aparência, o mundo dos excluídos, onde não existem boates ou restaurantes e bares da moda, nem belas roupas e passeios nos shopping centers.

Basta, muitas vezes, um pequeno gesto de solidariedade e empatia; enxergar o outro, e não o próprio umbigo. Só é preciso escutar a criança que pede ajuda nas esquinas do mundo!

Depois que mergulhei na miséria e, por autossabotagem existencial, perdi a soberba de outrora, comecei a aprender — não sem dor e desilusão! — que as pessoas que cruzaram os meus caminhos, malgrado a ingratidão com que os tratei, nem sempre desejavam o que eu podia comprar tempos atrás: muitas vezes, ela só precisavam do abraço e do beijo que eu nunca dera. Por mais que eu valorizasse o que possuía naqueles tempos (“carreira, dinheiro e canudo”), o dinheiro não trazia a tal felicidade! Nada fiz com o que conquistei, e hoje estou sozinho, tentando ressignificar a existência. E sem cartões de crédito, dinheiro e profissão, o que é ainda mais inspirador...

Egoísta é quem, como eu, não dedicou a vida a algo maior do que si próprio. Sempre fui assim, e não me pejo de confessá-lo, não a essa altura da vida, quando já caminho no flanco descendente da escalada! Sou um péssimo guia para quem está perdido! Autocomiseração hipócrita? Queria eu que fosse esse o caso. Essa é, contudo, a prosaica e frustrante realidade! Nada fiz, até hoje, que não tivesse como pressuposto a centralidade do meu próprio ego. Andei ocupado demais comigo mesmo, para pensar nos outros. Até os meus filhos, eu "abandonei"! O meu pai, eu o sepultei no eco do meu Narciso: não troco palavras e olhares com ele há quatro anos. Negligenciei a minha mãe, que morreu sozinha num velho sofá no início deste ano, sem um abraço na hora da partida. Passei os últimos três anos da sua triste vida sem vê-la. Ela jamais escutou dos meus lábios uma declaração de amor, mas acho que, no fim das contas, ela só queria do filho um gesto de carinho no momento da despedida. Nem isso eu lhe concedi, e o seu corpo, o mesmo que me fez ser humano, numa maternidade do Rio de Janeiro, só foi encontrado alguns dias depois, ainda sentado no velho sofá: sozinha, como ela esteve a maior parte da sua vida...

Por que eu revelo segredos inconfessáveis e obscuros publicamente? Porque não desejo parecer melhor do que sou! Longe de mim tentar iludi-lo com atos heroicos e feitos grandiosos, como muitos fazem nas redes sociais. Já fui hipócrita demais, por tempo demais... Você pode até me desprezar, e esse é um direito seu, mas se não se iluda: eu faço isso com uma gilete mais afiada do que a sua! Os meus pulsos emocionais, cheios de sulcos profundos e dolorosos, são como estradas que levam ao abismo em que me precipitei. Não sinta piedade de mim, pois nem isso eu fiz por merecer. Pense na sua própria existência, reciclando-a para torná-la melhor do que a minha...

Tudo que eu sonhei, até bem pouco tempo, incluía-me, como se nada tivesse sentido sem mim, como se as minhas dores fossem maiores e mais profundas do que as da criança esfomeada no sinal de trânsito. Esse é o mal-estar que me consome nos últimos tempos: perceber que tudo que foi antes de mim será exatamente o mesmo depois que eu morrer. Nada que eu fiz até hoje teve na alteridade a sua razão de ser. Nunca agi por compaixão ou altruísmo, pensando no outro, sem buscar a gratificação egoísta dos meus próprios desejos. Por tudo que fiz e, ainda mais, pelo que deixei de fazer, eu passarei como um vendaval, alguns dias depois do último suspiro, caindo no olvido nas curvas sinuosas do espaço-tempo...

Contudo, não estou sozinho nesse inferno pessoal e intransferível! Mergulhados na avareza, muitos homens, nesse tempo de hiperconsumo e aparência, só abrem mão de seus bens no leito de morte, quando, chorando, renunciam ao que não podem levar para o túmulo. E lembram, entre lágrimas, que o desejo de possuir não lhes trouxe o gozo dos bens que acumularam em vida. Guardam para o futuro, retendo mais do que precisam, confiando na vida eterna... Ainda bem que eu perdi tudo bem antes da sepultura...Menos pedras para carregar...

Se a própria vida é temporária, quase sempre imponderável, por vezes injusta e surpreendente, eu escolhi não priorizar o futuro. Nem sei se haverá um... Mas não tem sido fácil viver o presente que forjei como destino, sem me deixar paralisar, nesse processo, pelo medo do que teria sido, se eu ao menos houvesse tentado outros caminhos.

Continuo ruminando, com nostalgia e dor, as experiências do passado, percebendo-me egoísta e insensível à dor do outro. Espero que você seja melhor do que eu! Se não for, use as minhas confissões para se reconectar com quem importa na sua vida. Poucos estarão ao seu lado, quando o Titanic naufragar. Não seja como eu, ou você acabará sozinho em sua ilha!...

Feliz natal a todos os meus leitores!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Que o nosso infinito particular não seja feito de paralelas, mas de encruzilhadas!...

Que o nosso infinito particular não seja feito de paralelas, mas de encruzilhadas!...

Não nos enganemos, meu caro leitor! Seres imperfeitos — como nós — não vivem amores perfeitos. Essa é uma ilusão do humano que existe em nós. Uma relação que dure a eternidade, sem sofrimento e dor, só é possível nas fábulas e romances, o reino onde a imaginação é a única fronteira.

Você quer mesmo a verdade?

Nós somos vítimas de amores perfeitos, mas amores perfeitos não deixam vítimas. Sabemos tudo sobre o amor; só não sabemos amar...

O jeito é me acostumar a viver sem o corpo da minha mulher ideal, para me aconchegar; sem a sua pele, para me aquecer. No meu refúgio, aqui, de longe, ainda sinto a sua boca querendo beijar-me...

Antes que me pergunte se ando sonhando demais, apresso-me em dizer que a minha mulher ideal não é um apenas sonho, nem uma utopia; ela existe no mundo real, embora eu prefira não declinar o seu nome. Ela se reconhecerá nos silêncios e reticências, ao ler esse texto...

Como disse no episódio número dois das minhas “Confissões”, eu não tive coragem de me aproximar, não por timidez, mas porque não desejo arrastá-la para o meu abismo existencial, profissional e financeiro. Nada mais egoísta do que cair no abismo segurando as mãos de quem poderia sobreviver.

Depois de alimentar esse amor platônico (sentimento que ainda preenche o meu coração), começo a me perguntar se ela percebe o que eu sinto. Será que esse afeto é correspondido? Será que existe alguma mulher por aí — outra, talvez —, alimentando um amor platônico por mim, sem que eu me dê conta?

Como quem confessa quer perdão, eu só desejo ser absolvido pela musa que me inspira. Perdoe-me a covardia desse amor idealizado! Talvez eu seja a pessoa certa para você, mas continuo negando à sua rua o direito de se encostar à minha.

Apenas force passagem na minha concha, se você também me deseja... Nada tenho a oferecer, salvo, talvez, o amor, esse sentimento que

"... me ensina a me alimentar de chamas e lágrimas, a definhar a verde esperança através do desejo, a escravizar de novo meu coração cada vez que o amor liberta seu rosto nobre daquele grande desdém." (Pequeno trecho de um poema de Vittoria Colonna, Marquesa de Pescara, um dos maiores nomes da poesia quinhentista italiana e, não por acaso, o grande amor não correspondido de Michelangelo Buonarroti).

Ao diabo as amenidades, às favas o perigo desses mares nunca dantes navegados!...

Como seria emocionante ser compreendido por pessoas sensíveis, como essa mulher de mil faces, essa musa do etéreo que me desnuda nas palavras que calo, muito mais do que nas que revelo entre os soluços do meu choro!

Desejo que tu me explores nas minhas reticências, que penetres os pequenos espaços da minha alma oculta, deixando pegadas na memória do meu coração.

Depois de saber da tua existência nesse planetinha azul, percebi, enfim, que existem amores platônicos, quase sempre idealizados, mas não necessariamente impossíveis...

A felicidade, por vezes, passa pela coragem de exorcizar os fantasmas do armário, percebendo que a experiência da vida precisa ser compartilhada com alguém que transite pelas nossas emoções mais profundas, enfim, que esteja aberto a namorar silêncios ao nosso lado, contando estrelas e admirando as águas que passam ligeiras em um pequeno curso d'água.

Só desejo essa mulher que me revele os mistérios do universo e o sentido da vida, sem meias palavras, sem máscaras e sem velhas opiniões formadas sobre tudo!

Na verdade, só aprendemos a caminhar durante a própria caminhada existencial! “Navegar é preciso, viver não é preciso”, dizia o Poeta Fernando Pessoa... Mesmo que a morte seja o prêmio, devemos abandonar o porto e singrar os mares e borrascas...

A minha inspiração, nos amores platônicos, vem de dentro d’alma. Mas prefiro amar de longe, recolhido no meu Castelo, desafiando moinhos de vento, como Dom Quixote de La Mancha em seu amor por Dulcineia, a perder a capacidade de amar alguém que me motiva a viver.

Se me tocas o coração com os teus versos? Que versos? — Tu me perguntas, aflita. Cada palavra tua é um poema de amor! Não me peças, nobre dama que te alteias da sacada do teu refúgio, para sufocar a poetisa que vive disfarçada em teu peito. Nunca roubaria teus sonhos! Na verdade, quero semeá-los com a minha arte...

 Sonhadores, como eu, nunca desistem de alcançar o impossível, desafiando moinhos de vento e grandes dragões, para não aceitar a felicidade possível!

Quero realizar o amor impossível, platônico, não correspondido, porque nele corre a seiva que me alimenta a alma!

Que orgulho eu teria de invadir a tua infinita mansidão, o regato do teu corpo, penetrar os teus arcanos insondáveis, saciar na tua seiva a minha sede de amor. Desejo-te como tu és, sem máscaras ou disfarces, ou como te imagino por fora da casca endurecida onde encontras o refúgio dos aflitos, o santuário que te protege da infelicidade!

Por te admirar assim, tão profundamente, alimento-me das côdeas de pão que deixas pelo caminho! Na escuridão da floresta em que sobrevivo perdido, tu me inspiras a continuar sonhando...

Quem sabe, um dia qualquer, sonhando juntos, os nossos sonhos — meros devaneios de amor — tornar-se-ão realidade!

Juro que nunca destruirei os teus sonhos, nem sepultarei o teu desejo de viver a felicidade impossível! As Cinderelas “de verdade” nunca percebem o sapatinho de cristal em seus pés... As que os alardeiam não passam de miragem...

Se as mulheres da minha vida fossem lunáticas e sonhadoras como tu te revelas, ao mirar o horizonte da vida, tudo faria sentido, e a existência seria um mar azul com o sol ao fundo, pintando de dourado as águas do horizonte.

Diante de tantos dilemas sem solução, diante da incerteza de qualquer dos caminhos possíveis, quem sabe, tentando o impossível, a vida encontra algum sentido. Por isso, se tu me amas, apenas insiste, persiste e desafia as muralhas do meu castelo. Por trás do meu fosso de recusas e negações — medos bobos que a realidade depositou nas sombras do meu inconsciente — pode existir um ser humano frágil e perdido. Ou me deixa só, se te faltar coragem para os desafios.

Se o nosso infinito particular for feito de paralelas, se o nosso destino for o eterno desencontro, sem encruzilhadas que nos aproximem, um grande beijo no teu coração!

Mas assim é o amor perfeito: absolutamente imaginário... E, contudo, ainda espero que o nosso infinito seja maior do que os outros. Quem sabe, num desses intervalos quânticos, existe um infinito só nosso, um pequeno vácuo nas curvas do espaço-tempo para nos amarmos?!...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O que você faria com a máquina do tempo?

O que você faria com a máquina do tempo?

Alterar o passado e conhecer o futuro antes da sua vivência efetiva, como se fosse possível viajar no tempo, é maior das utopias humanas; significa o dom de manipular o destino, de trocar as suas notas dissonantes e recriar a sinfonia perfeita.

Se chegássemos a esse estágio da evolução, seríamos — nós próprios ­— as divindades que cultuamos para adoçar a ilusão do paraíso. Seríamos os deuses onipresentes, oniscientes e onipotentes que povoam os mitos e lendas da humanidade, ainda hoje e desde os seus primórdios.

Dominar o tempo e ter a capacidade de dobrá-lo, encobrindo-o com o véu da negação, mais do que a infinitude da existência, expressaria a tão desejada imunidade contra as falhas e desventuras da vida, inclusive contra as que não conseguimos prever nem evitar.

Seria o dom supremo de reverter a morte, de desconstruir os caminhos que nos levaram ao sofrimento, tudo, enfim, que desejamos em nossas ilusões de felicidade eterna.

Teríamos esse dom divino, se fosse possível dobrar o tecido do espaço-tempo, criando um “loop” infinito que nos permitisse, em certo ponto do caminho, retornar ao evento inicial que nos levou ao erro. Poderíamos, assim, corrigi-lo, indefinida e sucessivamente, criando linhas de tempo diferentes e paralelas, como universos alternativos. Mas esse “loop” na curva do espaço-tempo, malgrado o desejo humano da infalibilidade ou, melhor dizendo, da corrigibilidade infinita, é puramente ficcional e especulativo, não superando, com cálculos matemáticos, os paradoxos e singularidades que uma viagem ao passado haveria de causar. Mesmo os “buracos de minhoca”, também conhecidos como “Pontes de Einstein-Rosen”, previstos, teoricamente, por Albert Einstein e Nathan Rosen, ainda são pouco compreendidos. Sabemos, desde a Teoria da Relatividade Geral, que matéria e energia deformam/dobram, em alguma medida, o espaço-tempo, mas isso não significa dizer que poderemos, em algum ponto do futuro, gerar a energia gravitacional necessária para manter as “Pontes de Einstein-Rosen” abertas, nas dimensões certas e no tempo necessário para que possam ser usadas em viagens espaço-temporais.

Aceitar que isso é impossível é sinal de maturidade, pois, em certo ponto do caminho, seríamos invadidos pelo tédio de uma vida sem esses eventos caótico que a tornam emocionante. Imagine, meu caro leitor, se pudéssemos voltar ao ano anterior a uma doença qualquer e, flagrando-a antes do seu nascedouro, conseguíssemos evitá-la. Decerto seria bom não ter doenças, mas isso não significaria, nem de longe, o dom da vida eterna. Nós retardaríamos a morte por algum tempo, mas não para sempre. A quem, na verdade, estaríamos iludindo? As células continuariam envelhecendo, os tecidos e órgãos chegariam ao seu esgotamento, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde. Demais disso, a simples possibilidade de apagar os erros do passado ou de prever o futuro trágico nos impediria de aprender.

Sempre restaria a máquina do tempo, para que pudéssemos refazer o destino, poupando-nos o esforço de acertar ou, ao menos, fazer melhor na vez seguinte. É justamente essa percepção de que muitos erros são definitivos e incorrigíveis, assim nas consequências essenciais como nas secundárias, que nos move na direção certa. Saber que o passado está imune aos nossos desejos e pulsões, criando um campo de força que nos impede de modificá-lo segundo a nossa vontade, persuade-nos a agir e reagir com mais cautela e equilíbrio ou, ao menos, deveria...

Precisamos da experiência do fracasso e da dor, sem a possibilidade de dobrar artificialmente o tempo, para que possamos respeitar os segundos e minutos de cada dia da existência.

Esse poder absoluto de desconstruir o passado ou de construir um futuro sem as incertezas do caos, muito mais do que paz e alívio, traria irresponsabilidade e insensatez.

Viveríamos assombrados com o passado, que ficaríamos tentados a modificar a todo instante, e atormentados com o passo seguinte em direção a um futuro que seria desconstruído todos os dias.

A máquina do tempo, tornando permeável o destino, seria a mais suprema das nossas angústias. Outras pessoas, por simples deleite, poderiam alterar o seu próprio destino, insensíveis ao fato de que, muitas vezes, alterando um evento determinado em suas vidas, podem desviar a minha existência do seu curso.

Imagine se Adolf Hitler pudesse avançar no tempo, para depois retornar com a tecnologia da bomba atômica... Ou se os terroristas do ISIS pudessem ser salvos da derrota por seus companheiros do futuro... Mencionarei algo mais simples: quem seria campeão mundial de futebol em 2014, se um torcedor brasileiro pudesse reconstruir a final da Copa do Mundo, matando o técnico e cinco jogadores da Alemanha na véspera da partida? E se um torcedor alemão, também com a máquina do tempo, retornasse à data em que o brasileiro decidiu viajar no tempo, matando-o antes que este último pudesse retornar ao passado?... Ou suponha que um assassino em série pudesse matar indefinidamente, sempre retornando ao passado para desfazer os crimes que praticara na véspera? Seriam crimes perfeitos...

No estágio atual da tecnologia, ainda bem distante de dominar o tempo, a criatura já se considera o reflexo narcísico do criador; no dia em que manipular do tempo, será o próprio criador. Como não acredito na existência desse criador perfeito de obras imperfeitas, e não confio na criatura, prefiro não embarcar nessa viagem insólita pelas veredas do tempo.

Não é a tecnologia que me aflige; eu tenho medo é dos viajantes! Com os humanos que temos, é melhor deixar por conta do imponderável...

A quem deseja voltar no tempo, eu recomendo que use a memória; a quem pretende conhecer o futuro, eu sugiro que o construa a partir dos sonhos.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


domingo, 5 de novembro de 2017

É verdadeiramente livre quem se acorrenta à insanidade dos outros?

É verdadeiramente livre quem se acorrenta à insanidade dos outros?

A vida pode ser banal e pequena, pode caminhar no preto e branco dos enganos e desenganos, como um grito de horror no inverno, ou pode ser bela e cheia de cores, como uma sinfonia de primavera.

De uma forma ou de outra — caminhante solitário ou ovelha do hebetismo, rico ou miserável, cúmplice da exploração ou indesejado que desafia moinhos de vento —, você terá o mesmo fim inexorável de todos os que o precederam e de todos os que ainda haverão de surgir nas sendas do tempo. Enquanto a humanidade não for extinta, tudo será como tem sido até aqui: não importa o que acumule de riquezas e experiências negativas ou positivas, da morte você não poderá escapar, por mais que tente fugir do seu espectro assustador. Diante dos abutres que o espreitam, só lhe resta, como lenitivo contra a angústia, apreciar a paisagem do percurso. A vitória, na linha de chegada, significará a morte, o fim da sua existência... Em seguida, virá o progressivo esquecimento pelos vivos, temerosos de que a sua extinção lembre que eles, também, são finitos, contingentes e mortais. Meu caro leitor, enterro dá fome! Não se engane: eles encherão a barriga no Shopping mais próximo, depois que o seu corpo sem vida baixar à campa.

Viver é ressignificar o desamparo todos os dias, rompendo as amarras que o aprisionam na zona de conforto. A vida deve ser um ponto fora da curva, um eco indistinto de sinfonias que o instiguem a flertar com o abismo, vagando com o louco da esquina, aquele da infância, que o convidava a caminhar em sua ilusão.

Aposto que você morria de medo daquele ser incompreendido, o homem sem rosto das esquinas sem nome, o cara esquisito que falava sozinho, com a mãezinha de outrora, que lhe soprava aos ouvidos palavras de amor. Bem sei que você se imaginava mais lúcido e mais digno do que ele. Mesmo agora — que se imagina amadurecido — você morre um pouco todos os dias, como Prometeu em seu rochedo na Cítia, mas não percebe que ele — o louco que fazia curvas no destino, o cara sem nome, sem comida e sem abrigo —, ele é que era feliz na sua aparente insanidade... Ele era livre para viver a sua própria loucura... Em suas mãos, pousavam borboletas aflitas em busca de paz e amor... E nas suas?...

Você — que se acorrentou à insanidade dos outros — é verdadeiramente livre ou é apenas gado humano? As piores correntes são imaginárias... Pare de seguir o rebanho e encontre seu próprio caminho!

Livre é quem vive a própria loucura, e não a loucura dos outros.

Enlouqueça, antes que seja tarde!


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

sábado, 4 de novembro de 2017

"Facebook live"

"Facebook live"

Não faça da sua vida um reality show! Se você não tem o que dizer ou mostrar — algo criativo e inteligente, que nos faça pensar ou sorrir —, escolha o silêncio. As suas transmissões ao vivo ("lives"), quando expõem o simples desejo narcísico de ser aceito e curtido (a famosa vontade de aparecer), só servem para eliminar o benefício da dúvida. Acabamos invadidos pela inquietante certeza da sua futilidade...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Pessoas aparentemente "certas" se transformam em frustração bem diante dos seus olhos?

Pessoas aparentemente "certas" se transformam em frustração bem diante dos seus olhos?

Na verdade, não nos apaixonamos pela pessoa errada. Apaixonamo-nos pela imagem "certa" (idealizada e irreal) que criamos da pessoa errada.

Idealizar seres humanos — perfeitamente ajustados aos nossos desejos e caprichos — é um mecanismo de defesa do ego para lidar com o desamparo, o mais nocivo deles, talvez, pois a projeção em outrem do ser humano perfeito, sendo ilusória, já que ninguém consegue atingi-lo, cria expectativas irreais, que, necessariamente, irão desaguar na vala comum dos desenganos.

Sempre que a satisfação dos desejos é adiada nasce a frustração, que dá origem aos transtornos de ansiedade, criando tensão no aparelho psíquico. Quando as nossas ilusões se desfazem, e isso fatalmente acontece, surgem os mecanismos de defesa ou fuga, e evitamos o conflito, agredindo ou erguendo barreiras. Fechamo-nos numa concha de culpas e ressentimentos, ao invés de crescer, mergulhando na raiz do desejo não alcançado, para saber a sua gênese profunda e, assim, controlar a pulsão de realizá-lo à custa da nossa própria felicidade. Precisamos sair da zona de conforto, deixando de culpar o mundo pelos nossos desejos insatisfeitos.

Quando a realidade nos impede de continuar projetando no outro esse ser ideal que julgamos merecer — um instante de epifania que mais cedo ou mais tarde nos atinge como um raio — o nosso ego, crispado de dor, já não consegue disfarçar a verdade sobre o outro, que começa a se revelar, gerando frustração e, com ela, ressentimento e projeção de culpa. De fato, é assim mesmo — cheio de virtudes e defeitos, aceitáveis e inaceitáveis — que o parceiro é e deve ser, pois, afinal de contas, ele não é um projeto nosso, um fantoche que possamos manipular segundo a nossa vontade. Nessa hora, nasce a frustração e, daí em diante, passamos a culpar o parceiro por não corresponder às expectativas que nós mesmos criamos. “É que Narciso acha feio o que não é espelho” — diz a canção do Caetano...

Se o outro não corresponder ao ser ideal que você concebeu em seus momentos de carência afetiva, afaste-se dele sem buscar culpados. Quem projetou a imagem do príncipe encantado foi você mesma. E, se foi ele que a induziu a isso, ainda maior será a razão para mantê-lo à distância. Ninguém muda por ninguém! E, quando muda algo, para satisfazer os nossos desejos e caprichos, o nome dessa “mudança” é ilusão. Sendo você mesma ou o outro o ilusionista, a vítima será sempre você.

Se o tempo de espera for excessivamente abreviado pela sua carência afetiva, não reclame se o Príncipe virar um chato. Conhecer, para conquistar, essa é a chave para os arcanos do universo, assim no amor, como na guerra! Separe as suas projeções da realidade; a imaginação da verdade. Dê tempo ao tempo antes de se entregar. Perceba as virtudes que agradam e os defeitos insuportáveis, para que nem você nem ele precisem representar uma tragédia ou uma trama burlesca. A verdade é sempre preferível à mentira, mesmo que possa derrubar o seu castelo de sonhos. Conheça-o por inteiro, antes de considerá-lo um Príncipe, porque você verá que ele pode ser apenas humano, meio Príncipe, meio chato, mas simplesmente humano, contingente e mortal, com múltiplos defeitos, alguns inaceitáveis, outro toleráveis, exatamente como você.

Buscamos a felicidade no outro e vivemos sonhando, quando deveríamos buscá-la em nós mesmos e acordar. Na verdade, quando olhamos para dentro, e despertamos, deixamos de sonhar com a felicidade do lado de fora. Mas é só na dor e na crise existencial, sempre inevitável, que descobrimos que a verdadeira felicidade vive dentro de nós, mesmo quando preferimos buscá-la na alteridade ou nos objetos de consumo. Ser feliz é uma experiência de prazer que não podemos terceirizar nem atrelar a alguém ou a algo que está fora de nós próprios. Quando isso acontece, criamos um prazer passageiro e ilusório, que acaba não compensando a dor e o sofrimento por que passamos para alcançá-lo. Aproveite a sua crise para algo além da dor.

"Sabemos que esse estado de dor extrema, mistura de esvaziamento do eu e de contração em uma imagem-lembrança, é a expressão de uma defesa, de um estremecimento de vida. Também sabemos que essa dor é a última muralha contra a loucura. No registro dos sentimentos humanos, a dor psíquica é efetivamente o derradeiro afeto, a última crispação do eu desesperado, que se retrai para não naufragar no nada" (NASIO, J. -D. O livro da dor e do amor; tradução, Lucy Magalhães. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.  p. 13).

Essa dor, verdadeira proteção contra a loucura, é a expressão de uma defesa em que esvaziamos o nosso próprio eu, descarregando, com gritos silenciosos, os nossos tormentos. Rasgamo-nos e nos remendamos continuamente, mas não evitamos a dor da nossa impenetrável infelicidade.

Esses amores tóxicos resultam, quase sempre, das nossas idealizações e desejos, que acabamos projetando no outro. Como só conhecemos o seu corpo e a sua máscara, idealizamos as qualidades desconhecidas, projetando nessa pessoa comum o rosário de virtudes que desejamos ver no Príncipe encantado ou na Cinderela. As qualidades que não conhecemos, simplesmente imaginamos, escondendo os defeitos sob o tapete da nossa carência afetiva. O medo de perdê-lo, como já ocorreu em nossas vidas, se encarrega do resto e nos faz obscurecer os olhos à realidade. Só vemos o que desejamos ver, e escondemos o resto, como se, fechando os olhos, tudo fosse desaparecer, e o objeto da nossa paixão, como num passe de mágica, pudesse transformar-se num modelo de virtude, à prova de tudo e de todos.

Depois de muito “inventar” pessoas perfeitas, que só existiam na minha mente imperfeita, depois de ver que eu próprio era o mais imperfeito de todos os humanos, eu percebi que não mereceria uma mulher perfeita, mesmo que ela existisse. Agora que fiquei sozinho, e já se passaram mais de três anos e meio desde a minha última relação afetiva ou sexual, eu só desejo alguém que não mude o que é, para me agradar, e que me aceite como eu sou. Quero uma mulher que não precise me transformar no seu projeto pessoal de vida para ser feliz. Ou isso ou continuarei só, bem ou mal acompanhado de mim mesmo. Já me resignei em morrer assim; afinal, morremos sós! A morte é o momento supremo da subjetividade, é uma experiência única, personalíssima e intransferível. Serei eu na campa a repousar...


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A caverna está dentro de nós... Sócrates é uma ilusão: Glauco sempre esteve sozinho...

A caverna está dentro de nós... Sócrates é uma ilusão: Glauco sempre esteve sozinho...

A maior e mais perene das ilusões humanas é achar que o ser humano merece ser "salvo". A caverna de Platão é o nosso inconsciente, e Sócrates, uma ilusão que criamos para lidar com o nosso próprio desamparo... Glauco sempre esteve sozinho, distraído com o seu Narciso interior! Ele não escuta nem vê; só grita...

Fazendo um "loop" metafórico nas curvas do espaço-tempo — a fim de conectar o passado e o presente —, eu queria imaginar como seria a vida de Platão nos tempos modernos, com as redes sociais... Ouso dizer que ele seria dissolvido pela mesma solução de normose e hebetismo que nos corrói as entranhas... Depois de conhecer a história humana, do seu tempo até os dias atuais, ele perceberia — deprimido, talvez — que é impossível sair da caverna: ela é parte do que somos! Nós nunca seremos capazes de enxergar a realidade sem o filtro das nossas pulsões e desejos...

Como disse o doutor Yu Tsun, antigo catedrático de inglês na Hochschule de Tsingtao, no Conto “O jardim de veredas que se bifurcam”,

“Prevejo que o homem se resignará a cada dia a tarefas mais atrozes; breve só haverá guerreiros e bandidos” (“O Jardim de veredas que se bifurcam”. In: Obras completas de Jorge Luis Borges: Ficções. — São Paulo: Globo, 1999. v. 1. p. 45).

O que me serve de lenitivo — contra as receitas do hedonismo virtual — é saber que o meu fatalismo não tem cura! Sou apenas um homem doente...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Todas as barbáries que Adolf Hitler cometeu eram legais na Alemanha nazista...

Todas as barbáries que Adolf Hitler cometeu eram legais na Alemanha nazista...

Em famosa Carta de 16 de junho de 1963, escrita numa prisão de Birmingham, Alabama, em resposta a uma declaração pública emitida por oito líderes religiosos brancos do Sul, publicada no Jornal “The Atlantic”, Martin Luther King Jr. falou sobre as nossas escolhas em tempos de crise:

“We should never forget that everything Adolf Hitler did in Germany was ‘legal’ and everything the Hungarian freedom fighters did in Hungary was ‘illegal.’ It was ‘illegal’ to aid and comfort a Jew in Hitler's Germany. Even so, I am sure that, had I lived in Germany at the time, I would have aided and comforted my Jewish brothers.” (O texto completo, em inglês, pode ser encontrado no seguinte endereço http://www.africa.upenn.edu/Articles_Gen/Letter_Birmingham.html).

Para que os haters do mundo virtual não façam ouvidos de mercador, fingindo não compreender a mensagem de Martin Luther King Jr., eu traduzirei este trecho da sua famosa Carta:

“Nós nunca devemos esquecer que tudo o que Adolf Hitler fez na Alemanha foi ‘legal’ e tudo o que os combatentes da liberdade húngaros fizeram na Hungria era ‘ilegal’. Era ‘ilegal’ ajudar e confortar um judeu na Alemanha de Hitler. Mesmo assim, estou certo de que, se eu tivesse vivido na Alemanha desse tempo, eu teria ajudado e confortado os meus irmãos judeus.”.

Nem tudo que é legal pode ser aceito como justo! A lei, muitas vezes, é só a formalização da vontade de um grupo, nem sempre majoritário, que usurpou o poder, pela força ou pelo engodo, em sua tentativa narcísica e egoísta de satisfazer os seus próprios interesses e projetos de poder.

Ter escravos — excetuados os beneficiários das Leis do Sexagenário e do Ventre Livre — era “legal” até o dia 12 de maio de 1888, véspera da publicação da Lei Áurea! Mas era justo e moral? A maioria dos brasileiros possuía escravos? Era essa legislação abominável fruto da vontade livre da maioria?  É claro que não! Só as oligarquias provinciais possuíam dinheiro para negociá-los. Contudo, mesmo sendo minoritárias no universo da população do Brasil imperial, as elites do escravismo controlavam o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Poder Moderador. Não se esqueça de que, nessa época, só os alfabetizados e ricos podiam votar. De fato, votavam mais ou menos dez por cento da população, e as eleições, invariavelmente fraudadas pelo voto de cabresto, ocorriam sob o signo do coronelismo, do mandonismo e do clientelismo. Em resumo, a elite escravista fazia as suas próprias leis, por óbvio em seu próprio benefício e para seu próprio deleite...

Otto Eduard Leopold, Príncipe de Bismarck, Duque de Lauenburg, também conhecido como o Chanceler de Ferro do 2º Reich, disse, com mal disfarçada amargura e certo toque de cinismo, que as "leis são como salsichas. Melhor não saber como são feitas".

Ando pensando na frase de Otto Von Bismarck, antiga, porém atual, nesses tempos difíceis que atravessamos na “pátria educadora”, época sombria, de eleições desconstruídas no Parlamento, na calada da noite — não necessariamente em consonância com o voto popular, expresso pela maioria nas urnas —; tempos difíceis em que políticos, notoriamente antiéticos, não só na essência, mas nos métodos, manipulam o Conselho de Ética, e até se sentem com força de prescrever regras para medir a ética alheia. Os bons e os maus andam de mãos dadas, muitas vezes em posições trocadas. O lobo mau pode estar vestido de vovó bondosa, e a Chapeuzinho Vermelho, dominada pela desesperança, pode estar se prostituindo para conquistar o status ou, ao menos, a piedade do lobo...

Quem eu vejo na grande mídia, serviçal de poderes obscuros, dando lições de ética, chafurda na lama com os porcos, e não me refiro aos de quatro patas, deliciosamente puros e inocentes, mas aos de dois pés e muitos neurônios, todos voltados para projetos pessoais de riqueza e poder.

Quando o destino conspira com o caos, trazendo em seus ventos o obscurantismo e a mediocridade, as pessoas querem acreditar em alguma coisa, para sobreviver todos os dias, sem desistir. Não raro, infelizmente, acreditam no salvador da pátria, o herói sem caráter do nosso e de todos os tempos, o Macunaíma que se alimenta da ignorância de uns e do silêncio complacente de outros. Assim nascem os mitos das oligarquias da fé e da política...

Prefiro manter distância dos santos infalíveis e seus dogmas imutáveis, dessa gente hipócrita, que carrega nas entranhas a podridão dos infectados pela intolerância à alteridade, esses maltrapilhos da honra e da humildade, que ditam, como verdades inabaláveis, quem tem honra e quem é bandido, quem está certo ou errado, quem merece o paraíso ou o inferno, quem é a imagem de Cristo e quem é o bom ou o mau ladrão. Esses homens arrogantes, monoliticamente encastelados em suas certezas confortáveis — narcisistas que santificam os que pensam como eles e destilam ódio contra os que ousam seguir outros caminhos —, são os verdadeiros heróis sem caráter desse mundo de seres imperfeitos, os Macunaímas das redes sociais, que propagam verdades absolutas num mundo de relatividades. Das suas encíclicas saem os postulados da decência e da honra, os padrões de normalidade resignada que todos devem seguir, menos eles...

Sou o que me transformei, certamente pior do que você imagina, e dou o meu “foda-se” mais sonoro e altivo para o seu julgamento apressado. Não sou o seu espelho, nem a projeção dos seus devaneios de certeza e falsa sabedoria. Esse ser humano abominável a quem você julga, esse que aparece no veneno das suas palavras, é você mesmo, se ainda não percebeu. Leia o “Ensaio sobre a Cegueira”, do Saramago, e entenderá o que estou dizendo! Ou não...

Esse estado de embrutecimento e estupor — uma descrença absoluta em tudo e em todos os que não são o espelho onde projetamos os nossos desejos, uma revolta indiscriminada contra tudo que contraria os nossos interesses mesquinhos —, obscurecendo a razão e abrindo feridas incuráveis, acabará semeando o destino que tanto deveríamos evitar. Eu mesmo, malgrado o esforço para respirar na superfície desse mar de lama, estou me tornando um desses niilistas sem cura...

Mas essa é a maior das compulsões humanas, uma autocondenação atávica do Homo sapiens: repetir e repetir novamente experiências antigas, mesmo as mais penosas, sem se recordar do paradigma histórico que a gerou, mas, ao contrário, tendo a estranha e nítida impressão de que se trata de algo novo, expressão de novos tempos, ou seja, de algo que encontra o seu significado e razão de ser nos eventos atuais. Contudo, estamos apenas repetindo o passado doloroso, cutucando feridas que pareciam cicatrizadas.

Mas o que fazer com a névoa da desesperança, essa estranha sensação de inutilidade e impotência que nasce da desilusão? Tudo parece fora do seu curso, agora, diante dessa onda de intolerância disfarçada de limpeza ética.

“Hard times” (“Tempos difíceis”), diria Charles Dickens!

E o mais triste é saber que confiaram aos porcos a tarefa de limpar o chiqueiro...

Ao Príncipe de Bismarck, Duque de Lauenburg, eu diria que os humanos são ainda piores do que as leis e as salsichas: nenhuma das duas existiria sem a sua mente diabólica...

Juro que eu até gostaria de acreditar na utopia de um mundo mais justo e solidário, sem pobres, indesejados e excluídos, sem explorados e vassalos, mas a realidade me dá um tapa na cara sempre que eu esboço um sorriso de esperança.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Quando saltar no seu abismo existencial, seja forte e não abrace ninguém!

Quando saltar no seu abismo existencial, seja forte e não abrace ninguém!

Conto escrito por Jorge Araken Filho

(Pedro e Giovanni, dois amigos de infância, encontram-se para o “happy hour” de sexta-feira num barzinho com MPB ao vivo, na Travessa do Comércio, próximo ao Arco do Teles, no Centro histórico da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Pedro enfrenta problemas em seu relacionamento com Ritinha, sua esposa.):

— Pedro, por mais que você ame a Ritinha, deixe-a livre para seguir outro caminho, se ela assim o desejar.

— Giovanni, é fácil falar! Afinal, não é você que a ama.

— Se ela insistir em segui-lo, e o fizer por vontade própria, superando o medo de se lançar no abismo ao seu lado, ao menos você terá alguém com quem contar quando perder a esperança.

— Eu já perdi a esperança na vida! Desisti de quase tudo que sonhei um dia.

— Se a Ritinha desistir de você, por temer o seu poço existencial, não alimente a ilusão de que não poderá viver sem ela. Evitando cenas grotescas de desespero e humilhação, ameaças tolas de suicídio e chantagem emocional, apenas deixe-a ir. Ela não pode ser obrigada a ser como você, a seguir o seu caminho cheio de espinhos. Esses espinhos são seus; ela já suporta os dela, ou precisa aprender a suportá-los.

— Eu me jogarei aos pés dela...

— E você espera, com esse gesto burlesco, compaixão? Pura tolice, meu amigo! Um ser humano de joelhos, implorando amor, recebe, quando muito, piedade, e não amor. Pode parecer cruel, Pedro, mas comiseração não significa amor. De joelhos e sem amor próprio, ninguém merece ser amado! Ou a Ritinha o ama como você é — um depressivo que ainda recusa tratamento —, ou não o amará nunca.

— Eu não estou deprimido! Sou uma pessoa normal com muitos problemas.

— A maior das ilusões não é você tentar enganar o seu amigo mais fiel por todo o tempo, nem enganar a todos os seus amigos fingidos por algum tempo; é enganar-se a si próprio o tempo todo, Pedro! O primeiro passo, para lidar com a depressão, é assumi-la.

— Giovanni, você está mudando de assunto. Eu quero saber é da Ritinha.

— Corte as amarras, para não levar consigo, no seu naufrágio, uma pessoa que ainda está tentando navegar. Enquanto você não encarar o seu próprio abismo existencial, só a ruptura da relação poderá poupar a Ritinha do destino que você escolheu para si, que, nesse momento, é o de alguém que, ao contrário dela, já desistiu da vida. Dar a mão pode aniquilar a ambos... Não digo que uma mulher que ama de verdade, na situação dela, desistiria de você, nem que a recusa em permanecer ao seu lado, nessa hora, é egoísmo ou covardia. Prefiro não fazer julgamentos morais!

— Sozinho eu não resisto e me mato de verdade!... Eu juro!

— Pedro, não faça promessas que não será capaz de cumprir! Diz um velho ditado, cuja origem desconheço: “quem quer ir rápido, melhor ir sozinho; quem quer ir longe, melhor ir em boa companhia.”. Caminhe sozinho, por enquanto!

— Giovanni, e quem simplesmente desistiu de caminhar e não quer mais ir a lugar algum?

— Para esses, como disse há pouco, só existe uma escolha: ficar sozinho, à margem da estrada, com o seu próprio fardo! Eu insisto: não seria justo depositar o peso da sua renúncia sobre os ombros de quem ainda está tentando caminhar.

— A Ritinha sempre me diz que eu não a amo... que, na verdade, eu só quero alguém, tão fracassado quanto eu, para se precipitar no abismo ao meu lado.

— Pedro, se você desistiu da vida, e ama verdadeiramente a Ritinha, apenas deixe-a ir! Esse seria um gesto de amor nesse momento.

— Pode ser...

— Você deseja viver ancorado no porto das escolhas alheias, esperando as migalhas afetivas que a Ritinha pode lançar no seu deque, na forma de piedade? Ou prefere deixar que ela, ressequida de amor, ancore-se no seu porto, apenas por piedade, mesmo sabendo que você não tem sequer amor próprio para lhe oferecer?

— Eu prefiro me ancorar no porto da Ritinha, para me reabastecer de qualquer coisa, mesmo que seja de piedade!

— Nenhuma coisa nem outra, Pedro! Nas duas escolhas, você está preso: ou nas águas do porto ou nessa ilha metafórica. Levante a sua âncora sem medo de ficar sozinho! Como advertiu Pompeu, o general romano, aos marinheiros que se recusavam a deixar o porto:

"Navegar é preciso; viver não é preciso”. ("Navigare necesse; vivere non est necesse").

— Giovanni, você me convenceu! Estou me sentindo um lixo! Sem perspectiva e sem vontade de reagir, como estou nos últimos anos, só posso dar na Ritinha o beijo da morte... E não desejo esse destino para ninguém.

— Depois da nossa conversa, a Ritinha ainda lhe parece assim, tão especial?

— Sim, ela é muito especial para mim!

— Meu amigo Pedro, por mais que a ruptura entre vocês possa causar sofrimento, e certamente será dolorosa, você precisa despertar dessa ilusão. Ninguém é insubstituível! Existem outras Ritinhas à espreita nesse mar sem fim. Para vê-las, porém, você precisa levantar a sua âncora afetiva e sair dessa ilha. Encontre um bom motivo para navegar e, nesse processo de descoberta, outras terras para semear. Tão resignado você anda em lamber as suas feridas narcísicas, como se fosse o pior dos sofredores desse mundo, que não percebe a pena que tem de si próprio, a mesma que deseja que os ouros tenham ao escutá-lo narrando os seus dramas... Não deixe que ela o ame por piedade! Isso você já tem, de sobra, por si próprio...

 — O amor?...

—Não, a piedade!

(Horas mais tarde, Pedro e Maria Rita se encontram em casa. Ela está no sofá, pensativa e abatida; os cotovelos repousam sobre os joelhos e a cabeça, inclinada para a frente, esconde-se entre as suas mãos. Próximas à entrada, cuidadosamente enfileiradas, estão as suas malas.):

— Aonde você vai, com essas malas, Maria Rita?

— Não ser um fracassado, como você!

(Pedro faz silêncio, olha a esposa pela última vez e a deixa partir; a porta se fecha e as lágrimas descem, profusas, dos seus olhos encanecidos pela dor. Solitário, como nunca esteve antes, ele chora o destino que cavou com os próprios pés.)

O que aconteceu? Eles nunca mais se viram!...

Qual é a moral da história? Quando saltar no seu abismo existencial, seja forte e não abrace ninguém!