quarta-feira, 19 de abril de 2017

Você é uma ovelha?

Você é uma ovelha?

Para facilitar a sua resposta, afastando a resistência do seu ego, modificarei a indagação retórica:

Você percebe a realidade como ela realmente se revela ou como os outros (Partidos Políticos, Professores, Escritores, Jornalistas, Filósofos, amigos virtuais, pilantras de todo gênero, etc,) querem quer você perceba?

Para seu consolo terreno, quase a certeza da salvação além da vida, dizem os mais conservadores, preconceituosos e intolerantes que só os conformados terão lugar no paraíso...

Apesar do exagero retórico da minha afirmação anterior, eu proponho outra indagação: podemos chamar de intelectualmente inferiores os que se enganam a si mesmos ou se deixam enganar pelos outros?

Para não correr o risco de ser preconceituoso ou arrogante, creio que os sugestionáveis — inegavelmente úteis em sua resignada inocência — são apenas sensíveis à ilusão.

É mais cômodo iludir-se com a certeza ou ceder à sugestão alheia do que refletir, pesquisar e analisar a realidade que nos impõem como insensível à nossa capacidade de mudá-la.

A ilusão das ovelhas, que se sacrificam para proteger os lobos, é imaginar que só elas terão lugar no paraíso.

Os que duvidam de tudo e de todos, os que enfrentam os dogmas da conformidade resignada, esses acabarão no inferno, junto com os lobos, poetas e loucos.

Na ilusão das ovelhas, estarei no Reino do Hades, à espera dos inconformados.

Se você não for uma ovelha, não ande em rebanhos!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

O jogo da morte, tragicamente chamado de "Baleia Azul"

O jogo da morte, tragicamente chamado de "Baleia Azul"

Ainda indignado com o psicopata que criou o "Jogo" da "Baleia Azul" ("Blue Whale") — que se inicia com desafios de automutilação e se encerra com o suicídio dos seus participantes —, resolvi republicar o meu texto mais recente sobre a morte autoinfligida, na maior parte das vezes um sintoma agudo da depressão.

O meu objetivo, mesmo sem ser especialista, é despertar, sobretudo nos pais e mães, a consciência para essa tragédia da modernidade hiperconectada.

Conheça os sintomas e aprenda a reconhecê-los em seus próprios filhos e amigos.

Depois de se conscientizar da gravidade dessa doença psíquica, abandone o preconceito e não trate a depressão como frescura! A "Baleia Azul" se aproveita dessa doença insidiosa, que traz como um dos seus sintomas a vulnerabilidade do aparelho psíquico, que se torna, assim, mais suscetível aos desafios de autoflagelação e suicídio.

Seja como for, consulte um Psiquiatra! A depressão tem tratamento.

Boa leitura!

Relações simbióticas entre depressão e suicídio...

Aproveitando as tragédias, que continuam a acontecer, sobretudo nas Cidades grandes — quase rotineiras, infelizmente —, devo relembrar, pela enésima vez, que depressão não é doença de ricos e inconsequentes, nem é frescura, como costumam dizer os desinformados e preconceituosos!

Depressão, na verdade, é o abandono de si próprio, é a insatisfação com o próprio eu, mas não é só isso; é uma patologia que envolve predisposição genética e afeta o equilíbrio químico do cérebro.

Depressão é uma doença crônica, muitas vezes incapacitante, que produz alteração do humor, quadro de tristeza profunda e sem fim, sentimentos de amargura, desencanto com a vida, desesperança sem motivo, déficit na autoestima e culpa recorrente, associada, quase sempre, à autopiedade.

Nos quadros depressivos, degrada-se, muitas vezes com graves consequências, a capacidade para lidar com as múltiplas perdas que a vida impõe aos seres humanos, e aqui me refiro não somente às mais óbvias — pessoas e objetos —, senão também às perdas da libido, da autoestima e da pulsão vital, que se expressam através de inibições como a anorexia, a insônia, a abulia e a indiferença diante da dor e do destino.

Mais do que tristeza, a depressão gera melancolia, um sentimento prolongado de revolta com o próprio ego e de frustração com a existência, um desânimo intenso, que envolve, em alguns casos, a recusa à vida, afastando o deprimido dos amigos e das atividades profissionais. O abuso das drogas — consentidas ou proibidas —, só agrava o quadro, abrindo o abismo sem fim que acaba engolindo o deprimido.

Frases do tipo: — Tão jovem assim, com a vida pela frente! Ou, ainda pior: — Como uma pessoa tão bonita e cheia de vida, comunicativa, repleta de amigos, pode estar deprimida? Todas essas afirmações e perguntas refletem o preconceito que, como uma serpente venenosa, se aninha no desconhecimento de que a depressão é uma doença, um desequilíbrio na química cerebral com graves consequências, não raro o suicídio. Tanto pior, quando associada ao abuso das drogas.

Depressão não é sinônimo de tristeza nem de desânimo, embora essas emoções se exacerbem nos quadros depressivos. O deprimido recrimina-se do que não fez e sofre com delírios de autopunição, reduzindo-se, progressivamente, a sua capacidade de amar e interagir com o mundo.

A depressão imobiliza o sujeito, mina os desejos e a energia para realizá-los. O deprimido se sente derrotado, imaginando que todo esforço seria inútil. Ele se paralisa na autocomiseração!

Não tem fé em si mesmo, nem se conecta com as próprias emoções: ao contrário, encontra nas expectativas dos outros, que nunca imagina atender, a fonte perene das suas frustrações, buscando, no exterior e no que as pessoas dizem que é certo, a felicidade que nunca consegue alcançar.

Como Don Quixote, vive a perseguir ilusões e objetos irreais, num mundo em que a fantasia retroalimenta as suas angústias e frustrações.

Nesse delírio de autopunição, representa seu ego como algo sem valor e desprezível, incapaz de qualquer realização digna, num quadro delirante de inferioridade física e moral, que é acompanhado, quase sempre, de insônia e da recusa em se alimentar ou, em alguns casos, da compulsão por comida, um quadro patológico em que o instinto de sobrevivência é superado pela dor. Não raro, surge, como válvula de escape, o abuso das drogas, uma tentativa infrutífera de neutralizar a melancolia, que vai se tornando, pouco a pouco, um monstro devorador de sentimentos e emoções. Abusar das drogas, para aplacar a depressão, é como lançar gasolina ao fogo, na ilusão de apagá-lo... Só o médico pode receitar drogas, e só as lícitas.

É como entrar no labirinto do Minotauro sem porta de saída...

— Acabado, sem amor, gasto pelo tempo, cabelos brancos, rugas no rosto, olheiras profundas, bolsas sob os olhos, músculos flácidos, pele sem brilho... Isso não é justo! — Dizia o homem, enquanto examinava, com estranho fascínio, a triste figura em que se transformara.

Confuso, diante da imagem decadente que se refletia no espelho, ele vislumbrou, sob a velha carcaça, os traços da juventude que se perdera no outono da vida. Ele sorriu, pensando, talvez, que ainda lhe restassem alguns traços de formosura debaixo da pele encarquilhada:

— Pense, homem! Seria ainda pior, se você fosse mulher... Pelo menos a celulite não habita o seu corpo... — Ele dizia isso com uma estranha maldade nas palavras, um sabor acre que escorria dos lábios.

Depois de um breve momento de esperança, uma repentina fé na vida, a sua fisionomia se fechou, restando, no rosto envelhecido, um amargo sorriso, a enunciar a nuvem negra que encobria a sua mente:

— E desde quando você não tem celulite? Não seja autoindulgente com toda essa flacidez! Nem por piedade, aceite autoelogios! Você foi abandonado, trocado por carne mais jovem, com músculos mais rijos e pele sedosa, um rapaz jovem, com uma carreira pela frente! Ela o abandonou! Também, trinta anos mais jovem... O que você esperava? Que ela afagasse seus cabelos brancos ou trocasse suas fraldas geriátricas na velhice? — Ele disse a si mesmo, ao estilhaçar o espelho, com os punhos cerrados.

Perdendo a luta com o tempo, ele se sentia derrotado, incapaz de ver em si mesmo o sonhador que fora um dia. Sem qualquer aviso, a vida se tornara um lento e nostálgico remoer do passado, uma busca incessante do tempo perdido. Sentia-se impelido a escavar velhas culpas, a destilar lamentos pelo perdão que negava a si mesmo.

Foi assim, hipnotizado pelas gotas de sangue que pingavam no tapete branco, que ele conheceu a depressão...

Sei que muitos fazem pouco da depressão, tratando-a como tristeza ou simples incapacidade para lidar com os desafios da vida. Por isso, encerro com o poema de Boris Vian, citado pela Psicanalista Maria Rita Kehl no Preâmbulo de “O tempo e o cão: a atualidade das depressões”:

“Morrerei de um câncer na coluna vertebral

Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada,
sensual Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei, quem sabe, sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturarem crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei com as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo tiver acabado
Morrerei.”
(Poema de Boris Vian, na tradução de Ruy Proença. Apud. KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. — São Paulo: Boitempo, 2009.).

Deu para entender? Então, vejas as ilustrações...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.




Automutilação, o jogo da morte ou da “Baleia Azul”

Automutilação, o jogo da morte ou da “Baleia Azul”

Ainda a propósito do maldito "Jogo" da "Baleia Azul" — que se aproveita de pessoas doentes, vítimas da depressão —, indico o conhecimento dos sintomas como a melhor arma contra o psicopata que o criou no mundo virtual.

Leia o texto abaixo — "Automutilação, a fome voraz de si mesmo" —, para entender os processos psíquicos que levam à autoflagelação, um sintoma da pulsão de morte.

Só o conhecimento poderá afastar o seu preconceito contra os participantes, na verdade vítimas de um jogo de morte.


Boa leitura!

Automutilação, a fome voraz de si mesmo

O mais doloroso, quando se escolhe o caminho autodestrutivo, é não saber quando se alcançou o destino desejado, o ponto do percurso em que o flagelado se detém na estrada e percebe que já gratificou a pulsão de morte.

A autoagressão transita pelo sentimento de culpa e se justifica, aos olhos do sujeito, como expiação dos “pecados” ou, diriam os psicanalistas, das pulsões, sentimentos e emoções que ele não tolera ver em si mesmo, normalmente ligados à agressividade.

O autoagressor compensa a pulsão destrutiva mutilando o próprio corpo ou, em alguns casos, se deixando destruir, para, assim, lidar com a angústia e a ansiedade, aplacando o desejo de morte e, consequentemente, o impulso que — se satisfeito — o levaria à aniquilação total; ele arranca de si mesmo um pedaço da carne e do espírito, para se punir por seus demônios interiores, domando, ao menos ilusoriamente, a ferocidade que habita as regiões mais profundas do aparelho psíquico. Ele se fere para não se matar...

Contudo, quem se mutila nunca se satisfaz plenamente com os pedaços que arranca de si próprio. Quer sempre mais... E a angústia existencial, que deveria aliviar-se com a automutilação, apenas se realimenta com a dor física e emocional, retornando como desejo de morte ainda mais avassalador.

A pessoa vai arrancando pedaços de si própria, na tentativa de não se aniquilar totalmente, mas a pulsão de morte não se reduz, tornando-se uma obsessão que o compele a querer sempre mais a cada mutilação.

A automutilação é a antessala do suicídio, o derradeiro esforço do sujeito para respirar antes que as águas o devorem...

Tenha respeito com a dor alheia!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Desconstruindo os mitos do Príncipe Encantado e da Cinderela (nova edição revista)

Agradecimento Iniciais:

Um dia desses, falando dos textos mais lidos do meu Blog, esqueci de mencionar este ensaio sobre os mitos do Príncipe Encantado e da Cinderela, que escrevi em fevereiro de 2013 e reeditei em setembro de 2016.

Na verdade, ele tem sido, até aqui, o meu segundo texto mais popular, contando, na soma das duas edições, com um total de 856 leitores. Só é superado em acessos pelo Conto "Todo castigo pra corno é pouco", que deu origem à minha Peça de Teatro, já concluída, mas ainda sem qualquer perspectiva de ser publicada.

Logo em seguida, com 658 leitores, vem o conto Erótico "Isolda, a Libertina, e o despertar da sexualidade", sendo acompanhado, de perto, por outro Conto Erótico, "Marcas do passado: reminiscências de um verão amazônico", que já foi lido por 609 pessoas.

Quem ainda não leu o Ensaio "O Príncipe Encantado e a Cinderela: desconstruindo mitos", recomendo que o leia, antes de tratar com desdém os mitos e lendas. O papo é sério, mas só é recomendado para quem gosta de algo além das memes...Se você se assusta com mais de 140 caracteres, não sobrecarregue o Tico e o Teco, o apelido "carinhoso" que dei aos seus dois neurônios...

Boa leitura!

Jorge Araken Filho, apensas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

O Príncipe Encantado e a Cinderela: desconstruindo mitos
(“Quem conta um conto, aumenta um ponto”)

Cinderela, meiga e doce Cinderela, ouvi dizer que você se cansou do conto de fadas e anda dizendo que “o príncipe virou um chato e vive dando no  teu  saco...” Quem sabe o Cazuza e o Frejat tinham mesmo razão, e “a vida é não sonhar”! Afinal de contas, “bobeira é não viver a realidade”. Pelo menos, é o que a Cássia Eller andava espalhando por aí...

Só sei que você não é mais criança, “esperando o ônibus da escola, sozinha”. Você é a Princesa Cinderela, arquétipo da mulher sonhadora e romântica, que transcende os tempos e as tramas da evolução. Desdenhou Charles Darwin e as suas espécies em mutação, fez-se mulher e casou com o Príncipe Encantado... Sorte sua, muitas nem chegam a conhecê-lo!

O casamento acabou? Que pena! Mas ele não era o Príncipe dos teus sonhos?! Por que será que não deu certo, se você idealizou todas as qualidades que ele deveria ter, as roupas que deveria vestir, o cavalo branco — vamos atualizar a fábula —, a Hilux branca, com rodas de liga leve; pensou até em como ele deveria falar e agir... Você construiu a sua personalidade, deu-lhe alguns defeitinhos — poucos —, o suficiente para não parecer perfeito demais, inverossímil, talvez, aos olhos das amigas invejosas. O que deu errado, então?

Acho que você não combinou o enredo com o rei e a rainha, e aquele espermatozoide intrometido mudou o curso da tua linda história de amor. Triste esquecimento: você não lhes deu a receita do Príncipe Encantado, e ele acabou virando um chato, ou um sapo, provavelmente.

Não acredito que ele te achou certinha demais, bobinha demais e te trocou pela Barbarella, a “femme fatale” do século XL, aquela  ninfomaníaca que veio do futuro e usa o corpo para conquistar Príncipes arrogantes, mas ingênuos, que se acham muito machos! Não quero ser sarcástico, nem cínico, mas acho que alguém copiou a tua farsa e também deixou cair um sapatinho de cristal pelos caminhos do bosque...

Quer um conselho de amigo? Acho melhor você não viver a realidade! Continue na fantasia. Sonhando com esse mundo perfeito, quem sabe a Barbarella se cansa da monotonia, e o Príncipe volta a representar o personagem que você idealizou. Dessa vez, todos viverão felizes para sempre! Sonhar a vida, mas não viver os sonhos: essa foi a sua escolha. Não me olhe assim... Foi você mesma que se fez vítima da ilusão.

Quem dera que fosse fácil assim, não é mesmo, Cinderela? Mas parece que os Príncipes, especialmente os encantados, logo se cansam do personagem e mostram a sua face desnuda, assim que o leitor fecha o livro de contos.

Na verdade, você procurava um Príncipe, mas príncipes só costumam desejar princesas. Ora, ele é encantado justamente porque surgiu de um encantamento, que anestesia a razão, quase um delírio, e não da prosaica realidade do sexo, que, enfim, pode ter sido apenas carnal, e não uma relação de amor (você nem imagina o que fazem os reis e rainhas na alcova!). Ele foi feito na cama do Rei, e não na tua cabecinha, Cinderela! Ele é um pacote completo, do tipo ame-o ou deixe-o!

Pode ter certeza de uma coisa: ninguém muda a essência de ninguém! Você pode até mudar-lhe o perfume, a roupa, o gosto exagerado pelo arco e flecha com os amigos, mas não pode reduzi-lo a um “script”. Não poderá enfiar sentimentos na cabecinha do teu príncipe, assim como não será possível transformá-lo para sempre em um fantoche, pendurado nas cordinhas do teu desejo.

Minha querida Cinderela, você não percebeu que ele só vestiu a máscara, ou melhor, a carapuça que lhe convinha para te conquistar, aquela mesma que você idealizou e lhe deu para usar na encenação da tua farsa. Não se lembra? Foi você, depois das doze badaladas, que largou o sapatinho de cristal pelo caminho do bosque, desejando capturar um príncipe!

Bem que eu te disse, antes do casamento, mas você me chamou de estraga prazeres, insinuou até que eu estava com ciúmes. Não acredite em amor à primeira vista! Os amores platônicos resultam, quase sempre, das tuas idealizações e desejos, que você acaba projetando no outro. Como só conhece o corpo desse Príncipe, e a máscara com que se apresenta, imagina as qualidades desconhecidas, projetando nesse homem comum o rosário de virtudes que deseja ver no Príncipe encantado. As qualidades que não conhece, simplesmente fantasia, escondendo os defeitos sob o tapete da tua carência afetiva. O medo de perdê-lo, como ocorreu outras vezes na tua vida, se encarrega do resto e te faz obscurecer os olhos à realidade. Você só vê o que deseja ver, e esconde o resto, como se, fechando os olhos, tudo fosse desaparecer, e o objeto da tua paixão, como num passe de mágica, pudesse se transformar num modelo de virtude, à prova de tudo e de todos.

Só a Lois Lane não se cansa de amar o super-homem! Deve ser um tédio ver esse homem perfeito — verdadeiramente sobre-humano, eu diria desumano —, despindo a tua própria imperfeição, que se acentua ainda mais nesse contraste da tua banalidade contingente com as virtudes heroicas que ele ostenta no seu ego infinito: eternamente forte, sempre jovem, paladino da justiça, protetor dos fracos... E você sempre fraca, cada dia menos jovem, ganhando gordurinhas incômodas, varizes e celulites... Vou parar por aqui, porque já estou ficando enjoado! Prefiro “As Certinhas do Lalau”, do Sérgio Porto, o querido Stanislaw Ponte Preta, que até recomendo. Não “as certinhas”, que reservo para mim, como teu fiel conselheiro, mas o FEBEAPA, do Stanislaw. Acorde, Cinderela, porque você está fazendo besteira, um grande festival de besteiras!

Acorde, mas não tenha tanta pressa para trocar de príncipe ou, melhor ainda, para encontrar um sapo que coache bem aos teus ouvidos surdos. Quando deixar cair o próximo sapatinho de cristal, lembre-se de que a fase preliminar do romance, submersa, embora, nas sombras do encantamento e da paixão, serve para você conhecer os canais do parceiro, isto é, para distinguir as virtudes e defeitos que você lhe atribui, com os olhos obscurecidos pela idealização e pelo desejo, das virtudes e defeitos que ele realmente possui. Dê tempo ao tempo, porque o mundo não se fez em um dia! "Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!" — disse Castro Alves ao caminhante das sombras.

Mas fala aí, Chico Buarque, poeta do encantamento, fala sobre o tempo da espera:

“Não se afobe, não;
Que nada é pra já.
O amor não tem pressa.
Ele pode esperar em silêncio,
Num fundo de armário,
Na posta-restante,
Milênios, milênios,
No ar.”
(“Futuros Amantes”, composição de Chico Buarque de Holanda).

Se o tempo da espera for excessivamente abreviado pela tua carência afetiva, não reclame se o novo Príncipe virar um chato. Conhecer, para conquistar, essa é a chave para os arcanos do universo, assim no amor, como na guerra! Separe as tuas projeções da realidade; a imaginação da verdade. Perceba as virtudes que te agradam e os defeitos insuportáveis, para que nem você nem ele precisem representar uma tragédia. A verdade é sempre melhor do que a mentira, mesmo que possa derrubar o teu castelo de sonhos. Conheça-o por inteiro, antes de considerá-lo como Príncipe, porque você verá que ele pode ser apenas humano, meio Príncipe, meio chato, mas simplesmente humano, um ser banal e contingente, com virtudes e defeitos, alguns insondáveis.

Cinderela, posso ser sincero? Você não merece um Príncipe! Na verdade, você não é princesa, a não ser nos teus delírios! Está bem, fui indelicado, mas não vá se sentir ofendida com um pouquinho de realidade. Nem vou dizer que o teu sapatinho de cristal, provavelmente, só está em moda na Ilha da Fantasia, do Tattoo e do Sr. Roarke! Esqueça, estou apenas relembrado velhos tempos, quando mulheres eram mulheres, e não ciborgues da Sapucaí... Velhice ou nostalgia? Realmente não sei dizer.

Você deve buscar a essência nas virtudes, e não na beleza ou na aparência. O corpo amadurece com a idade, perdendo o brilho de outrora. Só os que te amam verdadeiramente poderão, enfim, perceber alguma formosura sob as camadas de tinta esmaecida que o tempo haverá de sobrepor. E a aparência pode ser melhorada com a alquimia certa, que a tua criatividade haverá inventar... Só não há botox para o espírito de porco!

Não digo, porém, que você deva tolerar outro falso Príncipe, um trapaceiro de ópera bufa, alguém que te trata, aparentemente, como autora de novela, mas é mestre na arte da dissimulação e realiza as tuas vontades, até acabar na cama contigo. Se esse era o objetivo, parabéns! Você só precisou de dois neurônios (o Tico e o Teco), para levá-lo para a cama... Se não era, vá com calma: devagar com o andor, que o santo é de barro! Abrir as pernas no primeiro encontro é certamente uma escolha possível — quem sou eu para julgar —, mas tem consequências muitas vezes indesejadas... Valorize o que o que ele mais deseja em você...

A primeira atitude de quem tem mais de dois neurônios e muitas sinapses: não sair desesperada em busca de outro Príncipe, para não transferir, para essa nova relação, velhos conflitos da relação que acabou, ao menos para o teu ex, mas não para você, infelizmente.

E agora, Cinderela? — pergunta o meu bom “amigo” Drummond, querido e amado poeta, ser humano de luz, que penetrava “surdamente no reino das palavras”, para colher os poemas que lá repousavam, à espera de serem escritos:

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”
(“José”, poema de Carlos Drummond de Andrade).

E agora, Cinderela? Você queria um Príncipe, mas não existe Príncipe, acabou-se a utopia, o povo sumiu e o riso não veio. Você está sem discurso, está sem carinho. E agora, Cinderela? A noite esfriou, o sonho acabou e você, sozinha no escuro, qual bicho do mato. E o pior é que você não morre, não dorme, não geme, não grita. Quer fugir a galope, mas para onde, Cinderela? Para onde?

Nem tudo está perdido! Das trevas do teu sofrimento pode nascer a luz do sol, aquecendo a alma e revelando, pela catarse e depuração dos sentimentos, o bom caminho na escuridão das tuas angústias. Não vou ser cínico, como Diógenes de Sínope, que passou a vida com uma lamparina nas mãos, à procura de um homem honesto, que dizia não existir. Só te peço que deixe a tempestade lavar a tua alma, dissipar as dúvidas, apagar as decepções.

Viva teu luto, porque o Príncipe está morto e precisa ser sepultado! Nessa fase, tente perceber que ele não volta, nem precisa voltar. Enfim, perceba que houve ruptura, corte, separação dos caminhos. O luto serve para você absorver e superar a perda, compreendendo que a relação morreu, mas você ainda não. Esqueça o jogo das culpas e vinganças torpes. Aprenda a nobre arte da indiferença ou, se já estiver forte, crie um epitáfio na lápide do teu príncipe, dizendo, quem sabe, que ele virou um chato, mas que vá perturbar a vida alheia, e não a tua. Ou escreva, simplesmente: “Macbeth está morto! Salve, Rei!” — como disse o Nobre Macduff, ao entregar ao Príncipe Malcolm, novo Rei da Escócia, a cabeça do antigo Rei, Macbeth, que fora traído por sua ambição desmedida. Como você, Cinderela, Macbeth também cobiçava a vida dos Reis (William Shakespeare. Macbeth. Ato V, Cena VII).

 A cicatrização das feridas pode causar certo incômodo, uma coceirinha insuportável, que demora a passar, mas simboliza a reação do teu organismo à ferida na carne, que dilacera os tecidos. Nas feridas emocionais, não é diferente: surge uma coceirinha, que pode ser aquela vontade, quase indefinível, meio louca, de rever a pessoa amada ou, quem sabe, de perdoá-la, até dos pecados mortais, que ficam misteriosamente pequenos e esmaecidos, quando examinados com a lente da carência afetiva. É aquela música que toca, é o cheiro do perfume, um programa da televisão, uma comida especial... Tudo lembra os momentos em que você — iludida — ainda imaginava estar em um conto de fadas, e não em uma tragédia de Shakespeare. Tudo conspira para o perdão! Mas a tua piedade corrompe...

Seja forte, não coce a ferida. Resista! Mostre um pouco de dignidade e amor próprio! Só o tempo haverá de dizer se as virtudes desse Príncipe não estavam, apenas, na tua imaginação... Antes de coçar a ferida, aceitando-o de volta, e até perdoando os pecados de luxúria e as traições desse falso príncipe, com um sorrisinho pálido no rosto, tente resistir aos impulsos do “id”, que só busca o prazer, mas é cego e irracional, como aquele diabinho que vive de fofocas e diatribes no teu ouvido esquerdo. Controle o “ego”, ouça o anjinho do ouvido direito, o teu “superego”, porque, nessa hora, não é com a imaginação, nem com encantamento que as coisas se resolvem.

Seja firme, aja como menos emoção e mais firmeza, porque o coração costuma ser mau conselheiro na hora da solidão e do desencanto. Aja com os pés no chão, olhando o passado em retrospectiva. Se o teu príncipe não for o que você projetou, mais cedo ou mais tarde ele voltará a mudar as falas do personagem que você lhe sugeriu, quando deixou cair, sorrateiramente, o sapatinho de cristal.

Não faça novos ensaios, porque a farsa que você montou — perdoe-me por sepultar a tua esperança — está mais para tangos e tragédias do que para valsas e comédias. A falsa aparência de reconciliação, ainda mais trágica do que a ruptura, pode te arrastar ao insondável abismo da melancolia sem fim.

Chore bastante, recolha-se no luto, porque as tuas lágrimas, salgadas como o oceano, lavam os olhos embaçados pela tristeza e depuram os sentimentos, convertendo-os em força criativa, a base certa para construir novas pontes. Nem sempre reconstruir uma ruína é a melhor solução, mas, quem sabe, construir outra ponte, com melhor alicerce.

Encontre no sofrimento a possibilidade de ser feliz, mesmo sozinha, com menos riscos, mais sabedoria e sem repetir velhos erros. Aprenda a buscar satisfação na realidade, para não se refugiar na fantasia.

Transite pelas frustrações, reflita sobre os desenganos, reconhecendo que eles foram reais. Não os encubra com o manto da negação. Se você não se conhecer a si própria, e continuar negando as perdas que sofreu, acabará enclausurada no castelo das frustrações, e não saberá conviver consigo mesma, necessitando, eternamente, de um Príncipe valente, que te proteja, como um anjo da guarda, contra as incertezas do destino. Você continuará paralisada na dependência do outro, sem conhecer a tua própria força.

Mas não fique estática por muito tempo, “à espera de Godot” (“En attendant Godot”), porque você não é Samuel Beckett, e a frustração decorre do adiamento na satisfação do desejo, que causa tensão no aparelho psíquico, trazendo ansiedade e conflito. Quando isso acontece, surgem os mecanismos de defesa ou fuga, e você evita o conflito, agredindo ou erguendo barreiras. Fecha-se numa concha, ao invés de crescer, mergulhando na raiz do desejo não alcançado, para saber a sua gênese profunda e, assim, controlar a pulsão de realizá-lo à custa da tua felicidade. Esse impulso de ter um Príncipe, com seu cavalo branco, salvador e protetor, que se traduz em desejo, acaba sendo represado na realidade nua e crua desse homem cheio de defeitos, que se revela aos poucos, com o despir-se da máscara, e você não libera a energia pulsional, nascendo a frustração.

A pausa do luto, no tempo certo e na dose justa, serve para esse mergulho existencial, que cicatriza as feridas e rompe as amarras emocionais do passado. Não a utilize, contudo, para congelar as emoções e remoer eternamente as dores, à espera de algo que não se resolve ou impossível de se alcançar. Se você não se move, nada acontece!

Na peça de Beckett, os personagens Estragon e Vladimir, “sem nada a fazer” (“rien a faire”), voltam para esperar Godot, pessoa estranha e, ao que parece, imaginária. Sem explicações, depois de saberem que Pozzo está cego e Lucky, surdo, ambos decidem se enforcar em uma árvore, mas acabam desistindo, diante a impossibilidade de ser simultâneo o triste fim de ambos. O diálogo final, que encerra o ato e a peça, demonstra o absurdo da espera inútil:

“Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.)”

Eles não se matam, não fazem absolutamente nada, paralisados numa vida absurda e sem sentido. “Rien a faire”...

Reaja com inteligência e cautela, mas sem coçar as feridas, tentando retornar à fantasia, porque esse é o processo natural da cura. Também não aprofunde as cicatrizes, passando-lhes a gilete todos os dias, para reviver antigas dores, como noites eternas. Deixe o dia chegar, iluminando os caminhos. Lembre-se que até o sol, para renascer, precisa recolher-se no outro lado do mundo. Deixe o planeta girar, enquanto você renasce.

Essa coceirinha, metáfora da vontade de voltar ao passado, é o início da cura. Resista e deixe o tempo se encarregar do resto! A solidão momentânea não é o fim do mundo, nem a vitória do lado Sombrio da Força. Pode ter certeza de que Darth Vader não venceu a batalha contra Luke Skywalker. Saiba, minha querida Cinderela, que, no “Retorno de Jedi”, em Endor, Luke queima o corpo do pai, Darth Vader (antes Anakin Skywalker), em um funeral Jedi, e vê que ele, finalmente, se tornou um espírito do Lado Iluminado da Força, ao aparecer juntamente com Obi-Wan Kenobi e Yoda. Por isso, queime teus medos e fracassos, mas guarde as cinzas na urna da experiência, como lembrança constante daquela tragédia que você não deseja reescrever.

Mas lembre-se: o luto não pode virar melancolia! Enfim, crie novos interesses, embora, por algum tempo, você acabe se afastando do mundo, para ressurgir das cinzas um pouco adiante, como a Fênix mitológica. Recupere a autoestima, que deve estar perdida em alguma gavetinha do cérebro. E mexa-se, porque não haverá cicatrização, se você continuar passando a gilete nas feridas, parada no tempo das tuas dores:

“Move yourself, (Mova-se,)
You always lived your life; (Você sempre viveu sua vida;)
Never thinking of the future; (Nunca pensando no futuro;)
Prove yourself (Teste-se,)
You are the move you make. (você é o movimento que faz.)
Take your chances, win or loser. (Arrisque-se a perder ou ganhar.)
See yourself, (veja-se,)
You are the steps you take; (Você é os passos que dá;)
You and you, and that's the only way; (Você por você, é o único jeito;)
Shake, shake yourself, (Agite, se agite,)
You're every move you make; (Você é cada movimento que faz;)
So the story goes. . .” (Assim a história segue. . .)
(“Owner Of A Lonely Heart”, composição do Grupo Yes, banda inglesa de Rock Progressivo).

Sem ousadia e sem sonho não há mudança! Por isso, mexa-se, mas vá devagar, com a cautela dos sábios, para não se enredar em roteiros de farsa, na doce ilusão de ser a “linda mulher” (“Pretty Woman”), passeando em Los Angeles com o Edward Lewis (Richard Gere). Ei, Cinderela arrependida, a Vivian Ward, personagem de Julia Roberts, era uma prostituta, pragmática por opção, e não uma sonhadora, como você! Eu sei que você ainda espera um Príncipe, e não realizaria as tuas fantasias com um “amante profissional, moreno, alto, bonito e sensual”... Cuidado com o frasco muito bonito! Ele pode esconder um mau perfume.

Devagar, mas sempre em frente, sem alimentar ilusões com as súbitas promessas de santidade do velho Príncipe. Certos fantasmas, quando percebem que estão mortos, costumam agarrar-se, em desespero, à antiga vida, vagando no limbo das carências afetivas, para assombrar mocinhas indefesas.

Quer saber de uma coisa? Não acredite nas mudanças desse sapo fantasiado de príncipe, nem mude a tua essência para perdoá-lo! Pense bem se ele vale o teu sacrifício. Além disso, você não conseguiria fingir por muito tempo que o perdoou. Certas coisas ninguém esquece ou perdoa por muito tempo: a clemência, na verdade um indulto, vai até o primeiro conflito. E digo mais: se ele fosse o Príncipe dos teus sonhos, te aceitaria como você sempre foi, isto é, por você ter, exata e precisamente, as qualidades e defeitos que possui, essas que te distinguem das outras pessoas. Você não se parece com a Barbarella, e ele sabia disso!

Costumo dizer que o segredo da felicidade é deixar cair a máscara que encobre o próprio ego. Nas relações, assim familiares, como de amor, as pessoas assumem papéis temporários, que não conseguem representar por muito tempo. Contudo, nem sempre essa máscara reflete ou resgata as melhores porções da personalidade, tolhendo, muitas vezes, as nossas maiores virtudes. A melhor expressão de nós mesmos é sempre a verdadeira, porque a executamos com liberdade, e não com as amarras de um roteiro. Escreva a tua própria história, assumindo o papel de protagonista, mesmo que seja necessário corrigir, aqui e ali, os rumos da trama! Nada de príncipes ou princesas... Simplesmente descreva a realidade, mostrando a tua face desnuda!

Se houveres de encontrar um Príncipe, que seja  “desencantado”, mas verdadeiro e sem máscaras. E não imagine que ele será perfeito, porque homens perfeitos só desejam mulheres perfeitas, e você, Cinderela, felizmente não é perfeita. Agradeça, porque as tuas falhas, ironicamente, te poupam do tédio da vida no paraíso. Ora, nem Adão e Eva suportaram o Jardim do Éden! Busque uma vida imperfeita, cheia de contradições e percalços, mas feliz e sem monotonia. Coma a maçã e desencane da história maniqueísta de homens maus e de homens bons, porque essas duas faces convivem em todos nós! O grande segredo é fazer o Doctor Jekyll aparecer mais do que o odioso Mister Hyde.

Reinvente-se! Aproveite essa oportunidade para ousar outros caminhos, porque o sofrimento, embora difícil de suportar, é o pressuposto da cura, servindo, depois do luto, para dar à mente uma chance de crescer e se reciclar.

Leia bons livros, mas não seja daltônica, porque o espectro das cores vai muito além dos “50 tons de cinza”. Contemple todas nuances e matizes, do preto, que é a ausência de cores, ao branco, que é a fusão mágica de todas elas. Volte-se para os grandes clássicos, como Shakespeare, Tolstói, Dostoiévski, Proust, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, mas não despreze os modernos, como Rubem Fonseca, Umberto Eco, John Maxwell Coetzee, Doris Lessing, Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, João Ubaldo Ribeiro, Philip Roth, Thomas Pynchon, e tantos outros.

Ouça “As Quatro Estações”, de Vivaldi, e dance “Por uma Cabeza”, com Carlos Gardel. Respire o ar puro da Bossa Nova, ao som de Vinícius, mas deleite-se, também, com o Rei Roberto, porque brega é ter a mente estreita e preconceituosa. Aprecie, com moderação, as músicas mais executadas nas rádios comerciais. Desconfie das músicas que não te fazem um ser humano melhor ou que não resistem às estações do ano, porque a boa música, sendo uma experiência dramática, que preenche o vazio do silêncio e evoca sentimentos profundos, deve transcender o tempo e as fronteiras. Conselho de amigo: não leve a sério o Michel Teló, porque você não é margarina para ser chamada de “delícia”! Pelo menos, imagino que você, quando perder a exuberância atual — e o tempo não perdoa —, ainda haverá de ser deliciosamente interessante, com aquela beleza etérea e indefinível, verdadeira dádiva dos deuses. Só me pergunto como ele iria te chamar, daqui a 20 ou 30 anos? Quem sabe “delícia rançosa”! Ah, cala-te língua maldita, boca do inferno, escritor sem talento, que você não é Gregório de Matos!

Ainda bem que o teu "complexo de Cinderela" (expressão da psicóloga Colette Dowling) sustenta-se nos sentimentos ou, como preferia Carl Gustav Jung, nos “reflexos comportamentais” ou sintomas de uma personagem de conto de fadas, um simples mito. Nem vou falar sobre “Mito e Significado”, porque isso seria tarefa para Claude Lévi-Strauss, se existissem antropólogos nos Contos de fadas. Mas vou sussurrar baixinho o que ele me disse, antes que o velho Perrault me ouça:

“As histórias de caráter mitológico são, ou parecem ser, arbitrárias, sem significado, absurdas, mas apesar de tudo dir-se-ia que reaparecem um pouco por toda a parte. Uma criação ‘fantasiosa’ da mente num determinado lugar seria obrigatoriamente única – não se esperaria encontrar a mesma criação num lugar completamente diferente.” (Lévi-Strauss, Claude. Mito e Significado. Tradução de António Marques Bessa. Edições 70, Lisboa. 1978. p. 20).

O problema é que o teu mito, minha doce e iludida Cinderela, aparece em todas as culturas, desde a China antiga aos dias atuais, com mais ou menos a mesma essência, mostrando, talvez, que existe algum tipo de ordem por trás dessa aparente desordem ou, quem sabe, algum simbolismo que reflete um comportamento humano presente em todas as culturas. Será mesmo? Quero crer que as mulheres de hoje, independentes, bem resolvidas, profissionais competentes, bem inseridas no mercado, já não sonham com o homem "ideal" e “perfeito”, que as faça felizes, “para sempre”, como no mito, popularizado em conto de fadas por Charles Perrault e pelos Irmãos Grimm. Ao menos é o que elas dizem, e quem sou eu para duvidar, se nem as compreendo em sua plenitude infinita! Pobres homens, só nos deram um cromossomo “X”, para entender dois...

Só sei dizer a você, Cinderela, que os complexos não devem fazer parte da vida psíquica de ninguém que pretenda ser feliz. Não se habitue, nem se adapte a eles. Livre-se dos comportamentos que não te trazem felicidade, mas apenas angústia.

Para você, Cinderela, doce menina dos contos de fadas, ser feliz “para sempre” significa ter um homem protetor, que te afaste das dificuldades da vida, ser de luz, sobre-humano, maravilhoso e idealizado: um leão na cama, um Bill Gates no bolso e um super-homem na defesa da tua dignidade de moça pura. Acho que resumi tudo, não é mesmo Cinderela? Ao que parece, só você é assim... Não as mulheres deste mundo...

Sei que não é fácil aceitar essa triste realidade: o teu Príncipe virou um sapo, ou um chato, sei lá! E você precisa desconstruir antigos sonhos, enfim, deixar a velha infância e ver que o Príncipe, na verdade, esconde um Peter Pan, homem imaturo, que se recusa a crescer e enfrentar as dificuldades da vida. Não se desespere, contudo! Já é sinal de maturidade perceber que o Príncipe virou um chato! Melhor ainda, seria se você percebesse que não existem Príncipes, mas isso fica para outra fábula ou, quem sabe, para o próximo sapatinho de cristal que você abandonar, como quem não quer nada, pelos caminhos da tua vida.

Conviver com o sapo, eis a grande sabedoria, o pulo do gato! Encontre nessa nova busca o que você não espera ver nos homens normais, aquela pulsação perfeita, sintonia profunda, que te faz transpirar, crescer, amadurecer e ver outras cores no espectro da existência. Aprenda a conversar com as diferenças, fazendo da diversidade a resina que une, e não o muro que separa. Em todos os homens sempre haverá características positivas e negativas, que farão dele o Príncipe ou o sapo da tua vida, em maior ou menor intensidade, conforme se ajustem ou não as virtudes e defeitos entre os amantes.

Você percebe a luz do outro quando conhece a sua sombra!

Contudo, o grande mistério, chave para a felicidade, é partilhar sem impor; é dialogar sem estabelecer dogmas ou resoluções imutáveis. Só não muda quem está morto, Cinderela! Mas não se iluda: ninguém muda ninguém, porque, na verdade, a mudança vem de dentro para fora; é um processo de catarse e depuração pessoal, e não de imposição externa ou chantagem emocional. As pessoas até mudam, mas não porque você deseja!

Não adianta ameaçar com a porta da rua, sugerir a solidão eterna e o sofrimento do parceiro depois que ele te perder. Não perca tempo, também, com chantagens emocionais, ameaças envolvendo os filhos ou dinheiro, nem com falsas promessas de suicídio, porque o príncipe vai acabar rindo da sua falta de autoestima, ao lado periguete do Facebook. E também não se mate, porque em dois dias todos te esquecem, inclusive ele: — “coitadinha, tinha a mente fraca!” Ou, pior ainda; — “Matou-se por causa de homem!” Prato cheio para mexericos no Facebook da Floresta Digital. E sabe quem paga a conta? Apenas você, sob sete palmos de terra. Nada disso resolve!

Da próxima vez, quando começar a ver homens fantasiados de príncipes, fale menos e escute mais! Use seus neurônios esquecidos e converse, dialogue, sem chantagens baratas ou decisões imutáveis. Na relação a dois nada se resolve sozinho. Dizem por aí que isso é respeito à alteridade, nome bonito e pomposo para o velho “respeito é bom e eu gosto”.

Mas você precisa superar o “complexo de Cinderela”, antes de exigir que o Príncipe deixe de ser Peter Pan!

Cresçam juntos, respeitando um o espaço do outro, porque o parceiro não é a extensão e continuidade do teu corpo! Respeite as escolhas dele e o aceite como ele é, sem a máscara da hipocrisia. Não o aprisione nas amarras dos teus ideais. Enfim, não o impeça de ser ele mesmo, porque ele, Príncipe ou Plebeu, tem vida própria, e não pode ser o repositório das virtudes ou qualidades que você não tem e projeta nele, imaginando haver encontrado a tua fortaleza, o teu ponto de equilíbrio e salvação. “Salvador da Pátria” só o Sassá Mutema, minha querida!

Amadurecer ou não amadurecer? Eis a questão!

Realize o que existe dentro de você, complete-se, desenvolva novas habilidades, leia bons livros, amadureça a personalidade e abra os horizontes da tua vida. Vá mais longe: ative as potencialidades adormecidas e busque a felicidade dentro de você mesma, antes de esperar que um Príncipe a entregue numa bandeja, com uma taça de Dom Pérignon, ao som de “Danúbio Azul”, de Johann Strauss II.

Sendo feliz sozinha, realizada com você mesma e ciente dos seus objetivos, reconectada, enfim, com a sua sabedoria interior, busque no Príncipe-plebeu a liberdade de ser quem você é realmente, sem falsas expectativas e sem fazer do outro a salvação do seu destino ou o norte da sua bússola.

Livre da imaturidade, sem idealizar sentimentos, busque a felicidade nos pequenos gestos, como a alegria de voltar para casa e encontrar um sorriso, alguém que a aplaude, sem acorrentá-la; que a respeita, mas não deseja moldar a sua vontade e o seu caráter. Você não precisa matar a essência do outro para existir, nem capturá-lo no teu desejo, para ser feliz.

Encontre alguém que é capaz de ser feliz sozinho, mas é ainda mais feliz com você.

O medo de não ser aceita pelos outros, que a levou a amar um falso Príncipe, nobre na aparência e nos títulos, mas pobre de espírito, não é privilégio seu: é fruto da insegurança que vive em todos nós, e se alimenta do autodesconhecimento da nossa capacidade de lidar com a vida e, logicamente, do medo de enfrentar as frustrações por conta própria, ou seja, sem alguém que nos sustente como um pilar.

Mas cuidado com os cafajestes, Casanovas e Dom Juans, que espreitam no bosque! Eles sabem exatamente o que você deseja ouvir, e irão dizer, com todas as letras, as palavras mágicas: “abre-te sésamo”! — quando quiserem abrir o teu corpo e penetrar a tua carne. Eles conhecem o Príncipe encantado do teu roteiro e sabem as suas falas, como mestres na arte de representar. Conhecem o palco, dominam as luzes da ribalta, vestem a roupa certa, vão dizer que te amam logo nos primeiros encontros, vão até falar em casamento, quem sabe filhos, felicidade eterna... E você, carente de afetos, ferida em na autoestima, acabará suspirando, apaixonada!

Enquanto isso, nas catacumbas do Palácio, o teu príncipe irá passar os dias cultuando Narciso: —“Espelho, espelho meu! Existe no mundo homem mais belo do que eu?”

Cada pedacinho das tuas carências será cuidadosamente preenchido pelo galanteador dos bosques, falso príncipe encantado, que se alimenta de sexo com mocinhas incautas, tanto mais saboroso, quanto mais difícil e elaborada a trapaça necessária ao abate. Pobres flores do bosque! Ele as colherá todas para você, entregando-as com doces palavras: — “Nunca senti tanto amor em tão curta vida!” Ou, ainda: — “Você foi a única que tocou meu coração!” Prometerá uma vida de princesa, com ricas vestes e nunca te fará uma crítica, mesmo construtiva! E blá, blá, blá...

Cuidado, você pode estar diante do Dom Juan, também chamado de Casanova, um Príncipe na aparência, narcisista, autocentrado, tudo gira em torno dele. Só a eterna conquista, uma por dia, se possível, pode alimentar o seu ego, que não ficará saciado, entretanto, mesmo depois de derrubar as portas da tua inocência. Ele necessita de quantidade, para falar aos amigos que a sua espada é forte e a sua flecha, certeira. O exercício desse poder de sedução é o que lhe dá prazer, mas sempre momentâneo, devendo ser repetido todos os dias, numa eterna busca da próxima vítima. Ele espreita as suas vítimas nas noites do reino...

Quando menos você espera, ele some, não responde às ligações, as mensagens sempre relatam ocupações infinitas, até que seu rastro desaparece nas areias do tempo. Não estranhe, porque ele só amou o poder da conquista, e não você! Ele era apenas um Dom Juan, e não aquele doce Príncipe dos teus sonhos. Na verdade, foram justamente os teus sonhos inocentes que despertaram o seu apetite voraz e insaciável.

Quem sofre de transtorno de personalidade narcisista, como esse Casanova das noites de lua, tende a se preocupar, obsessivamente, com a maneira como os outros o enxergam, chegando, muitas vezes, a assumir o papel de camaleão, para mudar as cores conforme a conveniência da caçada. Só assim, imagina agradar as vítimas, sendo aceito como salvador das suas almas.

Todo aquele charme e aparência, roupas da moda, perfeitamente alinhadas ao teu gosto, e não necessariamente ao dele, servem para seduzir, mas também revelam a sua personalidade autocentrada e narcisista! Apenas observe! Tudo gira em torno dele, como os planetas em torno do sol! Você é apenas um asteroide na sua vida!

Cinderela, viver é fácil; o difícil é ser feliz nos pequenos gestos, é escutar silêncios, quando os sons te sufocam!! É pisar no freio e contemplar a beleza perene, que se perdeu na pressa incontida de chegar a nenhum lugar!

Faça como os sábios, que indicam os caminhos da sabedoria, mas não castram a liberdade das escolhas, como os seres de luz que namoram silêncios, enquanto rufam os tambores do juízo final.

Aproveite o final do conto de fadas, o que se segue ao ilusório — “e todos foram felizes para sempre” —, e se liberte do seu destino cruel. Deixe o Príncipe nas tramas da Barbarella. Afinal, ninguém conhece a história depois do ponto final da tua fábula. Escreva você mesma a sua sequência, e mande às favas o bondoso Perrault. Ele não queria o teu mal, mas “de boas intenções o inferno está cheio”, como disse São Bernardo de Clairvaux, em uma de suas polêmicas com Pedro Abelardo, o célebre namorado de Heloísa!

Quando encontrar a pessoa certa, não esqueça que a vida é feita de eternos ciclos, e você precisa compreender o seu ritmo, a sua harmonia, sem inventar prisões ou fórmulas mágicas.

Na sequência da narrativa, quando contar o que vem depois do mito, reinvente o romance todos os dias, sem segredos ou disfarces, mas sabendo que a relação de amor é dinâmica e deve ser cultivada todos os dias.

Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa perderam suas vidas tentando eternizar um amor que imaginavam ser impossível, congelando-o como algo intocável. Guinevere se tornou freira e Lancelot, um cavaleiro errante. Não é esse o destino que você deseja, linda Cinderela! Mude o “script”, se necessário, mas não deixe que manipulem as cordas do teu destino.


Por isso, quando encontrar esse homem, comece devagar, mas dê o passo seguinte, quando perceber que não precisou mudar a tua essência para conquistá-lo.

E comece outra história, quem sabe um romance, e não uma fábula!

Quando esfriar aquela chama inicial, provavelmente chegou a hora de amadurecer a relação, transformando em amor o sentimento que ardia no peito. Mexa e remexa a tua história de amor, sem âncoras ou regras preconcebidas, porque o Príncipe e a Princesa devem ser construídos a cada dia, na eterna busca de um ideal que, provavelmente, jamais será alcançado.

Amor é essa eterna luta entre o coração e a razão, sentimento que só se constrói com a maturidade:

“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?”
(“Amor é fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões)

Nem tudo está perdido, se nem tudo foi tentado! O teu destino te pertence, Cinderela! Ouça o imponderável e seja feliz com a realidade, mas sem abandonar os sonhos, que te alimentam na caminhada.

Ora, você é a Glória Perez do teu próprio enredo! Faça valer a caneta mágica e reescreva o final. Anuncie que todos foram felizes para sempre, menos você. E não se esqueça de deixar bem claro que, agora, nessa nova encenação, o Príncipe não será mais um chato. Quem sabe será um sapo que sabe coachar as palavras certas ao teu ouvido? A novela é tua, o roteiro é teu.

Por que sepultei os teus sonhos e agora te dou esperanças?

Ora, quem sou eu para destruir um mito? Você embalou os meus sonhos desde que te conheci na casa do velho Perrault, homem misterioso, de mil e uma histórias!

Case comigo, doce Cinderela, e viveremos felizes para sempre! Quem sabe, eu

“...possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
(“Soneto da Fidelidade”, de Vinícius de Moraes).

"No entardecer da vida, só o amor permanece"! Assim foi no tempo de São João da Cruz, e assim será por toda a eternidade...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post Scriptum: como prova dos meus sentimentos, renuncio, solenemente, às “Certinhas do Lalau”!