domingo, 15 de outubro de 2017

Estamos todos condenados!...

Estamos todos condenados!...

O Homo sapiens sapiens e sua capacidade cíclica de retornar às trevas, depois de vislumbrar uma réstia de luz fora da caverna...

Se você se incomoda com a minha descrença num futuro diferente — justo e igualitário, sem intolerância à diversidade, sem guerras imperialistas e religiosas, sem exploração dos barões do capital sobre o trabalhador, sem manipulação da verdade, sem oligarcas mistificadores, sem pobres e miseráveis —, observe, com o mínimo de bom senso e distanciamento crítico, o noticiário nacional e internacional. Escolha, ao acaso, qualquer Editoria dos jornais, mesmo dos propagadores da pós-verdade. Comece pela política internacional, passando dos conflitos econômicos e militares, com viés imperialista, aos nacionalismos xenofóbicos. Se tiver estômago forte, chegue ao supremacismo dos neonazistas e à Indústria armamentista, que lucra bilhões com guerras e genocídios. Se, depois disso, ainda lhe restar alguma coragem e, sobretudo, discernimento, passe à política nacional, uma aliança estratégica entre oligarcas em estado de autopreservação, ruminando lautos banquetes à sombra do Poder Judiciário, que permanece ajoelhado e com os olhos convenientemente vendados à injustiça e cupidez dos homens, especialmente dos caucasoides de origem nobre e bolso cheio, esses que ostentam ternos caros e gravatas italianas. Os pobres e negros, procure-os na periferia da "Aldeia Global", nos grotões da exploração capitalista, nos lixões e sinas de trânsito ou nas penitenciárias e cadeias públicas! As crianças, o elo mais fraco dessa cadeia de excluídos, não as procure nas escolas, que permanecem semanas inteiras sitiadas, enquanto balas traçantes selam o destino dessas gerações de párias da periferia do mundo globalizado. Como Estrelas de Belém da modernidade, esses projéteis anunciam a "boa" nova: Jesus (re)nasceu? Não! Morreu a utopia de que essas crianças sairiam um dia da senzala... No ambiente predatoriamente competitivo da "Aldeia Global", quem não frequenta uma boa escola, de preferência com aulas o ano todo, barriga cheia e bons professores (bem pagos!), não tem qualquer chance de escapar dos grilhões da exclusão social. Balas traçantes são as estrelas da morte, símbolos perfeitos desse mundo de Narcisos encantados com o próprio umbigo. Os lobos são sempre lobos, mesmo quando sorriem, hipocritamente, para as ovelhas, enganando-as com fábulas sobre "mitos" de vovozinha bondosa.

Existe, realmente, um destino pior do que a morte: a servidão! E ela é ainda mais perversa, quando o cordeiro se habitua a cortejar o lobo.

A globalização que diminui as distâncias, com a facilitação dos transportes, comunicações e fluxos de bens de consumo é, também, e paradoxalmente, a mesma que fragmenta os humanos em guetos, isolando-os conforme as suas posses. De um lado, estão os que possuem o tênis da Nike, os que comem nos restaurantes da moda, os que frequentam os e melhores espaços urbanos. De outro, sobrevivem os que caminham descalços e moram nas ruas. Em outra cidadela, vemos os que vivem da aparência, tentando mimetizar o comportamento perdulário e exibicionista dos ricos e poderosos.

Começo a achar que o curral das ovelhas nunca será eliminado, mas, talvez, ampliado até o limite em que se torne possível dominar a revolução dos bichos. As grandes Corporações multinacionais, representantes indignos desse feudalismo industrial e financeiro que nos domina desde a segunda metade do século XIX e se exacerbou nas últimas décadas dos séculos XX e XXI, aumentam o tamanho do curral, mas não abrem a porteira; cedem os anéis, mas não cortam os dedos. O Estado, que deveria mediar o conflito entre os lobos e as ovelhas, agindo proativamente em favor dos mais fracos, é cúmplice dos lobos, sendo os seus agentes políticos financiados pelo capital dos lobisomens do feudalismo industrial e financeiro, os suseranos que desejam manter o sistema da vassalagem moderna, que une as linhas de produção em massa e o hiperconsumo, o trabalho com mais-valia e o anestesiamento emocional através do circo das redes sociais e seus falsos “mitos” e pós-verdades. Milhões de ovelhas anestesiadas pelo discurso conformista da salvação podem ser reprimidas por poucos lobos. Se estiverem divididas entre ovelhas que foram convencidas de que são lobos e ovelhas que sabem que são ovelhas exploradas, tanto melhor... As ovelhas que se veem como lobos, não percebendo que foram cooptadas de forma enganosa, acabam devorando as outras ovelhas do curral.

Essa fragmentação é um dos frutos malditos da globalização e da sociedade do hiperconsumo. Estamos divididos entre os que possuem e os que não possuem as superfluidades que nos tornam seres aceitáveis na sociedade globalizada.

Por que manter um sistema de trabalho escravista, em que os trabalhadores não possuem renda e, portanto não consomem, se o capitalista pode escravizar os trabalhadores remunerados (supostamente livres) pelo consumo de bens que são “vendidos”, pelo marketing das grandes corporações, como imprescindíveis à ascensão social? A irracionalidade do sistema escravista, revisitado pelo neoliberalismo, não transita pelo direito do trabalhador, mas pela visão utilitarista do senhor do capital, que precisa de consumidores ávidos pelos seus produtos. Pela compulsão ao consumo, estimulada nas mensagens subliminares do marketing, a Casa Grande se reapropria da massa salarial dos que vivem na senzala moderna das linhas de produção em série.

A alienação social estimula a o trabalhador a se sentir parte do processo de empoderamento, quando, na verdade, ele é apenas um objeto da engrenagem de produção em massa, um simples instrumento na exploração humana. E toda essa riqueza, de que se beneficiam apenas os senhores do capital, está ligada, por relação de causa e efeito, ao consumo desenfreado, que a alimenta com mais produção em “linhas de montagem”, as “assembly lines”, de Henry Ford.

A vilania da escravidão transformou-se em dependência econômica do trabalhador em relação ao patrão, do consumidor em relação às grandes corporações, que detêm, com exclusividade, as terras e os meios de produção, ditando, através da cooptação política (troca de favores e cargos) e também econômica (financiamento de campanhas eleitorais), o que é certo e errado nas relações entre o capital e o trabalho, bem como as novas tendências da moda e do consumismo.

As mídias vêm a reboque, massificando os valores distorcidos dessa sociedade de consumistas eternamente frustrados por serem socialmente excluídos.

Mesmo sacrificando o essencial, consomem o supérfluo... E o sistema agradece o retorno do capital — via consumo estimulado sub-repticiamente — às mãos de quem detém as terras, os capitais e os meios de produção!... Por mais perversas que se revelem as “linhas de montagem”, por mais que se “doem” os anéis, esse é um sistema perfeitamente concebido para preservar os dedos dos Senhores da Casa Grande, propiciando-lhes a acumulação de riquezas sempre crescentes.

É a fórmula “mágica” da concupiscência: socializam-se os prejuízos com os excluídos da festa da globalização, mas se privatizam os lucros entre os lobos do capital. Excluídos da festa dos protagonistas, acabamos como figurantes da nossa própria história.

Essa é uma era de manipuladores narcisistas, transformados em mitos, um tempo de oligarcas da fé, do capital e da política irmanados na formação de zumbis programados para só dizer sim...

Seres vazios, tempos cavos... Errado, nesse Planeta, é o ser humano! Que venha a próxima extinção em massa! Eu já estou pronto...


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Novos e velhos sonhos...

Novos e velhos sonhos...

Ando meio desiludido com a vida!

Quando li o conselho do grande Steve Jobs, ao invés de renovar a esperança nos antigos sonhos que não realizei, comecei a me fazer uma pergunta:

— Como eu poderei sonhar novos sonhos, se estiver preso aos sonhos antigos? Enfim, eu devo perseguir, obsessivamente, os antigos sonhos ou, se o fardo desses desejos for pesado demais, eu preciso sonhar novos sonhos?

Acho que estou tentando encontrar esperança num futuro diferente dos meus velhos sonhos, pensando que o que ainda poderá ser, se eu sonhar novos sonhos, será muito melhor do que o que poderia ter sido, se eu continuasse preso aos antigos sonhos.

Quem sabe cada sonho que eu deixo para trás, por ser pesado demais para carregar, não é, na verdade, um pedaço do meu futuro que deixa de existir, mas um futuro diferente que se construirá num futuro ainda melhor?

Insistir em antigos caminhos nem sempre significa felicidade. Muitas vezes, só renunciando aos antigos sonhos e desejos, podemos nos permitir novos sonhos, trilhando caminhos improváveis, mas desafiadores.

Quanto mais você deseja ter, mais peso tem para carregar! Como diz um antigo provérbio indiano:

"Os desejos que repousam em seus ombros são como sacos de pedras. Se você não pode passar sem nenhum desejo, esforce-se pelo menos para que eles sejam leves, pois terá que carregá-los.”

E esse fardo tem nome: frustração! O sentimento do desejo insatisfeito — o mais negativo de todos, fonte insaciável de desprazer e de intensa alienação do prazer — gera ressentimento e ódio, reduzindo a minha disponibilidade para o sacrifício pulsional que a civilização me impõe. Então, eu reajo contra a sociedade, preferindo o holocausto do outro ao meu próprio sacrifício. Os meus desejos é que importam. Se alguém se coloca no meu caminho, eu piso!

Prefiro substituir os meus antigos sonhos, quando perceber que a insistência se transformou em obsessão, a persegui-los numa luta insana contra moinhos de vento. Agir como o engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, em seu amor por Dulcinea del Toboso, é até romântico, mas será o caminho menos doloroso?


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

domingo, 8 de outubro de 2017

Quem com intolerância fere, com intolerância será ferido!

Quem com intolerância fere, com intolerância será ferido!

Sou ateu e nunca escondi este fato de ninguém. Na verdade, sempre fui, desde a mais tenra infância, e continuarei sendo até o fim dos meus dias, pouco importa a ferida narcísica que tal revelação possa abrir no seu ego. Em outras palavras, a sua opinião realmente não me importa!

Antes que você comece a pensar bobagens a meu respeito, eu esclareço, de uma vez por todas, que não sou ateu por haver sofrido desilusões na vida, embora as carregue, em profusão, na memória afetiva. Na verdade, eu sempre fui ateu, e este é um dado da realidade, imune, portanto, aos juízos de valor que o seu preconceito possa construir e, também, ao desejo que você tenha de me moldar segundo os seus padrões.

Contudo, ninguém me vê desprezando os que acreditam em Deus ou em Lúcifer. Não é por acaso, aliás, que uso o substantivo "Deus" com "D" maiúsculo, em que pese considerá-lo um mito religioso, o arquétipo do ser onipotente, onipresente e onisciente (Tudo que não conseguimos nos tornar!), um ser acima do bem e do mal, que nos afaga, quando somos submissos, e nos pune, quando nos tornamos indesejáveis. E, contudo, ele assim age para o nosso próprio bem, redimindo-nos, ao final de uma existência frívola, das misérias que cavamos com os nossos pés. Para não carregar o sentimento de culpa, a criatura criou o seu próprio Deus, para se salvar de si mesmo... Apesar disso, eu respeito o sentimento religioso alheio e faço questão de usar a inicial maiúscula: Deus!

Eu não me incomodo com as suas crenças e pensamentos religiosos e recomendo que você também me conceda, com sinais opostos, o mesmo direito que você se arroga ao expressar a sua fé.

Não lhe dou o direito de me diminuir por ser diferente de você, assim como não me considero mais esperto por ser ateu. Respeite a minha descrença, que eu respeito a sua crença! Simples assim...

Não me conte por que razão você acredita em Deus. Isso realmente não me interessa! Fé é algo que se tem ou não se tem. Pelo mesmo motivo, não me pergunte por que eu não acredito no seu Criador. Isso não é da sua conta.

Quem me conhece pessoalmente — ou lê os meus textos — sabe que a minha descrença, quase paranoica, é muito mais profunda do que a simples ausência de religiosidade: eu não confio é no Homo sapiens sapiens, o que inclui você e todos os oligarcas do espírito, da política e do capital.

Não estou à esquerda, no centro nem à direita do espectro político: observando-os do meu poço existencial, eu os vejo como seres egocêntricos em busca dos seus próprios desejos, muitos deles obscuros. Ninguém (nem eu mesmo!) está acima dos seus próprios desejos de autopromoção e empoderamento em sacrifício da alteridade.

Apesar dessa descrença absoluta — eu diria niilista — na espécie humana, eu não ofendo os políticos de lado algum, mesmo não confiando em qualquer um deles... Eu realmente não acredito em “mitos”, nem nas narrativas de caráter fantástico, nem nos idiotas que criam ovelhas normóticas e conformadas.

Todos defendem cegamente os seus “heróis” e “mitos”, que seguem sem contestar ou, ao menos, duvidar. São conduzidos por cães pastores, como as ovelhas de um rebanho. Enxergam-nos com a aura da perfeição divina, a projeção do sagrado em carnes humanas. Os seus “mestres” políticos e religiosos nunca erram! Façam o que fizerem, digam o que disserem, eles sempre estarão protegidos pelo manto divino da certeza e da infalibilidade.

Surgem os “Bolsomitos”, “Lulamitos”, Aéciomitos, “Trumpmitos”, “Putinmitos”, “Kimmitos”, etc., seres tão banais e contingentes quanto nós, mas que, ao carregarem as nossas ilusões de salvação mística, representam as projeções divinizadas do nosso desejo de ser amparado por um herói em seu cavalo branco, o “salvador milagroso e bem intencionado” dessa Terra-mãe tão distraída. Só a arte cumpre a utopia, e “Sassá Mutema” só existe na arte... Não se iluda! Raramente a vida imita a arte; acontece quase sempre o contrário... O “Salvador da Pátria” é uma forma de catarse coletiva, um jeito de realizar, na ficção, o meu desejo de limpeza ética, gratificando, com esse prazer ilusório, a minha necessidade de acreditar num futuro menos sombrio do que o presente.

Os intolerantes ensandecidos precisam defender, com unhas e dentes, os seus “mitos” e heróis, vomitando palavras amargas como a bile pustulenta, postagens de intolerância e ódio, ainda nos casos em que a atitude ou discurso do profeta a quem cultuam não merecesse a mesma clemência, se viesse do inimigo. E tudo isso, apenas, porque os seus “heróis”, a quem divinizam como indefectíveis, não podem ser contrariados. Imagine o que diriam os amigos virtuais, intolerantes da mesma estirpe e, também, seguidores dessa “religião” de “haters”, se os “heróis” em comum fossem afrontados pela suspeita de que eram simplesmente humanos e, portanto, cheios de falhas banais e dotados de certezas absolutas, que se desfazem no éter das relatividades desse universo em expansão? O que eles diriam? No mínimo que o seguidor, uma ovelha outrora fiel, se rendeu aos vendilhões do Templo de Jerusalém. E um repto dessa natureza acabaria com qualquer pretensão de sabedoria obscurantista. Descobrir-se-ia, em meio às ovelhas do obscurantismo extremista, um traidor infiltrado, alguém que ousou desafiar o lobo alfa dessa matilha de famintos por certezas e dogmas. Essa ovelha seria fatalmente segregada e expulsa do Templo. Quem pensa diferente ou se torna diferente do “mestre” deve ser odiado e lançado no mar da inquisição! Simples assim...

Os vanguardistas do atraso, nos tempos idos, pareciam (eu repito: pareciam!) ter uma aparência mais requintada, um envoltório de luz diáfana que os deixava na penumbra, para que a plateia os imaginasse mais perspicazes do que na verdade eram.

Nos tempos modernos, a internet deu voz e palco a quem não tem o que dizer, lançou as suas luzes, ilusoriamente coloridas, sobre esses pigmeus da sabedoria. Agora, iluminados na ribalta, eles se revelam sem glamour, mostrando o que são por baixo da superfície do ego, quando se despem das suas máscaras de cordeiro.

Sem a aparente sanidade de outrora, sem o requinte intelectual que os fazia parecer espertos e glamourosos, os “haters” da modernidade acabaram reduzidos ao obscurantismo dos sectários de ideias que sequer compreendem, mas que, por despreparo intelectual, má fé ou simples preconceito, engolem como pílulas do conhecimento, como aquele “cachorro” faminto que não tem pena da própria goela, ao digerir pedaços de ossos camuflados no meio da carne que lhe serve o seu “dono”.

Nesse processo de desconstrução da alteridade — e a intenção obscura, neste passo, é a de que o outro se resigne às correntes da normose —, os “haters” destilam ódio e repetem velhos discursos que, ao invés de acenderem os caminhos do pensamento próprio, só obscurecem a mente de quem, em meio ao horizonte de eventos desse buraco negro caótico, ainda tenta, embalde, iluminar-se. Cedo ou tarde se descobre que é inútil debater-se contra as certezas insanas dos que cospem regras políticas, dogmas religiosos e padrões de moda, beleza ou conduta, pois a avalanche de intolerância desce a encosta em velocidades relativísticas, indomável aos esforços dos poucos que ainda ousam controlá-la com um cadinho de razão e tolerância à alteridade.

Uma síntese dessa ópera bufa, essa farsa chamada coexistência humana, podemos encontrá-la numa simples indagação: quem pensa diferente de você é sempre burro, idiota, manipulado ou desonesto? Então, eu lamento dizer, na sua cara, que você é um “hater” do mundo virtual! Aliás, eu não lamento; tenho até prazer em dizê-lo... Para aliviá-lo do seu fardo, direi que ninguém está imune de ser obscuro e intolerante em algum momento da vida, nem os “espertos” desse lago de Narcisos, nem um cara banal como eu, cheio de lacunas existenciais a serem preenchidas por fundamentalistas irritados como você.

Quando vejo, na internet, esse festival de ofensas recíprocas, em nome de políticos e religiosos, uma frase me vem à cabeça: quem com intolerância fere, com intolerância será ferido!

 Ao menosprezar quem pensa diferente, você desperta o demônio adormecido em quem foi objeto do seu preconceito. E você acaba inoculado com o mesmo veneno...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Muitas vezes só é preciso dar a mão!

Muitas vezes só é preciso dar a mão!

— E o seu amigo Pablo? Soube que tentou o suicídio.

— É verdade! Primeiro, ele desistiu da profissão e do trabalho; depois, dos amores; em seguida, dos parentes; por fim, dos amigos... Quando se confrontou consigo próprio, percebeu-se doente e desistiu da cura... Quando não restava mais nada para desistir, desistiu da vida...

— E o que você fez?

— Eu? Nada! Quem desiste de si mesmo é fraco! Nesse mundo só os mais fortes prosperam. Os fracos a seleção natural elimina. Não me culpe! Foi Charles Darwin quem disse isso...

— Antes de tudo, abandone a sua resposta fácil! Pense bem antes de se apegar a uma certeza confortável. A sua reação desdenhosa e obstinada a quem desiste pode ser preconceito, a famosa carapuça vestindo o seu ego fragilizado. Na verdade, você é tão fraco quanto o Pablo, mas reage com ferocidade contra o seu amigo que desistiu, porque você mesmo tem medo de fracassar e também acabar desistindo. O nome disso é formação reativa: o seu próprio medo de fracassar, evocando sentimentos e emoções que lhe causam dor, é reprimido e recalcado no inconsciente, sendo projetado em outra pessoa, neste caso específico, no seu amigo Pablo. Essa é uma forma camuflada e distorcida de trazer à tona, como coragem existencial e resiliência, o material inconsciente que se revela como medo de fracassar e desistir, que é trabalhado como formação reativa hostil à pulsão de autoaniquilamento expressada pelo seu amigo que tentou o suicídio. Traduzindo, você mesmo tem medo de fraquejar e, em algum ponto do caminho, desistir... Para camuflar o seu medo de sucumbir, você usa a máscara da coragem, atribuindo ao Pablo o “defeito” da covardia. Tratá-lo como pusilânime é um mecanismo de defesa do seu próprio ego.

— Comigo não tem essa de desistir. Eu aprendi a ser forte!

— A verdade é que cada um carrega a sua cruz imaginária: quem tenta precisa superar a dor do eventual fracasso, que raramente o abandona; quem desiste, a angústia do que teria sido, se ao menos houvesse tentado. Os seres do abismo e das sombras, como o Pablo e tantos outros — sempre arredios à luz — são justamente os que desistiram de vencer e se apegaram à rendição infame, tanto mais desejada, nesse processo de autoimolação, quanto mais cruéis forem os seus termos. Não os julgue, porém; não repita o seu velho e desgastado discurso da bem-aventurança, dizendo-lhes que desistir é a escolha dos fracos e covardes. Quem disse que desistir de si mesmo é fácil? Que diachos, é da própria vida que ele está desistindo... E isso não é fácil!

— Eu tenho um lema nessa vida: desista de quem desistiu de si próprio! Crueldade ou não, eu também tenho os meus tormentos para enfrentar. Não posso curar a depressão de quem não se ajuda! Esse é um peso que jamais carregarei nos ombros. Que a família dele o ampare!

— Foi o que disse Pôncio Pilatos, depois de lavar as mãos... “Sou inocente deste sangue, isso é lá convosco.” (“Innocens ego sum a sanguine iusti huius”) (In: Mateus 27: 24). Muitas vezes só é preciso dar a mão...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O meu maior prazer é ruminar as palavras, e não escrevê-las ou publicá-las!

O meu maior prazer é ruminar as palavras, e não escrevê-las ou publicá-las!

Como Ivan Petrovitch, o narrador-personagem de “Humilhados e Ofendidos” (“Unizhennyye i oskorblonnyye”), uma das grandes obras de Dostoiévski, eu gosto muito mais de meditar sobre os meus textos e fantasias, à medida que me surgem os raros lampejos criativos, do que de escrevê-los ou publicá-los — e não é, decerto, por preguiça nem por fobia tecnológica.

Mas por que será, então, que eu não sinto prazer em escrevê-los ou publicá-los?

Falta de autoestima, talvez... Não consigo aceitar que os meus escritos possam resultar em algum proveito para a humanidade. E o autor é, sempre e necessariamente, o primeiro juiz do que escreve. Sou demasiado rigoroso comigo mesmo! No tribunal das palavras, já me condenei ao exílio no Campo de Asfódelos, no Hades, a triste e modorrenta planície, com paisagens sombrias, para onde, na mitologia grega, eram enviadas as almas que, em vida, não praticaram atos grandiosos, nem, tampouco, tiveram qualidades, méritos ou virtudes além do ordinário, mas que, malgrado a irrelevância das suas vidas, também não cometeram atos de barbárie. Exatamente eu!

Ou, talvez, eu não goste tanto de escrever e publicar, porque simplesmente desisti da vida... Quem conhece de perto a minha realidade nos últimos tempos (poucos!) sabe que isso é verdade, e não hipocrisia sentimental e autopiedosa. Mas esse mal vai muito além das palavras. É um estado de ânimo dos depressivos crônicos, um sintoma de doença, e não um traço de personalidade. A fuga não é uma escolha consciente, enfim, um ato da vontade, uma decisão do ego sobre o qual eu tenha controle, mas uma força inconsciente, ligada à pulsão de morte (Tânatos), uma agressividade incontrolável e avassaladora contra mim mesmo, que nasce no id, o “reino” das sombras, e aflora na superfície do aparelho psíquico. Desistir da vida é, na verdade, encontrar prazer na morte, buscando, na não existência, o fim do desprazer de existir.

Para os que não estão familiarizados com a linguagem freudiana, esclareço que pulsão (Trieb, no alemão) é a energia psíquica inconsciente (e, portanto, imune aos processos de decisão consciente) que direciona o comportamento do indivíduo a um fim qualquer, descarregando-se — essa energia profunda — quando tal fim é alcançado. Reduz-se, assim, a tensão no aparelho psíquico e, consequentemente, o estado de excitação corporal.

Matando a esperança de me tornar escritor, negando-me a mim mesmo o sabor de viver, eu me gratifico com a morte existencial, embora permaneça tateando no limbo da existência física, como os zumbis dos filmes de terror. Complicado demais para você, ser abençoado, que acha que depressão é frescura ou falta de Deus? Esse é um problema seu, e não meu!

Uma das pulsões descritas por Freud é a de morte (Tânatos), que está na raiz de todos os nossos comportamentos autodestrutivos.

Quando imaginamos conhecer os nossos desejos mais profundos, surge aquela resistência incontrolável — o diabinho no ouvido esquerdo — que emerge das sombras do inconsciente, dizendo-nos para dar um passo atrás, desistindo de realizá-los.

Essa força inconsciente, umbilicalmente ligada à pulsão de morte (Tânatos), verdadeira autopunição, recebe o sugestivo nome de autossabotagem! São atitudes dissonantes e autodestrutivas que nos afastam dos nossos desejos conscientes, como se perseguíssemos algo que, nos conteúdos inconscientes, é barrado por essa energia pulsional que nos move na direção contrária.

O grande barato da autossabotagem, essa pulsão que fervilha no id, é que a sua gratificação significa a desconstrução do ego, representando, na verdade, a busca do prazer possível diante de uma realidade que o sujeito desistiu de alterar.

Eu desisto de me construir e, passo a passo, começo a me dilacerar, desconstruindo hoje cada tijolo que acrescentei ontem ao edifício da minha identidade.

Autodestruir-se é a forma mais perfeita de experimentar algum tipo de prazer na desgraça ou, como prefiro dizer, no insondável abismo da existência humana. Na verdade, quando a pulsão da autossabotagem abre caminho para a consciência, driblando as barreiras do ego, o sujeito experimenta o prazer mórbido de dizer — no espelho e, não raro, nas redes sociais — que tinha razão em se considerar fracassado, mesmo que esse prazer masoquista implique na sua própria autodestruição.

Mas a existência humana é essa luta constante entre a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Tânatos), um compromisso entre os desejos que gratifico, mesmo em sacrifício de outrem, e os prazeres a que renuncio para ser socialmente aceito.

Em nome da civilização, eu preciso aceitar o princípio da realidade, tolerando o desprazer e sacrificando, muitas vezes sem qualquer recompensa visível, os meus desejos pulsionais, que devem ser silenciados, reprimidos ou recalcados, para que não causem mal-estar na sociedade pretensamente “civilizada”.

Adiar o meu prazer torna-se, assim, uma condição para o processo civilizatório: é a felicidade individual que troco pelo mínimo de segurança que a vida em sociedades cooperativas me proporciona.

Mas esse sacrifício pulsional, esse adiamento na satisfação dos meus desejos, não raro definitivo, acaba me dirigindo, pessoal e inevitavelmente, o mal-estar que seria direcionado à civilização, se eu os realizasse integralmente, enfim, se eu não assumisse, como sofrimentos personalíssimos, os sacrifícios pulsionais, na ordem dos desejos, que eu preciso fazer para permitir o convívio social minimamente harmônico.

Esse acúmulo de tensão no aparelho psíquico, que se eleva na proporção direta dos sacrifícios pulsionais que acabo fazendo em nome da civilidade, essa fonte de desprazer que acabo criando no inconsciente, necessariamente negativa em sua carga de prazer, na verdade fonte de desprazer intenso, precisa ser descarregada de alguma forma.

Surgem, então, os conflitos humanos, nascidos, muitas vezes, da clivagem maniqueísta entre certo e errado, entre bons e maus, entre pecadores e ungidos com a salvação; brotam as guerras e desavenças, os desencontros entre os desejos de uns e outros. Instala nos seres humanos, ainda como consequência dessa renúncia pulsional civilizatória, um mal-estar geral e disforme, que contamina o tecido social, um eterno descontentamento com a alteridade, uma permanente inquietude com as diferenças, algo do outro que esbarra nas minhas pulsões e desejos ou algo meu que projeto no outro, para gratificar, ao menos parcialmente, as pulsões e desejos a que me proíbo em nome da civilidade. Essa é a origem, inclusive, dos preconceitos e da intolerância, que representam a projeção no outro das zonas de sombra que nego em mim mesmo.

Não estou imune a essas pulsões, nem às que me fazem solapar o prazer alheio, nem às que me fazem sacrificar o meu próprio deleite. Sou bem menos “bonito”, quando observado de perto... E você também!

Quando as tensões se acumulam, quando os sacrifícios pulsionais são levados aos limites do esgarçamento do meu aparelho psíquico, acabo ultrapassando, em alguma medida, a barreira do convívio social, e sacrifico, como efeito colateral, a própria civilização. Essas tensões precisam ser descarregadas de alguma forma, e quase sempre o são em detrimento do outro e ao preço do desprazer que lhe causo, para gratificar os meus próprios desejos pulsionais.

Esse é o mal-estar da civilização, de que falava Sigmund Freud, no volume XXI, de suas Obras Completas, intitulado “O Futuro de uma Ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos”, obra fundamental para se compreender o sofrimento dos homens em nome da vida em sociedade, os sacrifícios pulsionais que precisamos fazer todos os dias, para assegurar o mínimo de segurança e bem-estar de uma vida em cooperação.

Não falo, aqui, que seria possível, mesmo numa ilha isolada, o prazer absoluto... Isso seria, sem dúvida, uma utopia! Experimentar o prazer absoluto — ou seja, a completa ausência de tensão no aparelho psíquico — significaria realizar a pulsão de morte, sendo, pois, tal gozo, incompatível com o próprio conceito de vida. Só na morte o oceano da mente encontra a calmaria absoluta. Sem um grau de tensão, ao menos residual, em nossas mentes, não sobreviveríamos um só segundo nesse plano que chamamos de existência. Seria um tédio viver assim...

O desprazer, que traduzimos como sofrimento, um efeito colateral da própria existência, é que nos mostra que estamos vivos, na medida em que a superação da dor é que resulta em prazer. Só experimentamos o prazer, quando aniquilamos, de forma transitória e precária, o sofrimento, e o vivenciamos, como felicidade, até o desprazer seguinte, que só se transforma em prazer absoluto com a morte, que pacifica, por completo e de forma definitiva, as águas do nosso oceano psíquico.

De fato, o que buscamos a vida inteira não é o prazer, mas evitar o desprazer A satisfação pulsional equivale à felicidade, o que significa dizer,  a contrario sensu, que nos tornamos infelizes, quando somos impedidos, pela sociedade ou pelo superego, de gratificar as nossas pulsões e desejos. Isso gera tensão no aparelho psíquico e, portanto, desprazer, na forma de infelicidade. Evitar esse desprazer torna-se, então, o objetivo da própria existência humana.

Para viver em sociedade, precisamos atuar, na peça da vida, como o ator no Teatro de Máscaras, limitando e disfarçando de candura o nosso ego embrutecido de pulsões e desejos inconscientes, para que ele não desfaça a cola tímida que une a civilização. Os laços entre os homens são muito tênues, os fios demasiado débeis, para que possamos realizar integralmente os nossos desejos. Algum grau de sacrifício pulsional, no campo dos desejos, será sempre necessário, para que não sejamos condenados a viver numa ilha.

O desejo que não encontra seu claustro pode se transformar em tédio, e o gozo que não acaba pode nos incendiar. Como disse Jacques Lacan, no Seminário XVII, “o gozo é aquilo que começa na cosquinha e termina na fogueira”.

Quanto mais você deseja ter, mais peso tem para carregar! Como diz um antigo provérbio indiano:

"Os desejos que repousam em seus ombros são como sacos de pedras. Se você não pode passar sem nenhum desejo, esforce-se pelo menos para que eles sejam leves, pois terá que carregá-los.”

E esse fardo tem nome: frustração! O sentimento do desejo insatisfeito — o mais negativo de todos, fonte insaciável de desprazer e de intensa alienação do prazer — gera ressentimento e ódio, reduzindo a minha disponibilidade para o sacrifício pulsional que a civilização me impõe. Então, eu reajo contra a sociedade, preferindo o holocausto do outro ao meu próprio sacrifício. Os meus desejos é que importam. Quem se colocar no meu caminho eu piso ou aniquilo, física ou emocionalmente. Ao contrário dos “haters” da alteridade, personagens que destilam ódio nas redes sociais e no mundo real, os autossabotadores, para não aniquilarem os outros, acabam cedendo, inconscientemente, à pulsão de autoaniquilamento.

Seja qual for o meio que o meu ego encontra para lidar com essa renúncia pulsional civilizatória, é certo que os meus desejos pulsionais, em nome de um mínimo de harmonia, segurança e paz social, devem ser reprimidos, recalcados, adiados ou desviados da sua finalidade inicial.

Cabe-me, enquanto ser desejante desse convívio em sociedade civilizada e, portanto, destinatário das benesses que essa convivência me proporciona, carregar comigo o mal-estar gerado pelo processo civilizatório, e isso se faz como sofrimento, ou seja, como desprazer ou adiamento do prazer.

Não me peça para dividir o seu fardo! Cada um carrega a sua cruz imaginária, em nome da civilização. Espere a morte, que ela lhe trará o prazer absoluto.

Como Eduardo Galeano,

“Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.” (GALEANO, Eduardo. El libro de los abrazos. Ediciones la Cueva. p. 211. A tradução é minha).

Depois que descobri o inconsciente, seus desejos e pulsões, nem da minha fala eu sou dono. Mesmo quando falo, não comunico o que sou, mas o que desejo projetar no mundo, expressando — entre fantasias e negações, mas sem perceber no plano da consciência — as vozes mudas que acabaram reprimidas e recalcadas na posta-restante do meu inconsciente, uma zona de sombras eternas, que eu me iludo tentando iluminar.

Se eu tenho alguma certeza disso? Para que eu haveria de ter certezas, se você já suporta o peso de tantas? Para gratificar a minha pulsão de morte, eu só preciso dedilhar as minhas feridas narcísicas, e a maior delas é perceber-me um nada diante do universo.

Apenas ruminar as minhas fantasias literárias, enquanto caminho perto do mar, é o meu grande barato: as palavras jorram em torrentes de liberdade, sem compromisso com a minha autoestima nem com o sentimento de culpa que carrego no inconsciente.

Escrever é maçante: o meu ciático reclama, o estômago pede comida e o diabinho do ouvido esquerdo, não se dando por vencido, diz que estou perdendo tempo: — Tudo que possa ser expresso nas suas palavras vãs, até mesmo as confissões mais íntimas, já terá sido narrado por um escritor qualquer, nos tortuosos e infinitos caminhos do espaço-tempo! — Ele costuma dizer.

Sabe que ele está certo? Depois de mim, tudo será como tem sido até aqui, não importa o que eu escreva. Não tenho o dom da inovação, a inventividade dos que mudam paradigmas e criam novos olhares para os mesmos fenômenos. Sou apenas um repetidor crônico de velhos discursos alheios, agora encanecidos pela falta de criatividade. Apenas sei manipular as palavras com razoável proficiência, e isso qualquer pessoa minimamente informada sobre a língua portuguesa pode fazer. Não tenho mestrado nem doutorado e, a essa altura da vida, não passa pelo campo dos meus desejos ter uma carreira universitária. Não pretendo ser melhor do que você! Aliás, assumo-me pior e, assim, eu me livro de mais esse peso existencial. Apenas sei reunir as palavras órfãs de sentido, para lhes dar abrigo nas minhas fantasias. Nada demais!...

Quando chego a escrever algo — e o faço com mais frequência do que o recomendável a um ser humano que nada tem de extraordinário a dizer —, eu só o faço para mostrar ao mundo a minha infinita banalidade. Nos meus escritos, não procure o ponto de vista de Sirius — a estrela mais brilhante do céu noturno — nem os caminhos que você deve trilhar em sua própria existência, a não ser que o meu abismo existencial seja, também, o seu destino.

Enquanto a minha grama estiver verde de sentido, eu continuarei ruminando as palavras, não, decerto, com o olhar inteligente dos bois, mas com a minha parvoíce de escritor que não sabe nada e de pouquíssimas coisas mal desconfia.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Seja romântico, mas não seja ingênuo!

Seja romântico, mas não seja ingênuo!

Quando o romantismo se enlaça com a ingenuidade, e o coração faz o que o amor próprio não poderia condescender sem cicatrizes emocionais, não é só o afeto que você oferece ao outro, mas a sua alma.

Seja romântico, mas não seja ingênuo, transformando-se em tapete para que o outro não suje os pés na decepção! Mostre-se como você é ou se tornou, mesmo que a imagem que projeta no mundo não seja poética e idealizada.

Ser romântico não significa abrir o coração para que outra pessoa o devore; ao contrário, ser romântico é agir com a emoção à flor da pele, sem perder de vista, contudo, que a razão pode até machucar, mas você terá autoestima suficiente para se levantar depois. Um pouco de amor próprio não faz mal a ninguém. Seja romântico consigo próprio, antes de se imolar em benefício da felicidade do outro.

Sabe aquele instante de epifania em que você descobre que foi usado, que era ingenuidade, e não romantismo? Sabe o que isso significa? Que você se iludiu! Abriu mão da realidade em nome do prazer momentâneo, e agora não sabe lidar com a culpa por ter sido tão tolamente bondoso. Sabe o que é ainda pior? Você provavelmente não aprendeu nada! Um papo errado na hora certa, e você estará de joelhos novamente... Isso não é romantismo; é carência afetiva!

Essa é uma ode ao ascetismo monástico?  Medo de reviver as dores do passado? Confissão dos meus fracassos? Pode ser, talvez, a soma dos meus afetos ou o resto da divisão... Prefiro imaginar, porém, que é um acordo entre os princípios do prazer e da realidade, um instante da vida em que gratificar os desejos já não significa abrir mão de mim mesmo e, menos ainda, negar a realidade do outro, para nele projetar as minhas pulsões.

É menos doloroso estar sozinho, mas sem expectativas, do que estar acompanhado de ilusões tolas sobre a outra pessoa.

Enquanto somos amados, basta o silêncio, para sermos compreendidos; quando o amor se esvai, traído pelo tempo e pela monotonia dos gestos repetidos, nem as palavras bastam, para reacender a sua chama. Quando tudo vira rotina, qualquer silêncio é desprezo, qualquer palavra é ultraje. Esse é o tempo em que o amor que se reduz ao ato físico; ama-se por um longo hábito a dois.

Enquanto não surgir essa mulher de mil faces, que me mostre algo além da rotina, o outro lado da lua — aquele sem luz e cor —, eu continuarei preferindo a companhia dos meus botões à ilusão de um relacionamento em que eu precise flexionar os joelhos, para gratificar o Narciso de outrem. Antes só, mas livre e de pé, do que sozinho a dois e de joelhos!

A insensatez tem cura, mas não reconstrói o tempo perdido. Por isso, não desperdice os segundos da sua vida caminhando de joelhos! Se não for para amar de pé, fique sozinho!

Se a queda for inevitável, eu prefiro ter dignidade suficiente para me amar: ainda pior seria cair de joelhos... Orgulho? Que nada! Eu só parei de ser besta.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.





sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Existe vida após o chifre?

Existe vida após o chifre?

— Depois de ter sido traída várias vezes, por homens diferentes, em quem eu confiava, decidi passar o resto da vida sozinha. Antes só do que mal acompanhada! Eu prefiro ficar em casa e assistir televisão.

— Faça exatamente o contrário! Saia e se divirta, encontre outras pessoas, vá ao cinema, dance... A solidão só é boa quando você se ama. Nos momentos de dilaceramento emocional, quando o ego se esfacela, você só precisa mostrar que essas pessoas não conseguiram destruí-la.

— Mas você sempre diz que eu não preciso provar nada a ninguém?!...

— É a si mesma que você precisa provar!...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Fingir o orgasmo, um dom feminino...

Fingir o orgasmo, um dom feminino...

O homem narcisista não se importa com as suas emoções e sentimentos, se você, mulher, por medo de perdê-lo, insegurança, piedade altruísta ou simples desejo de abreviar o martírio, fingir o orgasmo. Agora, se você deseja condená-lo à autoflagelação, conte-lhe que o gozo era fingido... Ele irá do céu ao inferno antes que você lhe diga o merecido adeus.

No caso do homem, o macho do Homo sapiens sapiens, a maior das arrogâncias é proclamar-se capaz de levar todas as mulheres ao orgasmo; ilusão é acreditar que consegue; tolice é não encarar a realidade para tentar transformá-la.

Nada de silêncio nessa hora, minha querida leitora! A autoestima do homem — geneticamente programada para ser intocável — precisa receber esse choque de realidade. Se o diálogo não resolver — trazendo novas posições e técnicas sexuais, desejos secretos e incomuns, preliminares mais picantes, o clima certo, envolvimento afetivo e carinho —, procure um médico, mas não abra mão do seu gozo, para afagar o narcisismo machista do seu marido ou namorado.

Os homens nascem, crescem e morrem com a fantasia de que são máquinas perfeitas para a arte do sexo, mas não sabem o que se passa na dimensão do gozo feminino. Muitos sequer se preocupam com o que se passa ao norte da sua vagina... Foda-se você! — É o que eles dizem aos amigos na academia.

Mas a propaganda masculina, normalmente enganosa — os famosos “na cama eu esculacho”“sou foda, borracha forte”“mulher, depois que dou madeirada, não fica de pé”, etc. —, esconde o medo atávico, carregado pelo cromossomo “y”, de não ser capaz de satisfazer, na cama, o sexo feminino, que ele deseja acreditar que é fraco.

O sexo, para o homem, é o maior dos troféus da sua masculinidade. Imaginar que uma mulher não sente prazer com ele — e logo na cama, o reino onde ele se autoproclama soberano — é pior do que levar chifre. Pode acreditar, ele prefere ouvir que você meteu um par de guampas na cabeça dele do que saber que você nunca gozou... Pior ainda, se você lhe disser que gozava muito com o seu ex... Aí é tortura, crime de lesa-masculinidade... Ele nunca mais será o mesmo.

Por isso, nada de fingir orgasmos! A vítima será sempre você. Ele se vira e dorme, candidamente, alimentando, em seu ego frágil e imaturo, a ilusão de que a deixou com as pernas trêmulas; quem fica na mão é você... na mão e nos dedos...

Acorda, amiga! Vai ajudar um bocado, se você tiver orgasmos. Ele jura a si mesmo que você goza o tempo todo... Ele se acha o cara, e você, validando a péssima atuação dele com gozos fingidos ou permanecendo em silêncio, torna-se cúmplice dessa farsa...

Na hora que você jogar o papo reto, do tipo olho no olho, fique atenta à reação dele: se começar a chorar, sentindo-se menos macho, você terá feito a coisa certa, e ele irá amadurecer, transformando a dor em humildade para aprender; se ele se revoltar, você terá se livrado de um machão, conquistando, de quebra, o sagrado direito de ter orgasmos com outro.

A vida é curta! O seu gozo fingido, uma mentira altruísta que nasce da misericórdia com o machão em sua cama, acaba por criar um homem tolo e uma mulher frustrada. Goze já ou mude de homem! Você pode e tem direito.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post Scriptum: Acordei assim, meio “arretado”, com o machismo desses homens que precisam anunciar performances ilusórias, para confirmar com outros machos que são muito machos...