domingo, 22 de julho de 2018

O desejo de ser desejado como fonte de angústia


O desejo de ser desejado como fonte de angústia

“A fonte de todos os desejos do ser humano é o desejo de ser desejado sempre.” — Disse Jacques Lacan. “Eu me desejo desejante, e me desejo desejante desejado —, completa o psicanalista francês no Seminário sobre o desejo e sua interpretação, realizado entre 1958 e 1959 (LACAN, Jacques. O Seminário: o desejo e sua interpretação. Publicação não comercial para circulação interna da Associarão Psicanalítica de Porto Alegre. p. 442).

Esse desejo de ser desejado, seguramente a cena de um drama narcísico, relaciona-se com o meu processo de autoconstrução como sujeito e, portanto, com a imagem que eu tenho de mim mesmo, que desejo seja desejada sempre.

Ao me fazer refém da aceitação do outro, da validação alheia para quem eu devo me tornar a fim de ser desejado, o desejo de ser desejado traz em seu rastro, como sintoma, uma forte sensação de angústia.

Permito, nessa reflexão especular e inconsciente, que o outro defina quem eu devo me tornar e, ao mesmo tempo, dê significado à minha própria existência. Assim, e somente assim, eu me sinto desejado pela alteridade, aceito, enfim, pelo mundo, não como sou em realidade (um ser que não existe como sujeito, senão como expectativa), mas sob a forma idealizada com a qual esse mesmo mundo me define, molda e homogeneíza. Virar suco é a condição inarredável que ele me impõe, para me acolher em sua teia pegajosa e traiçoeira, antes de me devorar como gado humano.

Volto, então, a Lacan, desta feita para invocar um parágrafo dos seus “Escritos”, mais precisamente do Relatório do Congresso de Roma, Realizado no Istituto di Psicologia della Universita di Roma, em 26 e 27 de setembro de 1953, intitulado “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”:

“Numa palavra, em parte alguma evidencia-se mais claramente que o desejo do homem encontra seu sentido no desejo do outro, não tanto porque o outro detenha as chaves do objeto desejado, mas porque seu primeiro objeto é ser reconhecido pelo outro.” (LACAN, Jacques. Escritos. Tradução Vera Ribeiro. — Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 269). 

Nessa era de relações líquidas, que escorrem pelos ralos do tempo, eu preciso da validação dos “amigos” virtuais para as minhas “selfies’ e realizações profissionais, mesmo para as mais prosaicas e vulgares, não, propriamente, porque eu seja, apenas, um ser desejante (alguém que deseja realizar tais feitos, para satisfazer a vontade de ter o que tenho e ser o que sou), senão também e, sobretudo, para ser desejado (para que os outros confirmem quem eu sou e o que eu conquistei, tecendo loas bajulatórias aos meus feitos ou, comumente, à minha beleza aparente, força e capacidade intelectual). Não me tornei o sujeito que se construiu dessa forma, com essas e aquelas virtudes e conquistas, apenas, porque sou um ser desejante, mas porque “me desejo desejante desejado”. — Como advertiu Lacan.

Como todo desejo humano, o desejo de ser desejado cria angústia, que é a sensação, vaga e incessante, de que me falta algo ou, mais precisamente, de que perdi e, portanto, não detenho o objeto dos meus desejos. Enquanto ser desejante, eu desejo ser desejado pela posse ou conquista desse objeto perdido, vago e incerto. Todavia, quanto mais desejado eu sou, por deter, ainda que temporária e ilusoriamente, tal objeto, mais desejo eu tenho de ser desejado. Angústia, então, é a busca incessante de um “objeto perdido”, algo em que eu invisto a minha energia pulsional, mas que está sempre um passo adiante de mim.

Poucos, na verdade, tomam consciência do objeto desejado, permanecendo nessa busca por algo que não é identificado como tal. Reside, em grande medida, nessa inconsciência do que se busca a dor[JAF1]  aflitiva causada pela angústia.

Sobreviver sem esse objeto inalcançável, incerto e perdido é a única forma de lidar com a angústia? Ou, por outro lado, podemos encontrar o gozo na própria busca, sabendo-o, de antemão, inatingível e ilusório?

Como nunca encontro esse “objeto perdido” — na verdade inexistente —, eu desloco a busca de um amor para outro, de um emprego para outro, de um objetivo acadêmico para o outro, de um bem de consumo para outro e assim por diante...

Eu desloco e concentro, continua e indefinidamente, a minha energia psíquica em um novo objeto, perdendo a dimensão do gozo, enredando-me num eterno retorno da frustração dos meus desejos e, por isso mesmo, da angústia. Estou sempre no porvir, na fantasia a realizar no futuro, no automóvel mais caro do que o meu, no restaurante mais badalado, na viagem ao lugar mais exclusivo do que os que já visitei.

Angustiado com o presente, eu preciso deslocar o desejo e, consequentemente, a angústia para um novo objeto de investimento psíquico, escravizando-me à falta desse item perdido que, nas minhas ilusões de completude e felicidade plena, eterna e paradisíaca, tornaria perfeita a minha vida.

Como eu não sei qual é esse objeto perdido, não me permito encontrar o barato e o gozo pulsional na própria busca. Posiciono-me sempre um passo atrás da felicidade, que desloco para o objeto um objeto futuro que, provavelmente, não existe ou, se existe, nunca encontrarei. Mesmo que o encontrasse, aliás, eu suspeito que não me proporcionaria o gozo pulsional desejado nas minhas ilusões idílicas de prazer sem dor, de alegria sem tristeza, amor sem desamor, satisfação sem angústia.

Não se iluda com os seus amigos virtuais e suas postagens maravilhosamente idealizadas! Eles estão apenas simulando uma vida de felicidade plena. Ela não existe, a não ser no campo dos desejos irrealizáveis ou, na melhor das hipóteses, na muleta emocional da salvação redentora, a maior das ilusões humanas! O tal “objeto perdido”, fonte da nossa angústia, não existe. Amigo leitor, sinto muito ser eu a lhe contar esse “segredo de polichinelo”: só os mortos não se angustiam!

Se o parceiro — objeto dos seus investimentos afetivos — não lhe causa angustia, por menor que seja, eu aposto todas as minhas fichas que você não o ama. Quem não desperta a minha angústia,, amigo leitor, acorda a minha indiferença, o oposto do amor, a morte do afeto.

Para os angustiados, como eu, em especial para os depressivos e dilacerados, seres humanos eternamente insatisfeitos que sempre desistem de tudo e nunca encontram o gozo nos objetos de investimentos psíquicos que conquistam (amores, bens materiais, empregos, etc.), o único jeito de garantir que se realize, plenamente, o futuro desejado, evitando, assim, o fracasso involuntário — sempre possível, diante de tantas variáveis caóticas e incontroláveis —, é fazer uma grande merda, a cada novo projeto que se inicia, para garantir que se vai falhar uma vez mais, e de forma voluntária, exatamente como se desejava desde o início.

Sem embargo da angústia, densa e sempiterna, que me consome a vontade de sonhar, eu ainda me vejo contemplativo, “apertando os olhos”, tocando, ao de leve e embalde, a esperança, em busca dos antigos sonhos que deixei pelo caminho, velhas quimeras de um tempo, estranhamente feliz, em que eu sonhava acordado.

Como disse Machado de Assis, pela voz do narrador, Bentinho, apelidado Dom Casmurro,

“Um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho truncado na noite moça.“ (Capítulo LXIV).

Jorge Araken Filho, apenas um ser humano banal e sem papas na língua...



Será mesmo que Capitu traiu Bentinho?


Será mesmo que Capitu traiu Bentinho?

A pergunta não é essa — creio eu —, mas bem outra: será você, amigo leitor, capaz de se despir das suas próprias vivências afetivas, em especial das traumáticas, para ver a ardilosa mulher de Bentinho com os olhos da “realidade”, conforme a retrata Machado de Assis em Dom Casmurro?

Mais do que isso, será que existe mesmo uma realidade objetiva? fenômenos experiências ou objetos que não sejam transformados pelos filtros de subjetivação de cada observador?, tornando-se, assim, o espelho em que Narciso vê, refletida na alteridade, a sua própria imagem, imaginando ser outro sujeito?

Talvez a Capitu que você filtra da obra de Machado não seja a de Bentinho, mas a sua Capitu pessoal e intransferível, uma ferida narcísica no seu próprio ego, ainda aberta e não cicatrizada, um personagem do seu passado afetivo que o traiu, se você se apressar em apontar os dedos para a mulher de Bentinho... ou que você deseja que não tenha traído, se você responder com um “não!” enfático — dir-se-ia defensivo — à indagação do título...

Ao responder sobre a maior aporia da literatura brasileira, esteja certo de que a traição que você atribui a Capitu é a que teve Bentinho como vítima, e não a que você projeta nas mulheres da sua própria vida.

Eu, por mim, traído que já fui, não coloco as mãos no fogo pelos “olhos de ressaca” de Capitu, o olhar emblemático de “cigana oblíqua e dissimulada” que enfeitiçou Bentinho e o lançou, como Otelo, no fogo do ciúme.

E, contudo, devo confessar, das memórias que guardo dos afetos perdidos — algumas doces e benfazejas, outras amargas e traumáticas, muitas fantasiosas e ilusórias —, as mais intensas, as que deixaram marcas mais profundas na “alma” foram as que me deixaram dúvidas, como a traição... ou não... das “Capitus” que cruzaram os tortuosos caminhos das minhas emoções. Aquele angustiante talvez, ao cutucar memórias adormecidas, dói mais do que a certeza que as conforta.

Quando não sabemos a resposta à indagação sobre quem somos ou, ainda mais notadamente, quando não toleramos a resposta que toca, mesmo ao de leve, a realidade, nós criamos uma certeza confortável, para o bem ou para o mal, sádica ou masoquista, de imunidade diante da perfídia ou de autoimolação como traído, um lenitivo, enfim, para a dúvida que rompe a calmaria do nosso porto existencial. Antes náufrago numa ilha deserta, mas pleno de verdades que me imunizam, ilusoriamente, e me reconfortam com autoengano diante das maldades do mundo, do que navegador em mares desconhecidos. É mais fácil, pois, dizer que traiu...

Olhe para dentro de si mesmo e indague quem foi a sua própria Capitu. Esteja certo da resposta, antes de tratar a esposa de Bentinho como o seu monstro projetivo, como o bode expiatório da maledicência que ronda a sua mente oprimida pelo pecado ou, mais frequentemente, pela autopiedade. Traidor ou traído, tente não se projetar sobre a Capitu de Bentinho. De minha parte, confesso-me incapaz de tal heroísmo e, para falar verdade, não tenho qualquer veleidade de o ser um dia...

Afirmo-o, pois, com sabor de catarse e depuração da mente: Capitu traiu Bentinho!... não, talvez, a de Machado, mas a minha Capitu existencial... essa me traiu, ao menos nas memórias que guardei no coração. Realidade ou ilusão? Fato ou fantasia? Quem sabe?... Essa é só a realidade segundo o meu olhar contingente e falível. A miopia do meu ego ­— incurável e recorrente —  impede-me de enxergar além das certezas que cultivei nas minhas andanças pelo mundo dos afetos.

Mulheres de olhar “oblíquo e dissimulado” — como a Capitu, segundo a descrição do agregado José Dias —, eu as tive à mão cheia. Mas será mesmo que as tive? Será que a obliquidade e dissimulação não estavam nos meus olhos embaçados pela autopiedade? Por outro lado, como posso saber, se as memórias afetivas não se embaçaram com o tempo? Ou se a primeira Capitu, sendo a que me alcançou mais imaturo, não contaminou o meu olhar sobre as demais, fazendo-me ver chifres na minha cabeça de cavalo? Ou será que eu era mesmo — e invariavelmente! — boi?... com chifre e tudo?

Bentinho, apesar do desejo masoquista que tinha de haver sido traído e de ter certeza disso, nunca teve outro amor, além de Capitu, mesmo convencido da perfídia da sua amada. Ele mesmo o confessa, com uma pergunta, no último Capítulo:

“Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? (Capítulo CXLVIII).

A resposta, ele mesmo a deu:

 Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimulada.” (Capítulo CXLVIII).

Bentinho teve uma só Capitu; eu tive muitas... não todas, porém! Algumas, talvez...

Mas se as Capitus da minha existência foram assim, dissimuladas e oblíquas, como a de Machado, por que diabos eu não as esqueci tão-só, especialmente a primeira em que percebi tal olhar? Ou, modificando os termos da indagação, por que eu vi essa Capitu primitiva, dissolvida em outras as mulheres que cruzaram os meus caminhos, depois da primeira que me aprisionou o coração?

Ao contrário de Bentinho, eu acho que os “olhos de ressaca” das minhas Capitus — “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” — não estavam nelas, propriamente, mas no olhar sombrio que eu lhes lançava, contaminado pelo ciúme. Via-as, quase sempre, com os olhos da minha carência afetiva, com as vestes do meu ciúme, com as dissimulações que eu próprio, sem autoestima para ser justo comigo mesmo e com elas, projetava ao vê-las. Não o fazia, decerto, por razões que elas próprias criassem, por atitudes suspeitas ou por olhares dissimulados que elas pudessem lançar sobre os amantes desse mundo, mas por duvidar que tivesse, eu próprio, os atributos necessários para manter acesa, na escuridão das noites mal dormidas, a chama do desejo e da paixão que elas tiveram por mim um dia.

Só lamento, agora, depurado pela maturidade, que as minhas ideias sobre novas Capitus não tenham braços, como não os tinham as de Bentinho, quando tentou, em vão, o segundo beijo da sua vida.

O que menos importa, no amor de perdição e perfídia, são os gestos, grandes ou pequenos, que compõem o mosaico da verdade. A dúvida e a suspeita doem mais do que a certeza da traição. Elas nascem como pequenos bacilos, devoram a autoestima e minam a confiança no parceiro. Se Capitu, de fato, não traiu Bentinho, tanto pior para ela; melhor seria que houvesse... Levar a culpa é sempre mais aceitável, quando se é realmente culpado. Amigo leitor, acredite no que digo: expiar uma culpa qualquer, sem o gozo correspondente, é o pior dos destinos a que se pode condenar um ser humano. Se me couber, como destino, a suspeita de haver traído, que me seja concedido, na alcova da amante, o deleite correspondente ao pecado de que me acusam.

Seja qual for a intenção de Machado, porém, reconforta-me a ideia de que Capitu — ao menos a minha Capitu! — traiu Bentinho. Mas será que Bentinho sou eu?...

Deito fora o meu orgulho de macho e confesso, entre resignado e triste: de todas as traições desse mundo, as que desejamos perdoar são sempre as mais dolorosas; estas nos acompanham até o derradeiro suspiro...

Como Bentinho, peço-te que “não me censures”, amigo leitor; “não se navegam corações como os outros mares deste mundo.”

Aos que juram que Capitu traiu Bentinho, eu lembro, por oportuna, a citação bíblica de Machado de Assis, retirada do Eclesiástico e invocada pelo narrador, no penúltimo parágrafo do último capitulo:

“Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. I: ‘Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti’.”

Ao cuidares traição o que, em verdade, é a tua própria casmurrice, tenhas cuidado, amigo leitor, para não excitares a tua amada a se deleitar nos braços de um galanteador astuto, um dom Juan bem-dotado que lhe ofereça prazer, ao invés de acusações e palavras adocicadas no mel da lubricidade. Quem muito acusa de traição acaba merecendo os adornos que vem a receber na testa, não porque a perfídia fosse real ou, ao menos, desejada, mas para que a denúncia, injusta e caluniosa, seja acompanhada do respectivo gozo.

Se a acusas de havê-lo traído —  à tua Capitu, vale dizer —, mesmo sendo ela inocente, como a Desdêmona de Otelo, que ela te traia logo de uma vez e — seguindo o roteiro de fantasia que, com a tinta da desconfiança, escreveste — comece a ter com o amante o prazer que já não tem contigo, um homem atormentado pelo ciúme, que ao amor responde com insinuações de perfídia. Antes prevaricar com algum proveito do que ser acusado, falsamente, sem prazer algum! — Dir-te-ia o sedutor e ardiloso Iago, o maior dos vilões da literatura em todos os tempos.

Jorge Araken Filho, apenas um bisturi afiado, espremendo as suas próprias feridas narcísicas.




terça-feira, 17 de julho de 2018

Amor narcísico, o amor da angústia e da incompletude


Amor narcísico, o amor da angústia e da incompletude

Angústia, poder-se-ia definir, usando uma metáfora bíblica, é a busca do nostálgico e utópico paraíso perdido, o reino celeste, angelical e perfeito do qual decaímos depois do pecado original. Desde então, segundo o mito religioso da criação, narrado no Gênesis, nós procuramos esse lugar perdido, esse objeto ao qual, numa catexia angustiante, dirigimos todos os nossos investimentos psíquicos, de maneira especial as fantasias, pulsões e desejos. A impossibilidade ou limitação do real, tão contingente quanto os humanos, transforma em sintoma, na forma de angústia, a perseguição aflitiva e excruciante a esse objeto perdido e nunca encontrado.

Como o paraíso perdido é, apenas, uma ilusão de onipotência narcísica, tão irreal e inalcançável quanto a felicidade plena e sem dor, nada do que fazemos, para o bem ou para o mal, consegue gratificar o desejo e a pulsão de encontrar esse objeto perdido. Sendo ilusório, ele está — e sempre estará — um passo adiante de nós, renascendo, como angústia, a cada passo que damos na sua direção, e ressignificando, como insatisfação, os desejos já eventualmente gratificados. Uma nova utopia substitui a anterior, toda vez que nos aproximamos, tropegamente, do nosso objeto perdido, um lugar pessoal e intransferível que só existe no campo dos nossos próprios desejos.

Mas o que isso tem a ver com amor narcísico? Tem tudo a ver! Por enquanto, apenas confie em mim. Retomemos, pois, o fio da meada, para encontrar significantes e significados comuns — a mim e a você ­—, enfim, uma linguagem universal que traduza os sentimentos de que estamos falando.

Amor narcísico, numa abordagem simplista, é o que nasce da dependência emocional em relação à alteridade, da escravidão afetiva aos desejos e caprichos do parceiro, um sentimento angustiante que me faz depender do outro e seus referenciais, para me sentir vivo.

Alieno-me de mim mesmo e só me reconheço e me identifico como sujeito na medida em que me enlaço com esse outro, um ser humano idealizado que, ao menos ilusoriamente, me completa e define. Eu preciso desse outro, eu me alimento da sua energia vital e, malgrado a impossibilidade e o desatino dessa empreitada amorosa entre seres que só existem na fantasia, eu tento me tornar, com ele, duas pessoas em um só corpo. Como um bebê em relação à sua mãe, eu absorvo do parceiro o leite da completude, os pedaços que me faltam para me construir como sujeito. Nem assim, contudo, eu me torno um ser humano inteiro.

Mas por que seria narcísico esse amor idealizado, esse enlaçamento afetivo em que me busco no outro, já que não existiria, neste caso, a imposição do meu próprio ego em detrimento do parceiro, a tentativa de encobrir a vontade do outro com os meus desejos e pulsões? Será mesmo verdade?

A resposta é mais simples do que se poderia imaginar num exame apressado e superficial: na relação de amor narcísico, ao contrário do que aparenta à primeira vista, o outro não me importa, mas apenas eu mesmo e a minha própria felicidade, se necessário em sacrifício dele. Esse tipo de relação afetiva, necessariamente devocional e, ao mesmo tempo, vampiresca, só traz angústia, pois eu só existo no outro, ou seja, fora de mim; só o sangue dele abranda, temporariamente, a minha sede. Eu busco no parceiro, e não em mim mesmo, a minha identidade como sujeito, mas nunca realizo o desejo ilusório da completude. A busca pelo meu objeto afetivo perdido — o paraíso dos sentimentos e emoções que personifico como a criatura seráfica e perfeita em que descarregarei o amor represado no peito, um ser idealizado e inexistente entre humanos — está na raiz da minha angústia. Eis a metáfora do paraíso perdido...

De fato, toda angústia nasce de uma perda, normalmente de algo que não existe ou que não está definido. Como o Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, os objetos que eu persigo e contra os quais duelo são moinhos de vento. Jamais os vencerei, apesar da luta insana e sem fim a que me dedico. Essa angústia me faz buscar um objeto perdido e incerto, impossível de ser alcançado, o parceiro ideal, que, aflitivamente, será sempre o próximo. Mesmo quando, eventualmente, eu o alcanço, não raro fazendo sacrifícios pulsionais ainda mais aflitivos e penosos, a minha angústia infinda desloca-o para outro objeto, também perdido. Nunca estou plenamente satisfeito. Os desejos que não realizei, normalmente incertos e difusos, acabam contaminados pela angústia, transformando em desprazer os instantes de gozo pelos objetos, outrora perdidos, que vou encontrando na caminhada existencial. Inicia-se um círculo vicioso com breves momentos de prazer e longos e angustiantes dias de insatisfação.

Ainda pior do que desistir dessa busca angustiante pelo objeto perdido, contudo, é deixar de se indignar com o fato de haver desistido, é conformar-se com o abismo existencial. Quando se chega a tal ponto de indiferença em relação ao destino, o homem se dissolve em suas próprias memórias, e o abismo o devora. Desse ponto em diante da sua existência, todo dia vivido se torna um suplício, toda conquista, uma droga para aliviar a insuportável dor de existir. Nada o satisfaz plenamente!

A vida humana, inevitavelmente centrada na angústia, é medida pelo que poderia ser, e não pelo que de fato é. O ritmo da existência é percebido como devir, e não como tempo presente; percebe-se nas águas que correrão um dia, e não nas que correm agora, neste recorte do espaço tempo; persegue-se a felicidade em algo que faremos no porvir, e nunca na cotidiana realidade do tempo atual; na pessoa que nos tornaremos no futuro, e raramente no ser humano que somos agora. Esse desejo infinito e torturante de se tornar-se algo diferente, muitas vezes ilusório, acaba sendo a prisão sem grades em que sepultamos a felicidade que poderíamos viver no agora, se não nos prendêssemos à dimensão do tempo a ser vivido.

É cruel e irônica a percepção do tempo vivido: quanto maior o prazer que experimentamos, mais rápido ele passa; quanto maior é o martírio da existência, quanto mais profundo é o poço em que nos precipitamos, mais ele se arrasta. O que é bom dura pouco; só o que machuca persiste... e insiste...

No entanto, ele passa sempre da mesma forma, na sua cadência própria, feita de horas, minutos e segundos, indiferente aos nossos lamentos e desenganos, alegrias e sorrisos. Um minuto tem sessenta segundos, uma hora, sessenta minutos, um dia, vinte e quatro horas... Bem simples, não?! Mas a física não explica a dimensão dos afetos, não transita pelas emoções e sentimentos, que alteram, para mais ou para menos, a percepção que temos desse fluir do tempo.

Toda relação afetiva inicia-se como um enlaçamento narcísico, pois, nesta fase, que pode ter a duração do próprio romance, só revelamos ao outro o nosso lado iluminado, deixando no oblívio as neuroses, angústias e podridões que nos acompanham. Malgrado a nossa fantasia de identificação com divindade, o lado diabólico, que negamos em nós próprios, pleno de sombras e obscuridades, constitui parte indissociável do que somos e nos tornamos. Essa é a fase da paixão e do encantamento, necessariamente narcísica e ilusória. Nessa etapa, negamos as nossas sombras e idealizamos a luz que desejamos ter. Do outro, só aceitamos o que é espelho.

Contraditoriamente, porém, tentamos lamber o espelho, para tirar do outro o sal da vida, a completude ilusória que perseguimos como se fosse um objeto perdido, e não uma quimera. Vemos o outro como espelho do que somos, identificamo-nos com a visão que temos desse outro. Contudo, filtramos a imagem que ele nos devolve com as lentes da nossa percepção narcísica, extraindo dele o que desejamos para nós próprios.

A centralidade do nosso próprio ego contamina o olhar que lançamos sobre a alteridade, compelindo-nos a perseguir, como ideal, um ser humano completo e doador de pedaços psíquicos que não existe no mundo real, justa e precisamente o objeto perdido dos nossos afetos, o anjo do nosso paraíso perdido. O outro só nos bastará por algum tempo, quase sempre enquanto as nossas ilusões egóicas filtrarem a sua personalidade real, devolvendo-nos o que desejamos ver. Logo será substituído por outro doador de completude, até que a imagem perfeita e idealizada desse outro, por sua vez, também se desfaça no éter da realidade. A imagem da perfeição, que vemos na alteridade, é apenas o reflexo de como nos vemos narcisicamente. No espelho de Narciso, só é belo o que nele se reflete.

Como vencer, mesmo temporariamente, essa sede insaciável pelo objeto perdido? Essa vontade vampiresca de beber, todos os dias, um sangue novo nunca antes bebido? Um amor perfeito nunca antes vivido?

Novamente, a resposta é mais simples do que aparenta: quando confiamos ao outro e, dessa forma, descarregamos nele as nossas neuroses e angústias, e o outro, em contrapartida, nos oferece uma escuta, mesmo silenciosa, nasce o amor, que será recíproco, se o outro fizer o mesmo movimento em sentido contrário.

A paixão transforma-se em amor correspondido, quando os parceiros, renunciando à alienação narcísica inicial, ao olhar egoísta sobre o próprio umbigo, colocam as suas angústias um no outro e são escutados, mesmo em silêncio. O que o outro deseja, na maior parte das vezes, é apenas ser escutado. Permita que ele coloque em você a angústia que lhe transborda do peito, ainda que, da sua parte, você nada possa fazer para aplacá-la. Coloque nele, também, as suas próprias angústias, descarregue, com palavras, o que lhe dói no peito, depure-se num processo de catarse, conte-lhe os seus tormentos, dúvidas, aflições e agonias, mesmo que ele não possa oferecer lenitivo.

A angústia relaciona-se, instrumentalmente, com o desejo, sendo tanto mais forte e avassaladora quanto mais ilusório e inalcançável for o objeto perdido. E, contudo, nunca deixamos de persegui-lo, sendo a busca menos angustiante, quando fazemos dela própria, e não do encontro, o motivo do gozo existencial.

Falei sobre assuntos que não domino, fiz gala da minha própria ignorância — diria o Marquês de Maricá —, tergiversei sobre o amor narcísico, mas permanece, incólume e obscura, uma indagação ou, mais apropriadamente, uma curiosidade: quem seria o objeto perdido, em se tratando dos meus afetos?

Alguém que me lembre quem eu sou, quando eu me esquecer; alguém que me conte os meus sonhos, quando eu os houver adiado; alguém que me liberte de mim mesmo, quando eu me fizer cativo da desesperança; alguém que me ilumine, quando eu caminhar na escuridão; alguém que respire por mim, quando eu sufocar no silêncio; alguém que se torne uma pergunta dirigida ao mundo, e que não se acomode com a resposta que o mundo oferecer; alguém que seja o seu próprio enigma, e não o reflexo do meu Narciso. Eu não a procurarei, apesar do desejo; eu não farei qualquer movimento na direção dessa mulher ideal. Ela que abafe, com palavras que me encantem, o não amor que eu grito com o meu silêncio!

Utopia? Ilusão? Apenas amor narcísico?

Se fosse fácil, não teria valor. Eu só preciso saber que o paraíso perdido não existe e o objeto que persigo é ilusório. No máximo, ele me estimula a caminhar, sem perder o ânimo, mas não me torna escravo de um desejo que pode, a pouco e pouco, me incendiar. A nostalgia bíblica do paraíso perdido, essa busca por algo que não existe, está na raiz de toda a nossa angústia. E não pense que é possível extinguir a angústia, apenas abolindo o desejo e sublimando a sensação atávica de perda do objeto desejado: a ausência de desejo, assim como a incapacidade de desejar são fontes, elas próprias, de intensa, perturbadora e inquietante angústia.

O amor narcísico, em sua definição mais singela, é o amor da incompletude e da angústia. Inevitável entre humanos, quase sempre doloroso, raramente assintomático, pleno de memórias recorrentes, assim ruins como boas, umas torturantes, outras reconfortantes, ele é indelével em suas cicatrizes emocionais, porém necessário e insubstituível no longo e difícil processo para a construção do sujeito.

Apaixonar-se pelo impossível é sintoma clássico de angústia e, não raro, de neurose obsessiva; manter-se nos limites do possível é, portanto, o melhor que podemos fazer para lidar com o objeto perdido. Por isso, amigo leitor, nunca persiga um objeto impossível de ser alcançado, nem entre numa batalha que não possa ser vencida! Isso vale para o amor e, de resto, para tudo na vida.

Como disse Charles Baudelaire,

“Esta vida é um hospital em que cada doente é dominado pelo desejo de mudar de leito.”. (Pequenos poemas em prosa: o Spleen de Paris —. Rio de Janeiro: Athena Editora, 1937. n. XLVIII)

Angústia é esse mudar interminável de leito, essa busca insana pela cama do hospital em que, embalde, irei morrer. Mas confesso que ainda estou vivo, perseguindo instantes fugazes, nesse mundo de coisas findas. Por quanto tempo? Pouco, talvez... e com muita sorte...

Jorge Araken Filho, apenas a voz, abafada e distante, do inconsciente coletivo.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Homem romântico e sem pegada leva chifre!...


Homem romântico e sem pegada leva chifre!...

Conto levemente obsceno escrito por Jorge Araken Filho

(A cena desenrola-se num grande Supermercado da Cidade. Rodolfo faz compras com a esposa, Mônica, quando aparece Tavares, seu amigo de infância, com algumas caixinhas de cerveja no carrinho. Eles caminham juntos, enquanto Mônica, sem escutar o diálogo, percorre, um a um, os corredores da loja. Depois de alguns minutos de conversa sobre a Copa do Mundo, surge uma linda jovem de cabelos castanhos, corpo escultural e olhos levemente esverdeados.):

— Tavares, você é devagar demais! A gata tá te dando mole, porra. Eu só não pego, porque a Mônica tá aqui.

— Cuidado com a Mônica, Rodolfo! Se ela escutar esse papo, você vai apanhar.

— Apanhar é o caralho, Tavares! Se a Mônica bater na minha cara, eu cubro de porrada. Homem que apanha de mulher não é homem. Aprende isso de uma vez! Nunca deixe que as mulheres o dominem! Mulher tem que saber o lugar dela, e quem ensina é o homem. Até as éguas são domesticáveis...

(Mônica aproxima-se do marido e de Tavares.):

— Han, han... É a Mônica! — Diz Tavares, sussurrando.

— Psiu, porra nenhuma, Tavares! Mulher não me domina. Se ela gostar do que eu falo, ótimo! Se não gostar, foda-se!

  Mônica, você está vendo aquela gata na fila do caixa?

— A de “shortinho” vermelho e “top”? Ela está quase nua.

— Essa mesma!

— O que tem ela?

— Há vinte minutos que ela tá dando mole pro Tavares...

— E?...

— E ele fica com essa cara de babaca! Eu falei para ele chegar junto e sair pegando na bunda. Novinha desse jeito só quer rola.

— Mas eu falei com ela! — Intervém Tavares.

— É... falou um monte de merda, deu dois beijinhos no rosto e segurou as mãos da vagaba. Eu pensei que vocês iam dançar uma valsa no meio do supermercado.

— Mas, Rodolfo, ela deve ter uns dezesseis anos! — Interfere Mônica.

— Eu conheço essa safada, Mônica! É a Regininha boqueteira. Essa piranha faz boquete até no banheiro do colégio; faz grupal com dupla penetração, dá o cu e a porra toda. Boqueteira, boqueteira! Chupa e engole sem fazer careta.

— Como é que você sabe de tudo isso, Rodolfo? — Indaga Mônica, com as mãos nos quadris.

— Por quê? Tá desconfiando de mim? Deu mole eu como mesmo, Mônica! Você sabe disso. Foi assim com você. Lembra do Cornélio, seu ex-marido? Eu a conheci na casa dele, no dia do seu aniversário. Cheguei junto sem mimimi e já fui puxando pela cintura. Não se faça de santa comigo! Quando eu vi essa sua boquinha de chupa-rola, percebi que o Cornélio não dava conta. Cara sem pegada, com aquela boca mole, de velho babão. Antes que você engolisse o meu pau com os olhos (Rodolfo segura o pênis, orgulhoso.), eu a puxei pelas mãos até a área de serviço do apartamento daquele corno. Não fiquei de conversinha mole, como o Tavares. A mão esquerda foi logo nesses peitões de “Panicat”; a direita cravou com força na sua bundinha deliciosa. Aí já era... foi só levantar o vestido e passar o dedo na sua xoxotinha carnuda. A boceta escorria leite e as beiradinhas batiam palmas para o garanhão aqui. Você pediu rola na hora! Lembra? Homem tem que ser assim... Mulher não gosta de homem banana, como o Tavares. Cara mole, que fica de mimimi e não chega junto, pega chifre. Quando a mulher dá mole, o homem tem que comer logo! Se não der mole, ele deve fazer como as onças: acuar até morder o pescoço. Você foi fácil demais, Mônica! Não precisei nem acuar. Eu pulei logo em cima e caí matando.

— Ei, pessoal, eu estou aqui, escutando a intimidade de vocês. Dá pra mudar de assunto? — Diz Tavares, corando as faces.

— Pois é, Mônica, essa Regininha é vagaba! Só tem quinze anos, mas fode mais do que preá. Ela é uma singularidade da física: tem quinze de idade e trinta de rola. Ela curvou o espaço-tempo só pra levar pica em dobro. Kkkkkkk.... E o que melhor: não cobra nada pra foder. O lance da Regininha não é grana, é rola mesmo. Ela dá de graça e vai até de bicicleta pro motel. Isso é que me deixa puto!

— Você fica puto com o que mesmo, Rodolfo? Você não tem nada a ver com as periguetes do Tavares! — Intervém Mônica, visivelmente constrangida.

— Porra, eu ajudo o Tavares, dou todas as dicas, ensino o caminho da xoxotinha pelada da gata... Aí, pahhh!... Ele dá beijinho no rosto e chama pra dançar. Puta que o pariu, Tavares! Eu nem te conheço.

“Xoxotinha pelada?” Tá bem informado, hein, Rodolfo? — Diz Mônica, com um sorriso sarcástico.

— Nessa idade? Você queria que ela deixasse a pentelhada formando pasto? Queridinha, hoje em dia, aos quinze anos, todas depilam! Até a minha avó depila a porra da xereca.

— Mas e aí, Tavares? Marcou para sair com a Regininha? — Pergunta Mônica, tentando calar a boca do marido, que falava alto, chamando a atenção dos clientes.

— Não sou tão idiota quanto o Rodolfo pensa. Eu peguei o “WhatsApp” dela. Mais tarde eu a convidarei para jantar.

— Caralho, eu não acredito! Vai tomar no cu, Tavares! Você pretende convidar essa vagabunda pra jantar? A Regininha boqueteira só merece rola, meu irmão! Tem que levar direto pro Motel. Coma primeiro o cuzinho, depois dê um banho de língua e meta muita rola na bocetinha pelada dessa puta. Antes da foda, passe na farmácia e compre “Cialis”. Tome logo dois, meu “brother”! Ela vai querer muita rola, e não sei se você vai dar conta. Você sabe, toda novinha é assim... chupa, engole, depois pula em cima da pica e ainda faz o 360. Se o pau amolecer antes da terceira, esqueça. A sua borracha fraca irá viralizar nos grupos de “Whatsapp”. Eu conheço novinha safada, meu amigo! Já comi muitas, começando pela Mônica. Não é, meu amor?

— Eu prefiro ficar calada, Rodolfo.

— Você está enganado, Rodolfo! A Regininha não é nada disso. Ela não é garota de programa. Eu prefiro ir devagar, comendo pelas beiradas. Eu sou romântico, cara. Gosto de convidar para jantar, depois, quem sabe, um cineminha com chocolates da Cacau Show.

— Tavares, seu babaca, você sabe o que vai acontecer depois do cineminha romântico?

— Eu a deixarei em casa, e ela irá dormir como um anjo... pensando em mim...

— Não, seu corno babaca! Ela vai sair do teu carro e ligar para um macho com as mãos atrevidas e indelicadas, um desses que mete a mão no meio das pernas da gata, um cara bruto e de pegada forte, como eu, que enfia o dedo no cu da vadia e ainda cheira. Ela vai suplicar por um pau grande e grosso na boceta! Se esse cara for homem de verdade, não irá dispensar uma xoxotinha de dezesseis anos, depiladinha e rosada. Melhor ainda, sendo você o otário do cineminha, ele não precisará se preocupar com o jantar da gata. Partiu, motel! Nessa hora, com muita sorte, você estará batendo punheta em casa. Eu cansei, Mônica! Coloque alguma coisa na cabeça desse corno.

— Eu não sei de nada, Rodolfo! Tô só escutando...

— Cara mole e romântico, que fica de mimimi e não come logo, leva chifre, Tavares! E não adianta só trepar; tem que deixar a mulher com as pernas bambas. Conte pro Tavares como é que eu te pego, Mônica! Modéstia à parte, eu comecei a foder com treze anos e fiquei ainda melhor com o tempo. Já comi muita gata como a Regininha. Mulher não gosta de homem mole. Tem que ter pegada, senão leva chifre! Você tem que chegar com a mão forte, de macho, metendo o dedo na boceta e apertando a bunda. Depois, é só colocar o dedo na boca e chupar, pra sentir se ela tá no cio. Elas caem de quatro por homem bruto, com pau grande e duro. A receita pra amarrar quenga é foder gostoso, Tavares! Amor de pica onde bate fica. Que o diga a Mônica... Tá comigo até hoje.... Se eu fosse borracha fraca, como você, ela não teria me dado mole. Se tivesse dado, teria metido chifre na minha cabeça e ainda teria me trocado por outro. A Mônica não me deixa, porque gosta da minha rola, Tavares! Não é mesmo, meu amor? — Diz Rodolfo, enquanto dá um sonoro tapa na bunda de Mônica.

(Tão forte foi o tapa na bunda bem torneada de Mônica, que duas senhoras se assustaram na fila do caixa.):

— Não sei de nada, Tavares! — Responde Mônica, embaraçada.

(Eles caminham na direção do estacionamento; Rodolfo, alguns metros à frente, e Tavares, ao lado de Mônica.):

— Tavares, que porra é essa de Regininha? Você falou mesmo com aquela periguete? — Indaga Mônica.

— Falei, mas foi só para despistar o Rodolfo.

— Acho bom mesmo, porque eu sou ciumenta! Você sabe disso.

— Você sente ciúme de amante? Você não presta, Mônica!

— Aprendi com você, seu sonso. Tipos assim, que comem quietos, são os piores... Borracha fraca? O Rodolfo não sabe de nada. Idiota e retardado... O meu sonho é enfiar o teu pauzão todinho no cu do Rodolfo. Ele diz que homem que é homem não chora... Ele ia sentir a tua borracha fraca saindo pela boca... kkkkkk...

— Que nada, o monstrinho é pequeno e fino...

— Monstrinho... sei... Monstrão... Dá quase para dar a volta e enfiar no teu próprio cu. Aliás, essa uma boa ideia. Qualquer dia, eu vou fazer essa experiência. Kkkkkk... Essa carinha lisa não me engana. Quem não te conhece, que te compre!

— Coitadinho de mim! Eu sou borracha fraca...

— Sei... eu conheço essa “borracha”... se ela for fraca, como você anuncia, a do Rodolfo é o que mesmo?... Tavares, não mude de assunto! Eu falei sério sobre essa quenga do supermercado: sou muito ciumenta. Afaste-se dessa periguete!

— Mônica, meu amor, não tenha ciúme do seu amante.

— Eu não tenho ciúme é do meu marido, mas se aquela franga der pro meu amante, eu escaldo em água fervendo e depeno!

— Mônica, seja razoável! Eu preciso disfarçar com o Rodolfo, cair no papo de machão que ele conta, fingir que estou seguindo a “receita” dele e comendo a Regininha! Você sabe que o Rodolfo pega ar com um elogio à masculinidade dele.

— Eu conheço aquele bobalhão...

— Tirando aquela babaquice de macho retardado — tudo bravata —, ele é um bom marido: dá tudo que você deseja e ainda banca as nossas saidinhas. Sem falar do nosso pé-de-meia...

— Você é cruel, Tavares! Que amigo sonso o Rodolfo arranjou... Ainda bem que ele é seu amigo de infância.

— Mônica, sendo um bom marido, o Rodolfo não merece saber que é corno. O Rodolfo teria um infarto fulminante. Imagine, se ele nos visse transando em cima da mesa da cozinha, exatamente no lugar onde almoça... Ele nem sonha que eu como o seu cuzinho... Você ainda sacaneia o cara e nunca libera a rosquinha... Você é safada demais, até para mim!

— Tavares, seu filho da puta, você gozou na escova de dentes do Rodolfo! Quem faria isso nesse mundo, senão você? Se ele ao menos sonhasse com isso, nós perderíamos a grana do meu marido machão, a única virtude que ele tem. Não se esqueça de que eu e o Rodolfo nos casamos com separação de bens. Estou fazendo o meu pé-de-meia na surdina, mas...

— Pé-de-meia? Você está fazendo uma fábrica de meias... Mas eu tenho pena do Rodolfo. Sinceramente... ele é corno, mas é meu amigo!

­ — Tavares, não seja cínico! Sabe o que mais me diverte?

— Não!

— Quando ele diz que homem que tem pegada não leva chifre! Kkkkkkk... O coitado não faz ideia de quantas pirocadas você já deu nessa égua que ele pensa haver domado... Homem é mesmo um bicho besta e iludido! kkkkkk...

— Ele chega, chegando, como ele mesmo costuma dizer, mas sai, saindo, sem deixar saudade... kkkkkkkk. Imagine se ele soubesse que você nunca gozou com a tal pegada forte dele? Fingir o orgasmo é o maior dos dons femininos, Kate!

— Ele se mataria na hora, se soubesse que não consigo gozar com aquela brutalidade toda! Ele enfia o dedo no meu grelo com fúria, como se fosse o cu da mãe dele. Ele é afoito e indelicado, a língua dele me machuca, a barba arranha os lábios da minha vagina. Tem mulher que gosta, mas eu, não!

— Eu sei do que você gosta...

— E sabe mesmo! Mas você se engana comigo, Tavares. Eu trairia o Rodolfo, com todo prazer, mesmo que gozasse todo dia, só pra mostrar que não sou um objeto nas mãos dele. Machão dominador comigo leva é chifre! Quanto mais ele pensa que me domina, mais eu vou pra cama com você, meu amor.

— Muito justo, minha delícia!

— Você viu como ele me trata? Só faltou me dizer que comeu a Ritinha e ainda me perguntou o que eu achava. Ele nem sonha que, além de babaca e canalha, é corno!

— Você não presta, meu amor!

— Você fala assim, porque não tem que aturar o Rodolfo todo dia. É a treva ter o Rodolfo em cima de você, achando que tem uma pica de ouro e me tratando como brinquedinho sexual.

— Coitadinha!...

— Ai, meu gostoso, essa conversa me deixou umidazinha, do jeito que você gosta.

— Não fale assim comigo, Mônica! O monstrinho tá ficando duro...

— Eu vou acalmar esse danadinho daqui a pouco.

— E o Rodolfo? Como você vai se livrar dele?

— Quando chegar em casa, inventarei uma desculpa pra sair sozinha. Quero a sua pica grande e grossa todinha dentro de mim, meu amor!

— kkkkk... A cerveja, eu já estou levando. O Rodolfo paga o tira-gosto.

— Do que vocês estão rindo? Eu posso saber? — Pergunta Rodolfo, sorridente.

— Estávamos rindo dos homens bestas, como eu, que não têm pegada forte, como você, Rodolfo!...

­ — Uma vez borracha fraca, sempre borracha fraca! Homem sem pegada leva chifre, Tavares!

— Você tem razão, Rodolfo! Quem sou eu para duvidar?

— Eu não me conformo! Coloco a gata na fita pra você, ensino o caminho da bocetinha dela, e você chama pra dançar.... É corno mesmo!

­ — Rodolfo, meu macho gostoso, você tem toda razão: como diz a música que você vive cantando, “quando o mel é bom, a abelha sempre volta...” — Diz Mônica, sorrindo para o marido. Ela se vira para o amante, Tavares, e acrescenta, sussurrando: volta pra pegar o dinheiro do otário e comprar mel no vizinho...

(Mônica e Rodolfo despediram-se de Tavares. Todos sorriram, felizes, naquela tarde de sábado).

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