terça-feira, 9 de maio de 2017

Por que me considero apenas um coletor de palavras?

Por que me considero apenas um coletor de palavras?

Muitos leitores estranham que, ao final dos meus textos, eu sempre me defina como "coletor de palavras”, e não como escritor de verdade.

Creio — não por falsa modéstia, mas por reconhecimento das minhas limitações — que não mereço a qualificação honrosa de Escritor, algo que está muito além da minha capacidade de saber iludir.

Na verdade, Escritor é quem já foi publicado algum dia, quem teve noite de autógrafos e livros vendidos. É preciso, portanto, um livro com capa e boa diagramação, algo real que possa ser folheado pelo leitor, despertando o seu interesse.

Eu nunca tive nada disso, nem mesmo um e-book. Aliás, a minha Peça de Teatro, a maior obra da minha vida, foi abandonada depois do ponto final, por absoluta descrença na sua sobrevivência nesse mundo cruel e diabólico, que desfaz sonhos e utopias, especialmente dos que se iludem com o próprio talento literário.

O que eu faço é autopromoção nas redes sociais. Eu simplesmente invado o espaço virtual do leitor, e o faço sem ser convidado.

Algumas pessoas, especialmente os amigos, poderão objetar:

— Mas os seus textos são publicados no mundo virtual, o meio mais rápido e eficiente de comunicação da modernidade.

Essa é a questão: os meus textos não são publicados em virtude do reconhecimento alheio; eles são "autopublicados", se me permitem o neologismo, e isso faz uma grande diferença...

Reduzido, assim, ao mínimo essencial, eu não passo de um farsante que perambula no reino das palavras, fazendo do fracasso existencial a argamassa dos seus escritos.

A pouco e pouco, as minhas palavras — que brotam da vida que não vivi, que nascem no berço da hipocrisia de uma vida que não vivo, de um homem que não sou — formam frases; as frases tecem parágrafos; e esses parágrafos, misteriosamente, se convertem nos textos que “autopublico” no meu Blog...

Talento? Que nada: isso é apenas consequência da internet disponível e do desejo narcísico de ser Escritor, algo que não tenho a ilusão de que irei me tornar. Já tive ilusões grandiosas, e nelas eu era um grande Escritor, mas a realidade me fez vendar os olhos à utopia.

Contraditoriamente, eu luto para acreditar que, no deserto dessa vida insignificante a que me condenei, ainda pode nascer um lírio! Se renunciar às minhas autopublicações pretensiosamente literárias, sufocarei no silêncio...

Como disse o Cazuza, "vou sobrevivendo da caridade de quem me detesta...". Não exatamente como ele, "sem arranhões", mas cheio de escaras e marcas de queimadura na pele sensível do ego.

Um Escritor sem livros é como um engenheiro que nunca construiu um prédio, como um médico que nunca curou um paciente, como um piloto de aviões que nunca abandonou a quietude do hangar...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

"O único inferno é não ser capaz de amar"

"O único inferno é não ser capaz de amar"

As palavras do título, que tocaram n’algum ponto das minhas emoções, talvez na sensibilidade embotada pela aspereza da melancolia, são de Dmitri Fiodorovitch Karamázov a Gruchénka, no clássico "Os Irmãos Karamázov", de Fiodor Mikhaïlovitch Dostoïevski.

Será esse o mal que nos consome, nesses tempos de relações efêmeras, época de pessoas partidas, em que vamos perdendo, a pouco e pouco, a capacidade de criar ilusões de amor?

Creio que o inferno não está no Reino de Hades, — apenas um mito —, mas na própria realidade, que vemos com mais clareza nos instantes de dor e dilaceramento do ego, quando abandonamos a atitude passiva dos reféns do amor, a zona de conforto dos que se iludem com uma vida de idílios e encantamentos no paraíso.

Quando o amor nos sequestra e nos enlaça com as suas garras poderosas, buscamos no outro o lenitivo para as dores do coração, a metade que preenche o espaço vazio da nossa incompletude, e nos posicionamos em estado de contemplação autopiedosa, anestesiados pelo embriagante sabor da ilusão de pertencimento.

Nos momentos de solidão — quando os afetos perdem a sua principal fonte de excitação, deixando de gratificar os impulsos libidinais; quando o coração se dilacera na desilusão, esquartejado entre a ausência do outro e a certeza do amor que ainda não se foi —, acabamos superando o nosso inferno pessoal, cortando, com gilete, as feridas emocionais e recompondo, com notas de realidade, a energia vital que nos permite sepultar o passado e viver novos sonhos de amor.

O problema é que não suportamos o peso de nós mesmos, a insustentável ausência do outro que nos significa e ressignifica; preferimos adoçar a realidade, buscando, nas paixões sem amor próprio, um ser humano perfeito e caridoso — exatamente a ilusão que alimentamos sobre nós próprios —, alguém que nos ajude a carregar o fardo da existência, um príncipe ou princesa que nos empreste seus olhos iludidos para que possamos ver o mundo com lentes cor de rosa.

— Você é a metade que me falta! — Dizem os mais iludidos e apaixonados.

A nossa maior decepção é perceber que não existe esse mundo idílico de seres perfeitos e cheirosos o tempo todo. Alguma podridão sempre repousa nas entranhas do humano a quem entregamos a missão impossível de nos completar. Assim como o inferno, o paraíso também é um mito. Em tratando de afetos entre humanos, não passa de fantasia para contos de fadas. Toda relação afetiva possui altos e baixos, alegrias e tristezas, ilusões e realidade, fantasias e decepções.

Ilude-se quem pensa que o amor transita, apenas, pela realidade, sem se transfigurar ao influxo das pulsões e desejos que transbordam do nosso próprio inconsciente. É uma doce quimera, portanto, imaginar que podemos ver o outro como ele mesmo se propõe ao mundo, sem que o nosso olhar se contamine com a névoa dos nossos próprios sentimentos e emoções. Vemos o outro como somos, e não como ele verdadeiramente é.

Embora seja muito forte a minha descrença nesse mundo cor de rosa, eu devo confessar que ninguém está completamente imune ao veneno da ilusão, nem eu mesmo que luto contra as suas garras. Aqui e ali me enredo num amor idealizado...

Para não sofrer a dor da perda, aceitamos tudo que vem do outro, abdicamos do self, renunciando à nossa própria metade na maça do amor. Esse amor descolado da realidade, que se nutre da fantasia de pertencimento, que usamos como remédio contra o desamparo e a incompletude, eu prefiro chamá-lo de paixão.

A tessitura das relações afetivas não se constrói, apenas, de realidade. Existe espaço para o medo, a incerteza e o encantamento. Nunca estamos livres das idealizações condescendentes, zonas de enganos e desenganos, em que os “príncipes” e “princesas” da modernidade fecham os olhos ao que desagrada no outro. Cegos à realidade, negando as evidências, acabamos vendo bem mais do que os fatos sugerem. Em maior ou menor medida, mesmo os mais maduros e encanecidos na dor acabam deformando, com as suas projeções, o olhar que lançam sobre o parceiro, escutando o seu próprio eco, mas imaginando que se trata da voz do outro.

Ao longo da evolução humana sempre existiram grandes paixões, o chamado amor romântico ou amor perfeito, um sentimento que se alimenta das nossas ilusões sobre o outro, verdadeira relação de simbiose e fusão de carências ou, como prefiro dizer, de soma de metades incompletas e desamparadas. Raros são os amores verdadeiros, daqueles em que não preciso renunciar a mim mesmo, para afastar o medo da solidão e do abandono.

Não sou pretensioso a ponto de afirmar que o amor verdadeiro morreu com as redes sociais, enfim, que só restaram paixões repentinas e dilacerantes, essas que morrem na balada, sentimentos efêmeros que se consomem em beijos e carícias no motelzinho da esquina. Nessas relações entre pessoas partidas e incompletas, os afetos evaporam antes dos fluidos corporais dos amantes, que são trocados por volúpia, apenas para saciar a libido, e não para criar conexões. Ao falar dessas relações, que passam mais rápido do que as tormentas de verão, eu prefiro não usar o substantivo amor. Não passam de paixões virtuais ou, não raro, etílicas, sempre repletas de promessas e desenganos, relações aparentes que se mostram menos reais do que as estradas da internet em que transitam. Ouso dizer que os “ficantes” da modernidade não sabem amar. Na verdade, apaixonam-se pelo ideal do outro, que nunca chegam a conhecer e, quando conhecem, preferem negar a imagem decadente que capturam com a razão. Só o coração fala... ou cala...

Acho que me tornei insensível, nos últimos tempos. Distanciei-me das pessoas e fui perdendo, sem perceber, a empatia com a alteridade, a aderência com os sentimentos e emoções do outro. Mas não estou morto nem congelado... Apenas em estado de hibernação, até que passe o inverno da minha crise existencial.

Por enquanto, só estou percebendo, na vida afetiva e profissonal, o amargo, o azedo, o insosso, o fugaz, o que é breve, mas não sinto o doce, o eterno, o sabor do sal na ponta da língua. Meus sentidos embotaram na desfaçatez das palavras que derramo no mundo virtual, na desesperança que desfaz, antes da minha chegada, a estrada em que pretendo caminhar. O nome disso? Depressão!

Como disse Dmitri Fiodorovitch Karamázov a Gruchénka, a frase que usei como título:

"O único inferno é não ser capaz de amar."

Creio não ser esse, porém, o meu inferno pessoal! Pode ser, talvez, a atonia de um depressivo... Só estou certo, contudo, de que não sofro da pouco conhecida “alexitimia” (um transtorno neurológico que se caracteriza pela absoluta incapacidade de amar). Sinto-me capaz de amar intensamente; só não sei dizer por quanto tempo permanecerei no limbo dos solitários! Espero que seja apenas uma fase da minha lua afetiva. E que passe logo...


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

O povo gosta mesmo é de sacanagem...

O povo gosta mesmo é de sacanagem...

Atualizando a contagem de leitores dos textos que publico no meu Blog (http://jorgearakenfilho.blogspot.com.br/), invariavelmente me deparo com uma constatação evidente, que realmente salta aos olhos: os contos eróticos sempre superam a marca dos 600 leitores. E reparem que não escrevi um ou dois, mais um número expressivo de Contos desse gênero "subliterário".

— O que isso tem de tão especial? Ora, essa é a comprovação, com algum grau de cientificidade e certa dose de ironia, da minha tese de que o povo está carente de uma boa sacanagem, para se libertar da repressão sexual do politicamente correto... e infinitamente chato...

— Mas onde está a ironia? No fato de que eu seria o último ser humano na faca da Terra — o menos provável, talvez — a abrir os canais da sexualidade dos castrados desse mundo, mesmo dos que fazem sexo mecânico com as namoradas e esposas e, mergulhados em sua ilusão narcísica, ainda chamam de "amor"... Os homens realmente acreditam — ou precisam acreditar —, quando elas gemem de prazer, dizendo que tiveram a melhor experiência de suas vidas, a epifania do prazer e do gozo. Prefiro não falar do tabu do Homo sapiens do sexo masculino: o tamanho do pênis... Por isso, nos meus contos, eles são invariavelmente imensos... Só assim, identificando-se com um pênis grandioso, mesmo ilusório, os meus queridos leitores viajam na sua maionese pessoal...

— Por que eu não seria indicado para descomprimir os canais da sexualidade alheia, para desconstruir essa chatice politicamente correta com a mais barata e vil das pornografias? Porque, nos últimos três anos e meio, eu só faço sexo na imaginação, só dou beijos nas viagens melancólicas que faço ao passado...

— Como assim? A verdade, triste verdade, é que de tanto caminhar sozinho, eu me tornei virgem novamente... Mesmo sem mulheres, mesmo sem experimentar o gozo real há praticamente três anos e meio, mesmo sem tocar numa fêmea da espécie sapiens há tanto tempo (antes que você me pergunte se sou gay, já respondo, sem rancor ou alegria, que os homens não despertam o erótico castrado no meu corpo); mesmo longe do prazer sexual, como ia dizendo, eu ainda consigo tecer os fios invisíveis da imaginação, permitindo, com a minha “subliteratura”, a sua própria viagem... Escrevo como forma de catarse, enfim, para libertar o monstro sexual que aprisionei no meu claustro de solidão, e, também, para libertá-lo da sua prisão sem muros, do seu mundinho de sexo mecânico, papai-e-mamãe, das suas correntes de sexualidade afável e reprimida.

Muito obrigado a você, leitor dos meus contos eróticos, por me permitir iludi-lo com a minha farsa: sou o mais casto dos homens, incitando e excitando o seu monstro sexual... E isso é pura ironia... Esse é o poder da literatura! Por isso, leia!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


sábado, 6 de maio de 2017

É sonho, delírio ou realidade?

É sonho, delírio ou realidade?

— O que há de tão interessante no seu mundo de sonhos?

— Nele você não está!

— Mas por que você tem tanto medo de mim?

— Porque não o entendo.

— Por isso, sonha?

— No sonho, quem escreve o roteiro sou eu...

— Pois a “realidade” que você não entende e, por isso, teme é o meu sonho, ou seja, a minha versão da realidade. Nele o roteirista sou eu! Mas eu não crio uma nova realidade; apenas adapto o mundo real segundo a minha subjetividade. O argumento desse filme é a realidade objetiva, mas o roteiro adaptado — a realidade filtrada pelo meu olhar — é a minha própria obra de arte.

A realidade tem muitas faces, nenhuma delas totalmente verdadeira. Quem parece ser o vilão, muitas vezes, está fazendo o bem; quem aparenta bondade, não raro, pode estar nos matando...

Tememos, na verdade, o que não conseguimos entender. E o objeto desse temor, na maior parte dos casos, é a mesma realidade que enxergamos, vista pelo olhar e sob a perspectiva do outro. Essa realidade, que percebemos com a lente dos próprios nossos desejos — e isso é inevitável —, não é uma realidade monocromática, única e definitiva, algo pronto e acabado, como uma história fechada; ela é a nossa representação da realidade. É o que ocorre, por exemplo, quando deslocamos a memória de um objeto antigo para o objeto atual do nosso desejo — pessoa, coisa ou acontecimento —, e acabamos vendo a realidade conforme as nossas ideias antecipadas sobre ela, e não como ela realmente se apresenta. Não desejamos experimentar a verdadeira realidade, mas o desejo pelo que ressignificamos dessa realidade, isto é, o desejo por uma ideia antecipada que temos dela, já formada antes mesmo que os fatos e eventos fossem acontecendo. Tudo isso nos leva a pensar que amamos o desejo por essa imagem ressignificada da realidade, a nossa subjetivação da realidade, e não a realidade objetivamente considerada, que nunca enxergamos concretamente. Só percebemos no espelho o que nele projetamos, e é com essa realidade idealizada e preexistente em nossa memória — moldada pelo deslocamento de antigos objetos de desejo, normalmente insatisfeitos, para objetos de investimento psíquico atual — que nos iludimos, imaginando-a como a única, definitiva e nova realidade. Contudo, essa nova realidade — que passamos a enxergar como única e definitiva — é, apenas, a antiga realidade revisitada pelo deslocamento para o presente das nossas memórias do passado. Em outras palavras, não vemos o que existe agora com o olhar e sob a perspectiva do tempo atual, mas com o olhar e sob a perspectiva do que existiu antes, isto é, segundo os processos de subjetivação que adotávamos no tempo decorrido, que explicam o passado e, sob o ângulo da nossa subjetividade, justificam as nossas ações e reações no presente. Ao invés de viver o aqui e o agora, vemos tudo que acontece no tempo atual sob a ótica dos eventos que, em algum momento do passado, nos causaram dor ou apego emocional, alterando-se, assim, a nossa percepção da realidade objetiva. A própria realidade objetiva, a bem da verdade, não passa de abstração.

Traduzindo o discurso, investimos toda a energia pulsional (ou psíquica) nessa realidade filtrada pelos nossos processos de subjetivação (e efetivamente desejamos que essa realidade alternativa se concretize!), fixando-nos não na realidade concretamente considerada, mas na nossa representação mental da realidade preexistente, seja ela relativa a pessoas, coisa ou ideias. Esse processo, chamado de catexia, explica, ao menos em parte, como as nossas memórias podem ser deslocadas, modificadas ou ressignificadas, criando figuras substitutas para a realidade objetiva que, de alguma forma, deixou de gratificar os nossos sentimentos e emoções. Daí em diante, a nossa percepção da realidade é alterada, quase sempre no sentido de recalcar as memórias dolorosas e de produzir boas lembranças, mesmo que em sacrifício da verdadeira experiência que vivenciamos. Ainda que a realidade objetiva possa ser dolorosa, ainda que as memórias do que efetivamente aconteceu possam evocar experiências traumáticas, esses objetos de investimento afetivo (desejos, normalmente insatisfeitos, por pessoas, objetos ou ideias que nos causaram dor) conseguem sobreviver nas novas ideias que concebemos para deformar a realidade, moldando o mundo real e o deformando de forma contínua, para que o mundo real, nem sempre acolhedor dos nossos investimentos psíquicos, seja mais facilmente superado e digerido, notadamente quando contraria os nossos desejos recalcados, que são os filtros com os quais observamos a realidade.

— Não entendi porra nenhuma! Você só está falando merda.

— Negar validade ao outro — e à forma através da qual ele enxerga o mundo real — é um processo de defesa do ego, que deforma a realidade, a fim acomodá-la aos seus próprios recalcamentos e, também, aos desejos latentes e manifestos que não consegue gratificar ou cuja satisfação pode ser dolorosa.

O sonho (essa ideia alterada que fazemos sobre a realidade, processo que chamo de subjetivação do real) é uma forma de ver a realidade com a qual não sabemos lidar. Por isso, se a sua realidade for pequena demais, para caber a alteridade, não castre o sonho grandioso do outro com o seu  acanhado roteiro.

Cuidado com a “realidade” confortável em que você acredita. Pode ser a mentira necessária que você contou a si mesma, quando não sabia lidar com a verdade. Nem tudo é como parece ser ou parece ser como é... A própria realidade é, apenas, a sua perspectiva da realidade, e não a própria realidade, que pode ser dolorosa demais para você suportar.

— O que você diz não faz o menor sentido!

— Deve ser por isso que você não gosta de mim: é medo do que não entende...

A minha resposta à indagação do título é bem simples: tudo é realidade e, ao mesmo tempo, sonho e delírio! Só depende da perspectiva a partir da qual observamos essa tal realidade.

Quer mesmo saber a verdade? E se ela não for suficiente?

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


Não espere de mim mais do que respeito e educação...

Não espere de mim mais do que respeito e educação...

Em primeiro lugar, não espere a minha adulação fingida! Se eu a/o elogiar, eventualmente, pode apostar que será sincero e merecido. E não pense que desejarei algo em troca. Eu não puxo nem o meu próprio saco, ultimamente, imagine o seu...

Em segundo, não espere que eu o impeça de cair no precipício, se, por acaso, eu houver feito uma crítica, mal recebida, às suas atitudes! O abismo de cada um é particular e intransferível... Muitas vezes só a queda nos faz aprender a voar ou, na pior das hipóteses, nos faz aprender como se levantar depois de se esborrachar no chão.

Seja como for, não se iluda: eu não espero nada de ninguém, nem piedade...

Por isso, se algum dia, porventura, eu a/o adulei, bajulei ou mendiguei o seu reconhecimento ou afeto, perdoe-me a minha terrível hipocrisia! Isso jamais acontecerá novamente. Eu prometo!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Por que a sogra é tão injustiçada?

Por que a sogra é tão injustiçada?

A resposta é bem simples: porque ela é a sentinela número um do comportamento da nora e do genro. Por isso, é tão odiada, sobretudo pelos cafajestes. Conquiste-a, antes de conquistar a sua própria namorada ou namorado, e você evitará uma inimiga curiosa e mortal, que sabe investigar como Sherlock Holmes, quando se trata de noras e genros canalhas e infiéis.

Eu mesmo, que nada tenho a reclamar de nenhuma das minhas sogras, posso desafiar, publicamente, qualquer uma delas a falar sobre mim algo que não seja abonador das minhas intenções ou das boas relações que sempre tivemos.

De fato, e por incrível que pareça, nunca tive qualquer desavença ou mal-estar com as mães das minhas namoradas. Bem ao contrário, sempre me senti à vontade com todas elas, sendo, em quase todos os casos, o cara folgado que se deita no sofá, logo no primeiro encontro, e beija a sogra sem pudor ou medo de ser feliz. Uma delas me acolheu em sua casa, três anos atrás, numa fase difícil da minha vida... Outras me presentearam com fartos almoços e muitas gargalhadas... Elas sabem disso, e as minhas ex-namoradas também... De todas, tenho ótimas lembranças; por algumas, amor genuíno até hoje...

Aos que não me conhecem, e começam a duvidar das minhas palavras, imaginando que sou hipócrita, posso dizer que todas as namoradas que tive na vida estão no meu Facebook, com exceção de uma, que não tem conta nas redes sociais. E as suas respectivas mães também continuam minhas amigas, inclusive no mundo virtual, sendo que uma delas, cujo nome não preciso declinar (ela lerá este texto e saberá de quem estou falando), pode se considerar como a minha mãe substituta.

A minha intenção, com este texto, não é apenas resgatar a figura humana das sogras, mas enviar muitos beijos a todas vocês que me presentearam com as suas filhas, as criações mais valiosas das suas vidas. Se eu não soube merecê-las, o meu pedido de perdão, eu o faço em público, já que não tenho do que me envergonhar.

Muito obrigado, de coração, por haverem compartilhado comigo a melhor porção de vocês, as suas filhas queridas, que até hoje fazem morada em algum lugar desse meu coração peregrino!

Às sogras que tive, com carinho, a minha eterna gratidão!

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

O homem e a sua maior fantasia

O homem e a sua maior fantasia

Você sabe qual é o maior dos desejos inconfessáveis de um homem? Escutar da prostituta: — Foi tão gostoso que eu não vou cobrar.

Faça essa pergunta ao seu marido ou namorado. Pode apostar que você o verá mentindo, cinicamente. Ele dirá que sou um babaca, se você lhe confessar que a sugestão foi minha. Mas você esperava o quê? Eu disse que era um desejo inconfessável. Ele o negará de pés juntos, fazendo cara de santo; jurará pela mãe e pelos filhos que jamais pensou numa tolice dessas. Sujeitinho mentiroso!... E cínico!...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Aluna da PUC, menos hipocrisia, por favor!

Aluna da PUC, menos hipocrisia, por favor!

Para quem não está familiarizado com o universo de Nélson Rodrigues, a aluna da PUC — personagem frequente nas Crônicas do "Anjo Pornográfico" — não é uma mulher específica, com nome e CPF; tampouco é, necessariamente, aluna daquela Universidade da burguesia carioca.

Na verdade, ela é um tipo bem característico das obras do Nélson, o arquétipo da militante engajada, a jovem da alta sociedade carioca que encontrou abrigo na esquerda, um ser contraditório e, não raro, hipócrita, que faz discursos marxistas ou marxista-leninistas em nome dos excluídos, mesmo sendo, ela própria, uma filha mimada da burguesia da zona sul da “Cidade Maravilhosa”.

Ela tem empregados, para lavar a sua roupa e limpar, assepticamente, a sua mansão no Cosme Velho ou no Jardim Botânico; na cozinha, com um avental branco, está uma senhora, normalmente negra, que acorda às 3 da madrugada, pega dois ônibus, trem e metrô, para chegar antes das seis na casa da sinhazinha, a tempo de fazer o seu café da manhã com “Sucrilhos” e “Iogurte Actívia”. Você não faz ideia de como é preguiçoso o seu intestino de riquinha mimada que come merda o dia todo!... Ah, esqueci-me do queijo branco com “Prosciutto di Parma” ou “Pata Negra”... Afinal, a garota da PUC precisa se alimentar bem... Não é fácil engajar-se na militância política, atividade cansativa e desgastante para essa alma “desafortunada”, que acorda falando horrores dos riquinhos, seres como ela, e — hipocrisia pouca é bobagem — tecendo loas aos pobres e miseráveis, como a sua empregada negra, convenientemente confinada na senzala moderna, a cozinha da sinhá-moça...

Ela também é mulher — não exatamente como a sua empregadinha da favela —, invariavelmente jovem, e, ao menos uma vez na vida faz o "Caminho de Santiago” dos militantes de esquerda no Rio de Janeiro, subindo o elevador da Favela do Cantagalo, em Ipanema, ou a Favela do Vidigal, para “chapar um beck” e se impregnar com o cheiro dos pobres. Já com o odor da miséria em suas roupas de marca, ela retorna ao asfalto, para exalar compaixão narcísica nos bares da Rua Vinícius de Moraes. A sua finalidade? Ser cortejada pelos companheiros de berço esplêndido, que se fantasiam de proletários nos finais de semana em que não se bandeiam para Búzios ou Angra dos Reis.

É, enfim, a filhinha ou filhinho de papai, aluna ou aluno de boas universidades cariocas, que nasceu em berço nobre, mas faz digressões filosóficas sobre a pobreza, apenas porque subiu — uma ou duas vezes — numa favela qualquer da cidade. É a Rosa de Luxemburgo do posto nove em Ipanema, revolucionária cuja missão de vida é viver uma fantasia de engajamento progressista e de solidariedade aparente com o pobre ou com o trabalhador favelado, que nunca foi e, tampouco, deseja ser.

Ela observa os pobres e miseráveis de longe, acusando os amigos da Vinícius de Moraes de serem alienados, justamente aqueles amigos — como ela própria — a quem o berço foi pródigo e generoso.

O seu engajamento político é uma forma de apagar a sua chaga de nascimento, a mácula inata que a faz "culpada" de ser da mesma classe social dos que oprimem e exploram os seres humanos do Cantagalo, para ela estranhamente mal cheirosos, já que não usam as melhores fragrâncias de Paris. Mas nada como um banho de sais e boas essências, na banheira de hidromassagem, depois da peregrinação ao reino dos pobres e proletários...

Como uma boa revolucionária, a Aluna da PUC expia o seu "pecado original” — haver mamado no seio de uma mãe burguesa — fazendo uma imersão, breve e fugaz, no universo dos pobres, para ela um parque de diversões, tão surreal quanto o seu delírio de mudar o Homo sapiens ou de se livrar da burguesinha altiva e cheia de palavras vãs, que ela sempre volta a ser, quando a porta do seu prédio se fecha por trás do seu lindo corpo burguês, ciosamente trabalhado numa boa academia. Para se perdoar do “pecado original”, ela sobe o elevador do Cantagalo como uma espécie de penitência, que paga ao menos uma vez na vida. Só assim, depurada pelo Caminho de Santiago dos engajados da esquerda festiva, ela retorna ao seu mundinho de classe media alta, mas, agora, já disfarçada com o cheiro dos pobres e miseráveis, de quem se diz porta-voz no seu universo de ricos e bem-aventurados. E haja assunto nas aulas de história da PUC...

Desse dia em diante, ela se torna especialista em pobreza, sabendo tudo sobre a exploração dos miseráveis pelos seus próprios irmãos de berço.

Já descrente na salvação do Homo sapiens e acreditando que só uma extinção em massa salvaria o Planetinha azul, eu ouso afirmar, sem qualquer pretensão de estar certo, que a distância entre esquerda, centro e direita está apenas na hipocrisia dos que cospem dignidade a partir dos seus valores narcísicos, recusando como indignos todos os que não cabem no seu espelho.

Ninguém pode fugir da própria sombra, nem mesmo o homem que busca seguir os caminhos da fé num Deus onipotente ou na infalibilidade dos seus próprios dogmas políticos: até o maior dos revolucionários precisa conviver em sociedade; precisa perceber, enfim, que a sua visão de mundo não pode ser excludente e egocêntrica: nem sempre estamos certos, nem quando fazemos revoluções.

De fato, se não deseja enfrentar moinhos de vento, até o mais inconformado dos seres humanos precisa encarar o seu lado negro e sombrio; precisa aceitar que a realidade é — sempre e necessariamente — multifacetada, e a verdade, relativa. A razão, muitas vezes, está com o outro, e admitir isso não o diminui, nem o faz um “fascitoide ensandecido”, nem um “esquerdopata doentio”. Falar assim, não raro, é preconceito e intolerância à alteridade. Nada mais...

Revolucionário não é quem se ilude com a ideia de mudar tudo, com a fantasia de monopolizar a verdade ou de reescrever a história humana, de negar por completo as ideias de todos que o precederam, como se estivessem todos errados e apenas ele, o dono da verdade, estivesse certo; verdadeiro revolucionário é quem faz do improvável a matéria prima da mudança, sem perder de vista a realidade e sem se deixar iludir pela certeza da sua própria bondade e sabedoria.

Muitos revolucionários, depois de colher os louros da vitória, acabam se tornando exatamente aquilo contra o que lutavam: conservadores e preconceituosos, aristocratas fantasiados de rebeldia — ainda piores, muitas vezes, do que os que foram vencidos —, seres onipotentes que vivem encastelados numa visão monolítica da realidade, que tem como pressuposto a perfeição quase divina dos que pensam como eles.

Lidar com o caos, com o imponderável e imprevisto, isso, sim, é revolucionário! Desde que nasceu o primeiro dos Homo sapiens, só sobrevive quem melhor se adapta às circunstâncias que ainda não podem ser modificadas, enfim, quem cede, aparentemente, à tentação de caminhar nas trilhas já conhecidas, mas não abre mão da esperança de encontrar o caminho da transformação.

Se o primeiro a acender o fogo houvesse desistido ao queimar os dedos, a humanidade estaria extinta. Nem por isso, porém, devemos mudar tudo que existe ou tocar fogo no mundo.

A verdade é só uma questão de perspectiva: quem está no trem, conversando com um amigo, percebe-o parado diante de si; quem está do lado de fora do mesmo trem, e o vê passando, percebe que os dois amigos, vistos rapidamente através da janela, estão se deslocando em alta velocidade, exatamente a mesma do trem. Isso é a relatividade geral do bom e velho Einstein. Aprenda com ele e acabe com as suas certezas!

Você é muito menos revolucionário do que imagina! Essa obsessão de refazer os caminhos da humanidade é só a velha arrogância dos que imaginam saber mais do que todo mundo, dos que se iludem com o monopólio da verdade. Quem disse que os seus caminhos são os melhores, que os seus valores me representam?

O maior dilema do revolucionário é acabar reproduzindo os mesmos comportamentos que ele estava combatendo. Napoleão Bonaparte, Robespierre, Danton e Marat acabaram mais aristocratas e tirânicos do que os nobres inúteis e despóticos que foram decapitados durante a revolução francesa...

Por isso, devagar com o andor que o santo é de barro! A sua representação da realidade nem sempre corresponde ao que é de fato real, nem ao que é desejável para todos.

Essa clivagem maniqueísta entre certo e errado, entre bons e maus, entre o que é desejável para a humanidade e o que constitui o seu próprio projeto político ou ideológico — esse mesmo que você tenta impor a todos — explica a sua fantasia megalomaníaca de mudar tudo com o que não concorda. Mas essa mudança, você não a deseja, necessariamente, para criar um mundo novo, melhor e mais justo para todos, mas para criar um mundo à sua própria imagem e semelhança. Você ainda não fez a revolução, e já está brincando de Deus com as cordinhas do destino alheio!

Não se faz revolução mergulhando no próprio umbigo! Isso é narcisismo, minha amiga rebelde sem causa.

A linha que separa uma rebelde incompreendida — a visionária que caminha adiante do seu tempo — da idiota sem causa — uma narcisista mimada que não sabe escutar um não, que deseja impor os seus próprios caprichos e desejos, que não sabe lidar com a frustração e com a alteridade — é muito tênue e delicada!

Aprenda, de uma vez por todas: quando você se acha melhor do que o outro, na verdade está projetando nele as suas sombras e fracassos, para assumir a fantasia de onipotência narcísica que criou para substituir a triste realidade do seu ego.

A aluna da PUC é você mesma — menina hipócrita! — que aponta o dedo para me rotular como “direitista alienado”. Ao lançar sobre mim os seus próprios dejetos, você se redime da sua vidinha fútil de pessoa abastada. Eu conheço as suas fantasias sexuais com o Che Guevara... Sei que o seu namorado tem orgasmos revolucionários, quando você lhe fala do seu tesão pelo velho Che...

— Com quem você acha que está falando?

— É com você mesma que estou falando, aluna da PUC! Olhe-me nos olhos!

— Quem é você, escritorzinho de merda, que ousa dirigir-me as suas palavras rotas? Eu o conheço?

— Felizmente, não!... Eu apenas tenho lido — com certa repulsa — as suas postagens de amor aos excluídos, o seu olhar de piedade com os deserdados da fortuna, com os mendigos das esquinas. Você arrota dignidade e compaixão, fala de ricos exploradores e pobres espoliados... Fala com tanta emoção, que as lágrimas quase escapam do claustro de insensibilidade em que me aprisionei. Sempre haverá dominantes e dominados, presas e caçadores, nas sociedades humanas. Somos animais, apenas isso...

— Animais racionais!...

— A nossa racionalidade é apenas uma utopia. No início, bem lá atrás, os nossos tiranetes eram os homens mais fortes e hábeis das cavernas em que vivíamos abrigados das intempéries, talvez o marido da Lucy, o  Australopithecus afarensis que viveu há 3,2 milhões de anos; um pouco mais tarde, passaram a ser os homens mais fortes e hábeis das sociedades primitivas, supostamente mais sábios e, naturalmente, mais hábeis e criativos no exercício do poder sobre o gado humano. Não se esqueça de que entre os povos antigos não era raro o sacrifício de humanos em oferenda aos deuses. Quer um meio mais fácil de modular comportamentos desviantes do que a espada de Dâmocles do sacrifício? Quem ousaria desafiar um soberano maia ou asteca, se a punição fosse a morte ritual? Quando já imaginávamos superada, com civilidade, essa fase de “barbárie”, vieram, não necessariamente nessa ordem, os senhores feudais, os nobres, os burgueses, os burocratas do Partido Comunista, os senhores de engenho, os fazendeiros, os capitães da indústria e, agora, os donos das startups... Quando faremos algo realmente revolucionário? Quando sobrevier a próxima extinção em massa e desaparecer o último dos seres humanos... Essa será, enfim, a grande revolução, e o Planeta estará salvo da nossa “bondade”!

— Se você se tornou insensível aos que sofrem nesse mundo de excluídos, o problema é seu. Eu ainda acredito na revolução. O proletariado se unirá um dia...

— E se tornará o opressor desse período revolucionário, assumindo o lugar do capitalista que o explora hoje. É ilusão fazer omelete gourmet com ovos podres... E os ovos podres somos nós, seres humanos...

— Eu tenho consciência do meu papel na transformação dessa sociedade injusta.

— Você enche essa boca cheia de dentes e aparelhos, para arrotar o seu papel revolucionário na nova ordem global? Não me faça rir! Perdoe-me a indagação, mas você o exercerá antes ou depois de se trancar no seu quarto em Ipanema, escutando Spotify com uma latinha de coca-cola e um Big Mac ao lado do iPhone 7? Você acha mesmo que sou assim, tão idiota? Pensa que não sei que você é a menininha da PUC (grande Nélson Rodrigues!), a garota mimada que sabe tudo de ser miserável, mas nunca foi nem deseja ser miserável, a fera do histrionismo ressentido que brada contra os ricos e poderosos, mas flerta com eles nos bares de Ipanema. Uma figurinha fácil da classe média, que arrota pobreza contra os ricos, mas não abre mão da empregada doméstica enclausurada em sua cozinha burguesa. O fogão se tornou o tronco, e a carteira de trabalho, o açoite...

— Você deturpa a história...

— As suas aulas de história deveriam ter servido para alguma coisa: você já deveria saber que o ser humano nunca foi melhor do que isso. Se puder levar vantagem, ele sempre desejará levar... O ombro alheio é apenas um degrau. Se puder agradar a si próprio e às suas crias, mesmo que em detrimento do outro, ele certamente o fará. Ou você já passou num concurso e lamentou aquele alguém que perdeu a vaga porque você acertou uma pergunta a mais e o excluiu do emprego?

— Mas eu estudei mais do que ele e mereci a vaga!

— É essa a sua forma de lidar com a culpa? E se eu disser que ele precisava muito mais do que você e só não acertou aquela questão porque não teve acesso às mesmas escolas que você? Sabe por quê? Porque ele estava vendendo balinhas no sinal aos dez anos... A sua mãe? Presa no Complexo de Gericinó... O pai? Apenas um traço na Certidão de Nascimento...

— Você falou em culpa, mas eu realmente não tenho culpa!

— Só pergunto se você o notou, quando ele vendia balas na esquina? É claro que não! Você estava muito ocupada, preparando-se para vencer concursos públicos... O menino invisível — esse mesmo que você finge não ver nas calçadas, que chafurda no lixo, sem lar nem parentes, esse que nunca teve um computador, nem smartphone ou internet — é o avesso do seu desejo de bem-aventurança, é a face oculta da perversidade humana, é o contrário da humanidade que você invoca para si mesma, quando se sente espoliada pelo seu próprio chefe.

— Não posso fazer nada por essa gente miserável.

— Foi o que disse Pôncio Pilatos, depois de lavar as mãos: “Innocens ego sum a sanguine iusti huius” (“Sou inocente deste sangue, isso é lá convosco.”) (In: Mateus 27: 24).

— Seja como for, as oportunidades eram iguais!

— Para quem mesmo? Que bonito, hein?!... Falar dos miseráveis com uma latinha de Red Bull nas mãos, olhando o smartphone cheio de redes sociais... Com essa bunda branca nas cadeiras da PUC ou no barzinho da moda é fácil ser bondosa e solidária... Você não é a mulher negra e pobre do gueto... Apenas finge saber o que se passa na vida dela, para passar recibo de boa moça e ganhar admiradores e curtidas...

— E você não faz a mesma coisa, ao destilar tanta hipocrisia no seu discurso alienado?

— A diferença é que eu digo, em alto e bom som: não me importo mais com o miserável das esquinas... Ele sempre esteve lá, em todos os tempos e em todos os lugares. Ele é muito mais do que um ser humano, é um jeito de ser e agir do Homo sapiens, a perversidade atávica do gênero Homo que se entranhou no inconsciente coletivo, forjando esse arquétipo da miséria humana, esse desgarrado que perambula nos esgotos para me fazer nobre... É por esse olhar altivo, de compaixão e clemência, que me sinto angelical e superior. Enxergando o esgoto dos miseráveis do meu banquinho acadêmico, capturando o andar claudicante desses farrapos humanos pelas lentes da minha indulgência festiva de aluna de história da PUC, é que me faço notar na sociedade dos incluídos como piedoso e compassivo, a alma boa que resgata os humildes, mas vive no castelo dos poderosos ou, na pior das hipóteses, entrincheirada na coxia das redes sociais, tentando se misturar com os nobres, de forma sorrateira e mendicante, para também se refestelar do banquete. Eu preciso do miserável para me sentir um pouco menos miserável! Não importa o que aconteça, sempre haverá miseráveis, para que as alunas da PUC e os intelectuais dos bares e restaurantes da moda possam vomitar a sua solidariedade hipócrita. Se eles desparecessem, subitamente, você ficaria sem discurso...

— Se ficasse sem palavras, eu adotaria o seu discurso de negatividade ressentida, essa fala conservadora que nega a qualquer mudança a possibilidade de ser boa. É o velho discurso de Edward Murphy: nada está tão ruim que não possa piorar. Por isso, que tudo permaneça como está. Para os direitistas empedernidos, nada deve mudar, porque o novo será sempre pior do que o status quo.

— Que saber de uma coisa? Você não sabe o que é ser miserável; nem eu o sei, antes que me acuse da mesma hipocrisia. Você olha de longe, por uma lente de compassividade crítica, os pobres coitados que dormem ao relento, temendo ser um deles. É bonito ser solidário e piedoso, mesmo que a compaixão tenha cheiro e sabor de hipocrisia.

Sempre que você entoa discursos de amor aos miseráveis das ruas, eu os vejo esbarrando no seu muro de hipocrisia... Na verdade, você os ama compassivamente, como o seu próprio Deus também os ama: de longe e sem fazer nada por eles! Ou você pensa que eu não vejo a sua cara de asco, quando entra no Banco Santander e sente, na porta, o cheiro de podridão dos miseráveis que dormiram em velhos colchões na marquise do prédio? Nessa hora, você lembra que tem um chuveiro, e ele não... Mesmo assim, você sabe tudo sobre a miséria, conhece as suas causas, domina todos os caminhos que levaram aquele indigente aos guetos da cidadela.

Agora que provoquei o seu ego, instilando o veneno do ressentimento contra o escritor de banalidades que me tornei, só desejo lhe fazer uma pergunta: você se incluiu em alguma dessas causas? Ou, nas suas aulas de história (nas PUC’s desse mundo hipócrita), só lhe ensinaram a terceirizar a culpa, a demonizar pessoas que se vestem com roupas caras como você, que andam na sua companhia, que cheiram a perfume francês como você, que se refestelam com chope nos mesmos bares e restaurantes de Ipanema e do Leblon que você costuma frequentar?

Que tédio, hein? Só você é santa nesse Planeta azul?!... Só você vê os miseráveis nas esquinas. Só você sofre por eles com o seu copo de chope nas mãos, apontando culpados, julgando os seus colegas de bebedeira. Você já ouviu falar de solidariedade festiva? Pois é, pois é...  — Diria o filósofo Chaves.

Que mundo é esse? Parecemos politicamente corretos, solidários e compassivos com o sofrimento dos miseráveis, não porque nos identifiquemos com eles, nem porque desejemos resolver os dilemas e desafios da humanidade, mas para lidar com a nossa própria culpa de não sermos, também, miseráveis. Por isso, com desfaçatez e cara de santo, mostramos ao mundo essa máscara de candura que vestimos nas interações sociais.

Garotinha da PUC, de boas intenções o inferno está cheio! Aliás, depois de ver tanta gente bem intencionada nas redes sociais e na política, eu só tenho pena é do diabo...

Sabe quando você sente que está represando um oceano, mas não tem forças para proteger a barragem da sua própria sanidade? Aquele momento em que a realidade se dissipa nas tensões represadas no inconsciente? O instante em que você começa a ver o mundo com uma névoa densa e pesada, que esconde o sol e traz a atmosfera das noites escuras e eternas?

— Você não passa de um conservador envelhecido, um tiranete que, ao negar a política como forma de transformação, só deseja manter tudo como tem sido até aqui, para, assim, sem desconstruir a ordem das coisas, conservar os seus próprios privilégios. Se não for pela transformação pacífica, usando-se como instrumento da mudança, as estruturas de poder existentes, que se desconstrua tudo que existe, fazendo-se a transformação revolucionária pelo enfrentamento.

— Desça desse palanque, beba um copo do seu chope, antes de falar em nome dos descamisados!

— Sou, sim, consciente da dor do outro; sou, sim, solidária aos que não têm um prato de comida, nem um abrigo para passar as noites de frio. A sua ironia não me fere...

— Então por que você se defende?

— Porque sou humana...

— Humana? Já é um sinal de cura dos seus delírios narcísicos de transformação do mundo. Você não tem a importância que se arroga, nessa máquina de moer dignidades e de fabricar miseráveis, essa droga alucinógena que chamamos de política, a forma mais perfeita que se inventou de iludir seres humanos.

— Lá vem você com o seu discurso de tolo manipulado! Você vive assim, em permanente negação do futuro de mudança, porque se vendeu aos poderosos, deixando-se levar pelo ódio à política, sem perceber que a simples recusa à participação política, esse alheamento à alteridade, já é uma forma de ação política, a mais alienada e cruel de todas, porque se faz lavando as mãos.

— Não é justo dizer que eu não acredito, apenas, na política, na sociedade ou nas estruturas de poder que nós, humanos, concebemos para lidar com a maldade atávica do gênero Homo e domar as suas feras, nem sempre adormecidas. A minha paranoia é bem mais grave e profunda: eu não acredito é no Homo sapiens! O resto é consequência dessa incredulidade inicial. Esquerda, direita e centro são apenas rótulos que os seres humanos criaram para alimentar a ilusão de que o ser humano tem jeito.

— Diante disso, prefiro deixá-lo falando sozinho! Eu ainda acredito na humanidade, ao contrário de você, que caminhou da espontaneidade revolucionária da juventude para a indiferença metafísica, quase estoica, de um ser desumanizado, que fala do outro sem sentimentos ou emoção. A sua passividade resignada serve aos desígnios da mídia manipuladora e serviçal, que o transformou em escravo a ser explorado pelo senhor da Casa Grande.

— Desate, pois, o nó da esperança: a sua revolta metafísica é

“. . . é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanhá-la.” (CAMUS, Albert. O mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo. Exilado dos Livros. s/d. p. 35).

— E você se aprisionou na senzala, louco de inveja porque não consegue habitar a Casa Grande.

— E a sua própria senzala? Você já se deu conta de que estamos aprisionados ao tronco, sendo açoitados com a mesma chibata? Ou você tem a ilusão de ser livre?

— Eu, pelo menos, ainda tento quebrar os grilhões que me aprisionam ao rochedo da Cítia... Você, como Prometeu, vocifera contra tudo e contra todos, mas não faz absolutamente nada. Esse vórtice caótico em que você nos coloca, ao considerar todos os seres humanos como irremediavelmente perdidos e abomináveis, só interessa a quem está com o pescoço acima do furacão. E essa pessoa não sou eu. Alienados, como você se tornou, só colaboram para a manutenção dos privilégios da classe dominante.

— Diante dos seres humanos e suas máscaras ideológicas, que caem e são trocadas a cada cena dessa Ópera Bufa chamada política, eu tenho a honra de ser alienado. A minha descrença é universal, incluindo toda e qualquer ideologia concebida por humanos, até mesmo a que defende a desconstrução das estruturas de poder. Não estou de lado algum nesse mundo civilizado. Não acredito na esquerda e, ainda menos, na direita. Conservar o quê? se nada do que está aí serve a outro desígnio que o da exploração do homem pelo homem? Mas, então, é preciso desconstruir tudo que existe? Mas nós vamos romper com o status quo, fazer a tal revolução, desconstruir tudo que existe, para criar outro monstro igual, com pessoas diferentes, tão enraizadas na certeza narcísica da infalibilidade, quanto as que apeamos do poder? Os do centro, os que temem desagradar a gregos e troianos, eu os considero hipócritas e aproveitadores, seres insidiosos que vagam ao sabor das ondas que trazem a fortuna. Conheço alguns Partidos, inclusive o do atual Presidente, que habitam o poder há mais de três décadas... Eles se aproveitam de um lado e de outro, mordendo e assoprando as feridas narcísicas de conservadores e progressistas, no desígnio mesquinho de se manterem à sombra dos carvalhos mais frondosos. Nos últimos tempos, eu defendo a extinção em massa do Homo sapiens! Um asteroide ou um cometa já serviriam aos meus propósitos... Os dinossauros dominaram a Terra durante 135 milhões de anos e, mesmo assim, acabaram extintos. O Homo sapiens caminha neste Planeta há menos de 200 mil anos... Ainda há esperança, portanto... Não existem os “criacionistas”? Pois e me tornei um “extincionista” — se você me permite o neologismo.

Antes que me pergunte, eu não acredito em Deus nem no Diabo e, muito menos, no outro, incluindo você, aluna da PUC. Não tenho religiões nem partidos, não sigo tendências, modas nem pessoas; aliás, não confio nem na minha sombra, que costuma mudar de lado, quando eu menos espero. Ela sempre foge do sol...

Para falar a verdade, eu acho que só confio na minha neurose, mesmo assim, esperando, com fervor, que ela, algum dia, se torne a psicose incurável que me permitirá falar sozinho pelas calçadas desse mundo hipócrita, sem dar a mínima para os humanos civilizados que, dos bares da Cidade, falam sobre a miséria alienada em que eu vivo. Quando, entre copos de chope e uísque com Red Bull, eles disserem conhecer o meu mundo, quando falarem em solidariedade e luta por direitos civis e sociais, quando desfiarem o rosário de bondades das suas vidas de engajamento fingido, nem um sorriso de agradecimento haverão de receber do meu rosto impassível. Para regozijo dos que fazem propaganda pessoal com a miséria alheia, pacificando a própria consciência e expiando as culpas atávicas do Homo sapiens com um discurso de hipocrisia social, o meu semblante já estará crispado pelos sulcos da fome e da apatia. Nessa hora, nada me importará, nem o olhar de comiseração com os pobres que você encena no Facebook. Permitirei até uma selfie ao meu lado, para que os seus amigos virtuais, fingindo admiração, invejem o ser humano “bondoso” que você se tornou.

No subsolo fétido da minha psique, destilo o mal-estar que a civilização me impõe na forma de renúncias pulsionais e desejos enclausurados. Não me convidem para nada que inclua seres humanos... É verdade — confesso —, sou um homem doente, como o personagem de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski.

Estou consciente da minha negatividade diante da existência, desse niilismo que corrói as entranhas do meu ser decadente:

“Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa.
(...)
...não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência é uma doença. Insisto nisso.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Memórias do subsolo. Tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman — São Paulo: Ed. 34, 2000. p. 18).

Assim fala o narrador-personagem, nas suas “Memórias do Subsolo”, uma densa jornada em direção a si mesmo, a introspecção de um depressivo em seu mergulho existencial, um anti-herói, confessadamente sem caráter, que contempla no espelho os traços mais negativos da sua personalidade.

Creio-me bem parecido com o personagem de Dostoiévski e, a cada dia, mais próximo da loucura. Talvez eu tenha me tornado masoquista, alguém que passa a gilete nos pulsos emocionais. Descobri que a verdade talvez não seja tão sublime quanto os meus sonhos de infância.

A minha existência pode até enfadá-lo, causar-lhe alguma irritação ou antipatia, mas — asseguro-lhe — não preciso da sua aprovação para as veredas tortuosas que resolvi seguir. Sou um homem doente! — Já o disse em outros textos, e continuarei a dizê-lo. Se essa afirmação o assusta, poupe-se de ler o que escrevo, e experimente ceder ao desejo irresistível de fazer outra coisa, quem sabe ler algum texto idílico que o ajude a ver o mundo cor de rosa. As redes sociais estão cheias de pessoas bem intencionadas... Escolha uma delas, porque as minhas intenções são completamente obscuras e nefastas...

Tanto maior é a consciência que adquiro sobre o meu papel secundário nesse mundo de homens de razão e saber — o mundo perfeito e idílico dos bem-aventurados —, tanto maior é o prazer que sinto em ser um ponto fora da curva. Sou apenas um ser ignóbil que se afoga no lodo da sua própria ignomínia!

Com passos largos e resolutos, caminho para a inconsciência do belo e do sublime. Dizia Immanuel Kant que a experiência de prazer — que o belo evoca — não está nas coisas, mas no olhar do sujeito e na sua própria imaginação. Seria, portanto, um processo de subjetivação.

Com o meu olhar niilista, é natural que as experiências de prazer acabem sendo encobertas por uma névoa espessa e amarga, que embaça o colorido das coisas. Tornei-me demasiado consciente da maldade que fervilha nas camadas mais profundas do meu ser, e já não me sinto capaz de experimentar o prazer com o belo, de acreditar na beleza que subjaz nos abismos mais profundos da humanidade. Tudo hipocrisia...

Creio que alcancei o estágio de consciência em que o homem se nutre da sua própria iniquidade e degradação! Só consigo ver o caos, e isso o assusta. Começo a imaginar que as extinções em massa — que ocorrem de tempos em tempos no Planetinha azul — são a forma suprema da seleção natural, o meio perfeito para que o Planeta sobreviva. Do caos nascem as estrelas e renascem os planetas. Extinguem-se os homens, sobrevive o habitat, para que outras espécies surjam das cinzas. Já deu para o Homo sapiens!...

Enquanto isso não acontece, eu fico de longe, contemplando a festa dos ratos que se imaginam gatos, dos moralistas que destilam hipocrisia, dos sábios que arrotam certezas absolutas num mundo de relatividades. Esquerda, Centro e direita, nesse mundo de subalternidades, podem ser apenas espécies diferentes de ratos.

Como diz a inscrição no Portal do Inferno, de Dante Alighieri:

“Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate” (“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”). (ALIGHIERI, Dante. Commedia. Mondadori, Milano, 1966-7. Inferno, Canto III, Verso 9).

Com os meus textos de autodesconstrução, eu desejo destilar veneno, cultivar o feio, refestelar-me com os seres sombrios, flertar com o anti-herói e dançar nas convenções dessa sociedade apodrecida e hipócrita.

O que não causa dor não vale ser escrito! Para cantar o belo e o sublime, leiam os sábios da bem-aventurança, cultivem os cancioneiros da ilusão e da autoajuda. Eles só escrevem as palavras que você deseja ler. Eu sou apenas o idiota da esquina! Só assim, livre das suas expectativas e alheio à sua “curtida”, eu posso escrever o que os homens bons se recusam a dizer. E por que toda essa fúria? Simplesmente porque “sou um homem doente... Um homem mau... Um homem desagradável...” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 18).

Agora, depois de tantas desventuras, encanecido na realidade, já não me importo em parecer nobre e bem-aventurado. Sou o que sou — pobre e miserável, sem esperanças ou ilusões —, e não preciso da aceitação de ninguém! Não me importo com a desaprovação dos amigos e falsos amigos, nem com olhares de desprezo.

Como o personagem de “Memórias do Subsolo”, de Dostoiévski,

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora vou vivendo os meus dias em meu canto, incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso — que para nada serve — de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem.” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor Mikhailovitch. Op. cit. p. 17).

Sou o idiota que me tornei nos últimos dois anos, um ser humano bem distante do “sábio” que me considerei um dia! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o que você pensa a meu respeito. O que você pensa de mim é problema seu! Se já me é cansativo saber o que penso de você, ainda mais inútil e penoso seria perder o meu tempo de vida — mais curto do que os meus sonhos — tentando entender o que você pensa de mim.

Quer mesmo a verdade? Sou apenas um rato. Não me pejo nem me orgulho do que sou! Apenas sou... ou me tornei um rato...

Na lama fétida do meu subsolo, zombeteiro de mim mesmo, esgueirando-me pelas fendas da autoindulgência, envenenado por desejos insatisfeitos, que ainda percorrem as minhas entranhas, acabei prisioneiro desse mundo de dúvidas e inquietações, sobrevivendo — recluso, mas resiliente — nessa lama fétida que vocês chamam de sociedade. Se eu prefiro a sociedade atual ou a alternativa? Dá no mesmo! Tudo é apenas uma questão perspectiva: quem está em cima e quem está embaixo do tacão...

Nesse consciente enterrar-me vivo, acumulei culpas e arrependimentos, que arrasto no meu subsolo, como correntes imaginárias, peçonhas que envenenam as decisões que tomei no tempo perdido, quando ainda imaginava, iludido, que sentimentos e emoções podem existir para sempre. Nada é para sempre, nem os meus desenganos!

Hoje, refazendo os caminhos que me levaram ao subsolo, começo a perceber que sobrevivi, apesar de tudo. Aprendi a viver como os ratos, esgueirando-me nos esconderijos do subsolo, entre as fendas do mundo idílico das redes sociais, para sorrir diante de um simples queijo embolorado.

Muitas vezes — mais do que você imagina —, apenas um fio separa o insano dos personagens limítrofes, aqueles que caminham no precipício, bordejando a aparente sanidade e escorregando os pés no abismo da loucura.

Qualquer centelha pode acender o combustível de destruição que se represou além da barragem da dor e do sofrimento. Basta um leve roçar dos afetos, uma palavra mal colocada, um silêncio eloquente, para nascer um louco, alguém que se afasta do real, para se consumir no fogo da insanidade, flertando com o abismo. Um simples olhar meio gauche, daqueles atravessados, mesmo sem segundas intenções, pode excitar a pulsão de morte e destruição em quem caminha a passos trôpegos na beira do abismo. Qualquer centelha pode acender a chama da agressividade até nos seres mais dóceis.

Quando a realidade começa a apagar os rastros de água límpida, perdemos a esperança de encontrar o caminho do oásis. Nessa hora, a mais leve brisa dispara uma tempestade de areia. E sofrem — ainda mais do que nós — os pobres viajantes do deserto, que nada têm com as nossas brisas.

Andei semeando ventos no deserto. Protejam seus olhos!

Nesse mundo de pessoas bem intencionadas, só lamento que a conta acabe nas mãos do diabo! Seres humanos, apodrecidos por dentro e perfumados por fora, sempre jogando a culpa no capeta, um ser que criamos para carregar as nossas próprias culpas...

Pobre diabo!... Ainda bem que você só existe no imaginário do Homo sapiens, mais uma espécie do gênero Homo fadada à extinção sem glória, como o Erectus, o Habilis, o neanderthalensis e tantos outros, que só deixaram ossos e pegadas fossilizadas... Saudades? Não deixaram nem lembrança!

Maldito Homo sapiens! Nenhum outro animal tem o diabo a seu serviço, para carregar as suas maldades... Por isso, eu confesso novamente: não tenho qualquer intenção de resolver o problema do miserável na esquina. Aliás, posso até me tornar um deles, sem receio de comer restos numa lata de lixo. Estou caminhando para esse instante de epifania...

Mas será mesmo desumano ser uma feliz aluna da PUC — ou um miserável alienado como eu —, enquanto outros sofrem ao nosso redor?

A indagação, meramente retórica, que me proponho responder é bem mais complexa do que se poderia supor num exame apressado:

De fato, devemos nos envergonhar da felicidade, quando outros seres humanos sofrem próximos de nós? Ou ser feliz é uma escolha necessariamente narcísica, que abstrai os que sofrem nas esquinas da vida?

É disso que trata o livro “A Peste”, de Albert Camus, uma das melhores obras de todos os tempos, clássico atemporal e de várias leituras, sábio nos pretextos e rico no intertexto, leitura indispensável a qualquer ser humano minimamente consciente da sua posição na escala evolutiva.

Camus nos fala de homens comuns, que se encontram com a morte, que a veem sentar-se à mesa ou à cabeceira dos que lhes eram queridos, homens que a sentem de perto, caminhando ao seu lado, mas tentam, ainda assim, preservar os seus últimos traços de humanidade.

Para se sentirem vivos, eles tentam preservar antigas rotinas, frivolidades do convívio social, velhos hábitos e costumes que os fazem alhear-se à morte, como se ela fosse algo distante, que toca outras vidas, e não as suas. Diante da peste, aquele mundo de aparências revela-se surreal e ilusório, um mundo em que a alienação os torna insensíveis ao sofrimento alheio. Bem parecido com o nosso, aliás...

Neste contexto, são primorosas as visitas ao Teatro, que encena a mesma Peça todas as semanas, mas, ainda assim, mantém-se lotado, pelas mesmas pessoas, até que os atores, pouco a pouco, vão morrendo; os passeios e encontros nos bares e cafés; tudo, enfim, que nos mostra esse universo paralelo, em que se tenta negar a dor e o sofrimento, simplesmente ignorando a morte... até que ela visite um parente próximo.

Sitiados na pequena Oran, na peste de 1947, esses homens desejam resgatar o humano que foram um dia, rever cenas que possam trazer à memória a experiência da interação olho no olho, mesmo quando o medo de se aproximar do outro, pelo risco de se contaminar com a peste, sugere o isolamento.

É o homem que enfrenta os esqueletos do armário, que se confronta com os seus medos e pulsões autodestrutivas, na tentativa, talvez ilusória, de se manter minimamente humano.

Você teria vergonha de ser feliz sozinho, sem remorsos, mesmo sabendo que tanta gente sofre nesse exato instante?

Antes de responder, não se esqueça de algo importante: quem compartilha as desgraças alheias pode não ter tempo de ser feliz e ainda corre o risco de alimentar, com o gesto piedoso, a autocomiseração do outro.

Tão difícil quanto iluminar o inconsciente, para responder com as verdades reprimidas, é escapar dos julgamentos morais e aceitar que esse ser egoísta, que vejo no espelho d’água, sou eu mesmo.

Certo estava Nietzsche, quando disse que

“As grandes épocas de nossa vida ocorrem quando sentimos a coragem de rebatizar o mal que em nós existe como o melhor de nós mesmos.” (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do bem e do mal ou prelúdio de uma filosofia do futuro. Tradução de Márcio Pugliesi. Curitiba, Hemus Livraria, Distribuidora e Editora. 2001. Quarta Parte: aforismos e interlúdios. n. 116. p. 84).

O mal que existe em você é que o livra do tédio. Por isso, não se envergonhe da sua felicidade, mesmo que esteja cercado de desgraças, como a morte inevitável que nos aguarda.

Você tem medo de morrer? Parabéns! Isso é comum entre os seres vivos... Chama-se instinto de sobrevivência. Até seu cachorro tem...

Quer um conselho bem egoísta, mas sincero? Não sinta vergonha por estar vivo e, menos ainda, por ser feliz, mesmo depois que os seus parentes e amigos se forem. Se você morresse antes, eles provavelmente fariam o mesmo e seriam bem felizes sem você... Acredite em mim!

Enquanto houver desejo, haverá vida!

Como disse Blanche du Bois a Harold 'Mitch' Mitchell, amigo de Stanley Kowalski, ao ver, do lado de fora da janela, a mulher mexicana, vendedora de flores, na Peça “O Bonde chamado Desejo”, de Tenessee Williams:

“O oposto da morte é o desejo.” (Cena IX).

A felicidade, além de fugaz, como uma estrela cadente, pode ser muito injusta — miserável com quem mais precisa e pródiga com quem nada fez por merecê-la. Ela nunca alcança a todos com a mesma intensidade. Não se envergonhe, se você for o único a escapar provisoriamente do seu beijo doce e benfazejo. Só na morte somos iguais, o resto é ilusão. Aceite, que é mais fácil, ou morra negando a verdade!

Vida que te quero vida, insensatez é que o que te faz assim, misteriosa, caótica e sem sentido, muitas vezes injusta e sempre fugidia: quando nos apaixonamos por ti, tu te escondes no mais recôndito infinito. A paz, muitas vezes, só a encontramos no túmulo, quando ela já não é mais útil.

O problema é que o processo civilizatório, o mesmo que domou a bestialidade humana, converteu a insensatez do homo sapiens em sentimento de culpa, e este, quando não é represado nas camadas mais profundas do aparelho psíquico — permanecendo fora da consciência, como sintoma —, é expresso na forma de mal estar. Somos castrados e infelizes por natureza (ou condicionamento evolutivo) e, quando estamos genuinamente felizes, experimentamos esse estranho mal estar com a infelicidade alheia.

Freud até explica, mas só uma extinção em massa resolve...

Seja como for, porém, não se iluda com o seu próprio papel nas engrenagens do universo! Você é uma pequena gota d’água apodrecida no oceano cósmico: De fato, somos todos descartáveis. E a mais dolorosa das feridas narcísicas do ser humano, verdadeira epifania existencial, é descobrir que podemos ser descartados sem que o mundo deixe de ser como tem sido: uma guerra de egos incontidos, que se fantasiam de candura e bondade, na expectativa de serem incluídos na festa da bem-aventurança.

Lenta, mas inexoravelmente, porém, vamos deslizando para os presságios funestos que descortinávamos no horizonte. O que, antes, era apenas pessimismo, uma infausta possibilidade dentre muitas alternativas venturosas, vai se tornando, enfim, a realidade.

Depois de se concretizarem as nossas profecias mais agourentas — as que buscávamos realizar, mesmo de forma inconsciente —, surge a maior das epifanias: percebemos, entre atônitos e decepcionados, que, no autoabandono bem sucedido, o dilaceramento do ego se aprofunda com a percepção de que somos descartáveis. Quanto menor a solidariedade alheia ao nosso fracasso, tanto maior será a dor que experimentamos.

Na real, sem afagos na sua sensibilidade autopiedosa, eu sou obrigado a dizer ninguém se importa com o seu destino, nem com o meu. — Apresso-me em dizer, antes que você imagine que alimento tal ilusão.

As coisas raramente mudam, não porque a mudança seja impossível, mas porque os homens tendem a eternizar os acertos e sucessos, mesmo os mais efêmeros, e a repetir os erros e desvarios, mesmo os mais perniciosos, chamando tudo isso de destino. Na verdade, a exploração do homem pelo homem é um traço narcísico que nos acompanha desde que o primeiro dos hominídeos pisou sobre a Terra. É genético e atávico no gênero Homo...

Lembro-me do que disse Sêneca, numa das Cartas que escreveu a Lucílio, seu amigo fictício:

“O que quer que isso seja, depois de mim, será o que foi antes.” (Aprendendo a Viver. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008. p. 48).

Desça do salto, garota da PUC! Você não é o miserável da esquina, nem sabe como ele vive; só o olha de longe, fugindo, como o diabo da cruz, da ideia de se tornar como ele. O excluído é só uma bandeira política na sua vidinha fútil e abastada, uma solidariedade hipócrita que a faz amável entre os amigos.

Por que ser cortante e realista, falando que o miserável só me importa de verdade se eu for um deles, quando posso ser candidamente falso, expondo as minhas asinhas de anjo, e não o meu tridente de diabo?

Ainda mais irônico do que inventar a revolução — a fantasia que você criou para lidar com a bestialidade humana — é não saber o que fazer com ela.

O sombrio Leviatã de Hobbes — o “homem lobo do próprio homem” ("Homo homini lupus"), a “guerra de todos contra todos” (Bellum omnium contra omnes”) está em nossas escolas, mascarado no individualismo, na superação do outro, no sucesso pessoal e na competição sem sentido. Entre vencedores frustrados — eternamente insatisfeitos com as suas vitórias — e derrotados ressentidos — eternamente infelizes com o fracasso —, nós perdemos a humanidade. Nada de cooperar, ser igual, mas de superar, ser melhor! Solidariedade, só no câncer! — O Otto Lara Resende falava dos mineiros, mas serve para todos nós, seres humanos.

Antes de viver, abandone toda a esperança: nada que você fizer de revolucionário ou reacionário; nenhuma ação ou omissão sua, por melhores que sejam as suas intenções, mudará o que tem sido até aqui.

O homem continuará sendo essa criatura abominável e pequena, que criou o Diabo para terceirizar a culpa atávica que carrega  pelo seu desejo ardente de levar vantagem em tudo. A suprema lei do universo é a do Gérson... Ainda bem que inventamos Deus, para nos perdoar de tudo com uma simples penitência, essa, sim, a sacada mais revolucionária do Homo sapiens. Criamos a noção de pecado, somos, nós próprios, os pecadores, forjamos o Diabo para apontar o dedo e — numa epifania final — inventamos um Deus para nos redimir...

I'm giving a shit for you and your mercy.

Por que eu falei na língua de Shakespeare? Porque esse foi o jeito mais chique que encontrei para mandar uma hipócrita intelectualoide à merda. Antes de se tornar a teórica da miséria, a voz dos pobres no mundo virtual, renuncie aos seus próprios privilégios. Falar sobre os miseráveis e indigentes com um copo de chope nas mãos é fácil; o difícil é resistir à tentação de dizer que sabe como é a vida deles.

Eu realmente não tenho a menor ideia...

— Mas quem é você, para falar assim comigo?

— Eu sou a sombra que habita o seu próprio inconsciente, o ser maligno interior que você costuma chamar de diabo.

Por isso, garotinha da PUC, menos hipocrisia, por favor! Você é bem menos do que imagina. Depois que morrer, será rapidamente esquecida pelos nobres e pelos miseráveis, e a humanidade continuará usando muitas palavras, para ocultar a única verdade: o homem é — e continuará sendo, até a sua extinção — o lobo do próprio homem.


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.