sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O que fazer diante de um parente ou amigo deprimido?

O que fazer diante de um parente ou amigo deprimido?

Há dois dias, logo ao despertar, deparei-me com uma tragédia, infelizmente rotineira no mundo moderno: mais uma jovem se suicidou. Desta vez, ao vivo, pelo Instagram... Ontem, os pais da jovem, quase tão jovens quanto ela, certamente desesperados com a tragédia, transmitida ao vivo, também se suicidaram... Perdas irreparáveis, que, infelizmente, cairão no olvido.

Não me canso de escrever sobre a depressão, como os meus leitores mais fiéis devem saber. Eu mesmo, apesar da consciência que tenho da minha doença, sofro de grave depressão. Sinto, na pele e no coração, a dor dessa jovem, o desespero de não ver saída. Cada dia é um tormento, cada segundo uma eternidade. Entre rendições, desistências e autossabotagens, vou lutando, todos os dias, para não me deixar seduzir pela pulsão de morte, essa força voraz que palpita no meu peito.

Aos depressivos desse mundo, gente como eu, a minha solidariedade. Não se sintam sozinhos! Estou aqui, no mundo virtual. Conversemos... Conte-me a sua dor, divida o seu fardo. Eu sobreviverei... Na verdade, sobreviveremos juntos... Nem tudo está perdido. Existe gente como você. Apenas se reconecte consigo própria através dessas almas que também sofrem por aí... De mãos dadas, a gente se encontra, e o peso se torna mais leve. Não enfrente tudo sozinha, nem se envergonhe de estar doente! Procure ajuda de amigos, parentes e, principalmente, de profissionais. Ter depressão não é vergonhoso. Vergonhoso é destilar preconceito.

Aos idiotas desse Planetinha azul, que tratam como frescura uma grave doença, o meu mais profundo desprezo. Leiam o meu texto e reflitam sem preconceito! Quem se mata não é fraco, apenas está doente. É verdade!, depressão é doença! Só você, um intolerante cheio de certezas, é que não sabe. A depressão se trata com remédios e um bom Psiquiatra, a sua intolerância provavelmente não tem cura.

Aproveitando as tragédias, que continuam a acontecer, sobretudo nas Cidades grandes — quase rotineiras, infelizmente —, devo relembrar, pela enésima vez, que depressão não é doença de ricos e inconsequentes, nem é frescura, como costumam dizer os desinformados e preconceituosos!

Depressão, na verdade, é o abandono de si próprio, é a insatisfação com o próprio eu, mas não é só isso; é uma patologia que envolve predisposição genética e afeta o equilíbrio químico do cérebro.

Depressão é uma doença crônica, muitas vezes incapacitante, que produz alteração do humor, quadro de tristeza profunda e sem fim, sentimentos de amargura, desencanto com a vida, desesperança sem motivo, déficit na autoestima e culpa recorrente, associada, quase sempre, à autopiedade.

Nos quadros depressivos, degrada-se, muitas vezes com graves consequências, a capacidade para lidar com as múltiplas perdas que a vida impõe aos seres humanos, e aqui me refiro não somente às mais óbvias — pessoas e objetos —, senão também às perdas da libido, da autoestima e da pulsão vital, que se expressam através de inibições como a anorexia, a insônia, a abulia e a indiferença diante da dor e do destino.

Mais do que tristeza, a depressão gera melancolia, um sentimento prolongado de revolta com o próprio ego e de frustração com a existência, um desânimo intenso, que envolve, em alguns casos, a recusa à vida, afastando o deprimido dos amigos e das atividades profissionais. O abuso das drogas — consentidas ou proibidas —, só agrava o quadro, abrindo o abismo sem fim que acaba engolindo o deprimido.

Frases do tipo: — Tão jovem assim, com a vida pela frente! Ou, ainda pior: — Como uma pessoa tão bonita e cheia de vida, comunicativa, repleta de amigos, pode estar deprimida? Todas essas afirmações e perguntas refletem o preconceito que, como uma serpente venenosa, se aninha no desconhecimento de que a depressão é uma doença, um desequilíbrio na química cerebral com graves consequências, não raro o suicídio. Tanto pior, quando associada ao abuso das drogas.

Depressão não é sinônimo de tristeza nem de desânimo, embora essas emoções se exacerbem nos quadros depressivos. O deprimido recrimina-se do que não fez e sofre com delírios de autopunição, reduzindo-se, progressivamente, a sua capacidade de amar e interagir com o mundo.

A depressão imobiliza o sujeito, mina os desejos e a energia para realizá-los. O deprimido se sente derrotado, imaginando que todo esforço seria inútil. Ele se paralisa na autocomiseração!

Não tem fé em si mesmo, nem se conecta com as próprias emoções: ao contrário, encontra nas expectativas dos outros, que nunca imagina atender, a fonte perene das suas frustrações, buscando, no exterior e no que as pessoas dizem que é certo, a felicidade que nunca consegue alcançar.

Como Don Quixote, vive a perseguir ilusões e objetos irreais, num mundo em que a fantasia retroalimenta as suas angústias e frustrações.

Nesse delírio de autopunição, representa seu ego como algo sem valor e desprezível, incapaz de qualquer realização digna, num quadro delirante de inferioridade física e moral, que é acompanhado, quase sempre, de insônia e da recusa em se alimentar ou, em alguns casos, da compulsão por comida, um quadro patológico em que o instinto de sobrevivência é superado pela dor. Não raro, surge, como válvula de escape, o abuso das drogas, uma tentativa infrutífera de neutralizar a melancolia, que vai se tornando, pouco a pouco, um monstro devorador de sentimentos e emoções. Abusar das drogas, para aplacar a depressão, é como lançar gasolina ao fogo, na ilusão de apagá-lo... Só o médico pode receitar drogas, e apenas as lícitas.

O sintoma mais persistente da depressão, talvez o mais nocivo, é a autossabotagem. Quando o deprimido começa o ciclo de autodestruição, mergulhando na chamada pulsão de morte, inicia-se a negação da doença e do tratamento. Ele simplesmente não vai ao psiquiatra ou abandona a psicoterapia e, pior ainda, a medicação. A ajuda dos parentes e amigos não passa pela prescrição de receitas milagrosas, mas pelo segurar o outro pelas mãos e levá-lo a buscar ajuda especializada. Convencer o paciente de que não vergonhoso ir ao Psiquiatra é o primeiro passo. Mostre que não tem preconceito, e ele acolherá a sua mensagem, percebendo que depressão é doença e que o psiquiatra é o especialista mais indicado. Se fosse uma mal do estômago, o indicado seria um gastroenterologista, no pulmão, um pneumologista, no coração, um cardiologista, na mente, um Psiquiatra. Simples assim!

Por isso, diante de tanta desinformação e preconceito, eu dou um alerta aos que sofrem de depressão, essa doença insidiosa e cruel que surge do nada, atinge ricos e pobres, crentes e descrentes e, por mais que você tente superá-la sozinho, não se cura sem tratamento médico especializado: assim como uma gripe, pneumonia, diabetes ou cardiopatia não significam "falta de Deus”, a depressão, também uma doença, representa um desequilíbrio na química cerebral, mais precisamente nos chamados neurotransmissores, que são responsáveis pela comunicação entre os bilhões de neurônios do ser humano. Ter depressão é estar doente, enfim, é estar em 50 volts num cérebro que só funciona corretamente em 110, e isso nada tem a ver com as suas crenças ou descrenças. Não se desespere, meu amigo depressivo, quando alguém, por desconhecimento, culpar a sua relação com Deus pela depressão. Apenas lhe indague: se fosse uma virose, igualmente uma doença, também seria falta de Deus? Então, bastaria ter fé para não ficar gripado... Imagine uma criança inocente, com depressão ou sarampo, e isso é mais frequente do que você supõe. Crianças podem ter depressão, assim como podem ter febre, dor de cabeça, infecção na garganta, diarreia, etc.! Elas ainda não sabem o que é pecado, sequer possuem consciência do bem ou do mal, não fizeram mal a ninguém, mas, ainda assim, estão doentes. Estariam sendo punidas com essas doenças, algumas tão terríveis quanto a depressão? Claro que não! Depressão não é escolha nem castigo! Pessoas boas e tementes a Deus ficam doentes o tempo todo, por maior que seja a fé que possam ter. Somos humanos, e não deuses. Abaixo o preconceito!

Estar deprimido não é fraqueza nem falta de Deus; é como entrar no labirinto do Minotauro sem porta de saída. Aliás, sem desejar uma saída, mesmo que ela seja óbvia aos olhos dos parentes e amigos. É arrogância imaginar-se capaz de dimensionar a dor do outro, em particular se você nunca sofreu dessa doença do aparelho psíquico. Desistir da busca por essa porta de saída metafórica e, consequentemente, da própria vida, é o sintoma mais agudo da depressão, muitas vezes o seu ponto de não retorno, o horizonte de eventos desse buraco negro em que se transforma a vida do deprimido. Daí em diante, ele não quer mais a cura. Sozinho e por conta própria, o deprimido não buscará tratamento. Não o abandone com os sintomas da depressão, ou poderá ser tarde demais.

E não tenha medo de se aproximar do seu parente ou amigo deprimido! Depressão não é uma doença contagiosa, embora a sua origem possa ser genética, resultando de vulnerabilidade biológica hereditária. Em outras palavras, você não fica deprimida por culpa das más companhias, nem se cura, apenas, com boas amizades, mas deve ficar alerta diante de pais depressivos. Uma pessoa pode viver num presídio, cercada de facínoras, e não ficar deprimida, assim como pode morar na Igreja, mas contrair a doença e se matar.

Assim como não se escolhe ficar gripado, diabético, ter câncer, hipertensão ou cardiopatia, o deprimido também não escolhe a sua doença. A química cerebral se altera, muitas vezes por predisposição genética, comprometendo os neurotransmissores, e a depressão se instala. Simples assim! Quem fica doente vai ao médico, e não ao padre ou ao pastor. Existem remédios para controlar os sintomas. Nada impede que você ore ou reze ao seu Deus, mas só os médicos poderão ministrar o remédio certo para tratar a  sua depressão. Se você for religiosa, imagine-se com câncer ou infarto no miocárdio. Agora pense: você iria ao médico? Creio que sim, e imaginaria que Deus usou o médico como instrumento da cura. Vá á Igreja, se desejar, mas nunca deixe de consultar um psiquiatra. Ele também é filho de Deus...

Para facilitar a compreensão da doença, criei uma pequena narrativa, fictícia, mas possível. Eu falo da doença em idosos, ainda mais comum do que em adolescentes:

— Acabado, sem amor, gasto pelo tempo, cabelos brancos, rugas no rosto, olheiras profundas, bolsas sob os olhos, músculos flácidos, pele sem brilho... Isso não é justo! — Dizia o homem, enquanto examinava, com estranho fascínio, a triste figura em que se transformara.

Confuso, diante da imagem decadente que se refletia no espelho, ele vislumbrou, sob a velha carcaça, os traços da juventude que se perdera no outono da vida. Ele sorriu, pensando, talvez, que ainda lhe restassem alguns traços de formosura debaixo da pele encarquilhada:

— Pense, homem! Seria ainda pior, se você fosse mulher... Pelo menos a celulite não habita o seu corpo... — Ele dizia isso com uma estranha maldade nas palavras, um sabor acre que escorria dos lábios.

Depois de um breve momento de esperança, uma repentina fé na vida, a sua fisionomia se fechou, restando, no rosto envelhecido, um amargo sorriso, a enunciar a nuvem negra que encobria a sua mente:

— E desde quando você não tem celulite? Não seja autoindulgente com toda essa flacidez! Nem por piedade, aceite autoelogios! Você foi abandonado, trocado por carne mais jovem, com músculos mais rijos e pele sedosa, um rapaz jovem, com uma carreira pela frente! Ela o abandonou! Também, trinta anos mais jovem... O que você esperava? Que ela afagasse seus cabelos brancos ou trocasse suas fraldas geriátricas na velhice? — Ele disse a si mesmo, ao estilhaçar o espelho, com os punhos cerrados.

Perdendo a luta com o tempo, ele se sentia derrotado, incapaz de ver em si mesmo o sonhador que fora um dia. Sem qualquer aviso, a vida se tornara um lento e nostálgico remoer do passado, uma busca incessante do tempo perdido. Sentia-se impelido a escavar velhas culpas, a destilar lamentos pelo perdão que negava a si mesmo.

Foi assim, hipnotizado pelas gotas de sangue que pingavam no tapete branco, que ele conheceu a depressão...

Diante de algum dos sintomas que apontei, pegue o deprimido pela mão, sem julgamentos morais ou religiosos, e o leve ao psiquiatra. Ele dificilmente irá sozinho. A resistência ao tratamento é um dos sintomas da depressão. Ele pode morrer sem ajuda!

Sei que muitos fazem pouco da depressão, tratando-a como tristeza ou simples incapacidade para lidar com os desafios da vida. Por isso, encerro com o poema de Boris Vian, citado pela Psicanalista Maria Rita Kehl no Preâmbulo de “O tempo e o cão: a atualidade das depressões”:

“Morrerei de um câncer na coluna vertebral

Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada,
sensual Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei, quem sabe, sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturarem crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei com as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo tiver acabado
Morrerei.”
(Poema de Boris Vian, na tradução de Ruy Proença. Apud. KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. — São Paulo: Boitempo, 2009.).

Deu para entender?

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.


 








quinta-feira, 10 de agosto de 2017

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

Minha doce e querida amiga — cujo nome, por respeito, não irei declinar —, eu realmente sei muito pouco sobre os dilemas existenciais que a afligem nesse momento, os males que o amor idealizado lhe trouxe na forma de traição. Contudo, eu lhe diria, falando por experiência própria, que o nome dessa estranha mania de criar armadilhas para nós mesmos é autossabotagem!

Costumamos repetir os nossos erros, em ciclos de sucessos momentâneos, repletos de idealizações imaturas, seguidos de fracassos retumbantes, abismos insondáveis e obscuros que vamos criando com os nossos pés, enquanto os atribuímos ao destino. Muda o objeto da nossa paixão, muda o nosso empregador, mas a essência dessas pessoas é sempre a mesma. Escolhemos pessoas parecidas, empregos parecidos, que invariavelmente nos levam à dor seguinte. Esse processo chama-se autossabotagem!

E repetiremos uma, duas, três ou mais vezes os nossos erros, enquanto não percebermos que somos o nosso maior inimigo: o Minotauro do nosso labirinto somos nós mesmos!

Quando penso nos mistérios do amor — não digo que o seu dilema transita por aí —, lembro-me de Rosalinda, a filha do Duque banido, na Peça “Como Gostais”, a nona das dezoito comédias de WILLIAM SHAKESPEARE:

“. . . mal se encontraram, logo se olharam; mal se olharam, logo se amaram; mal se amaram, logo suspiraram; mal suspiraram, logo perguntaram o motivo de haverem suspirado; mal souberam a razão, logo procuraram o remédio...” (SHAKESPEARE, William. Como gostais. Peça escrita em 1600, a nona das dezoito comédias do Autor. Ato V, Cena II).

Esse é o verdadeiro amor: misterioso e inexplicável, insensato e perigoso, quase insano, mas inevitável.

Ainda não se inventaram armaduras contra as dores do amor! Mas é preferível andar à beira do precipício a se proteger numa fortaleza de gelo. É só aprender a voar e não ter medo do abismo. Mas é preciso cuidado para não sair aos pedaços...

A forma como reagimos ao trauma, enfim, a nossa reação de defesa, se não for amadurecida pelo autoconhecimento, pode nos prender ao passado que causa dor. Acabamos repetindo os eventos não superados, em ciclos inconscientes de autossabotagem, em que aprofundamos, sem perceber, as nossas cicatrizes, passando-lhes a gilete em cada passo da vida, para reviver antigas dores, como noites eternas. Mudamos alguns personagens da vida, mas o enredo continua o mesmo.

A experiência do trauma, desperdiçada na negação ou no esquecimento, acaba não servindo para impedir a sua repetição! Mergulhados na ignorância, deixamos de dar significado às vivências geradoras de conflito e desequilíbrio, perdendo a chance de construir significantes e valores que, partindo da consciência plena do passado, e sem desconhecer a dor e o trauma, possam permear atitudes e respostas mais adaptáveis aos golpes inesperados da vida amorosa.

Por imaturidade e medo de sofrer no futuro, acabamos sofrendo no presente, revivendo antigas dores em novos traumas, que não passam de velhos enredos, nascidos da recusa em dar sentido ao sofrimento.

"O que não enfrentamos em nós mesmos será nosso destino", dizia Carl Jung!

Em todas as curvas do destino, o ser humano carente de afetos vê antigos personagens do drama que reprimiu, sem perceber que eles só existem e resistem nas suas projeções, que são os canais por onde retornam à sua vida.

Reaja com inteligência e cautela, mas sem coçar as feridas, tentando retornar à fantasia, porque esse é o processo natural da cura. Também não aprofunde as cicatrizes, passando-lhes a gilete todos os dias, para reviver antigas dores, como noites eternas. Deixe o dia chegar, iluminando os caminhos, e lembre-se que até o sol, para renascer, precisa recolher-se no outro lado do mundo. Deixe o planeta girar, enquanto você renasce!

Essa coceirinha, metáfora da vontade de voltar ao passado, é o início da cura. Resista e deixe o tempo se encarregar do resto! A espera de algo novo, que rompa as correntes da mesmice, não é o fim do mundo, nem a vitória do lado Sombrio da Força. Pode ter certeza de que Darth Vader não venceu a batalha contra Luke Skywalker. Saiba que, no “Retorno de Jedi”, em Endor, Luke queima o corpo do pai, Darth Vader (antes Anakin Skywalker), em um funeral Jedi, e vê que ele, finalmente, se tornou um espírito do Lado Iluminado da Força, ao aparecer juntamente com Obi-Wan Kenobi e Yoda. Por isso, queime seus medos e fracassos, mas guarde as cinzas na urna da experiência, como lembrança constante daquele passado que você não precisa reviver para alcançar o mesmo resultado anterior.

Use a razão, se não deseja repetir histórias que precisam ser sepultadas (cadáveres insepultos apodrecem a nossa vida); ou use a emoção (coração), se deseja passar a gilete sobre a ferida.

Muitas vezes alimentamos a ilusão de que o outro, depois de nos abandonar ou de nos trair, haverá de voltar, rastejando e sofrendo. Mas isso raramente acontece, e temos que lidar, sozinhos, com a dor da separação.

O ex-amor que nos dilacerou o coração nem sempre volta do inferno, para rasgar as nossas cicatrizes ou apodrecer as nossas feridas! Provavelmente permanecerá por lá, assombrando outras pessoas iludidas e cheias de expectativas, como nós.

Na verdade, enquanto nos importamos com a volta do outro ou com o seu sofrimento, ainda não superamos a sua ausência.

Não se importe com o outro e menos ainda com a sua felicidade ou infelicidade sem você.

Não seja prisioneira do ódio nem do ressentimento por alguém que se foi por vontade própria ou porque não soube agir com maturidade.

Que seja feliz bem longe de você!

Quer saber de uma coisa? Ainda bem que raramente voltam! Isso não passa de um desejo reprimido no inconsciente pelo nosso ego crispado de dor pela certeza da ausência.

E só dói porque o amor fica estrangulado entre a certeza da ausência definitiva do outro e o saber de um amor que ainda não se foi.

É passado? Então, deixe passar!

Mas não decida nada enquanto estiver sangrando. Se o fizer, acabará abrindo mão do que sobrou da sua autoestima. Dai para perdoar o que não tem perdão será um pequeno passo.

A traição jamais será apagada, mas você pode aprender com a experiência. Aprender o quê? — Você me pergunta. A se amar e não idealizar príncipes!

É melhor soltar as cordinhas imaginárias que a prendem ao parceiro do que permitir que ele apodreça ao seu lado!

Deixe fluir! Isso é vida, e não um fluxograma. Nada como um amor depois do outro...

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.

Post scriptum: eu posso estar completamente errado! Apenas falei em voz alta e, talvez, nada daqui se aproveite. Mas, se não escolhi o silêncio diante das suas postagens sem autoestima e repletas de ressentimento — o que seria mais aconselhável —, fi-lo porque você é uma pessoa especial na minha vida e na vida de muita gente. Você pode até me odiar por não alimentar a sua autopiedade, mas prefiro lançar algumas dúvidas a permanecer calado.


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Esse amor era como pontes que não caem

Esse amor era como pontes que não caem

Quando as palavras se tornaram supérfluas, eles se beijaram, assim, devotamente. Foi um beijo tão terno e tão doce, que eles não perceberam o tímido beija-flor azul, pairando, solitário, acima dos seus corpos entrelaçados.

Arrancaram as roupas com volúpia, olhos nos olhos, como se fosse aquele o último instante de suas vidas. Tocaram-se com a chama da lascívia, deixando que as emoções dessem vida à saudade que traziam no peito. Fizeram amor com cheiro de gozo fácil, sem emoções fingidas, sem pesos vãos e velhas desculpas. Penetraram no encantamento, rasgaram o véu da culpa, enleados no prazer do gozo infinito.

Era apenas um instante, desses que insistem em ficar na memória do coração, gravados na ternura dos gestos, no sabor da saliva trocada, na língua úmida de desejos. Há rastros do passado que nunca se apagam! Quando nos imaginamos perdidos, no deserto dos afetos, apenas seguimos as suas pegadas...

Assim era o amor que sentiam um pelo outro... Era como pontes que não caem! O tempo distante só acendeu a chama do reencontro.

Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.




“Tristeza não tem fim, felicidade sim!”

“Tristeza não tem fim, felicidade sim!”

Depois de muito mergulhar nas sombras, eu aprendi que as canções eternas, as que ficam marcadas na alma, são as que expressam as dores do coração, desconstruindo os meandros da tristeza e da melancolia, para revelar, nas tragédias do compositor, os caminhos e descaminhos de outras vidas, repetidos na nossa própria existência!

Assim nasceu a poesia, assim nasceram as tragédias gregas! Afinal, o que seria de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, sem as dores da alma, sem os males do mundo?

Não teriam sentido o purgatório e o paraíso, se não fosse o inferno, cantado na Divina Comédia de Dante Alighieri!

William Shakespeare, o mestre da Tragédia, não teria sacrificado Romeu e Julieta, mas também não teria revelado os dramas da existência humana. E não conheceríamos o Príncipe Hamlet, com a sua loucura dissimulada e o seu sofrimento opressivo, mergulhado nas tessituras dramáticas da traição, da vingança, do incesto e da corrupção moral! Sem as tristezas da vida, também não existiriam o General Otelo, o Mouro de Veneza, e sua esposa, Desdêmona, que nos mostraram o preconceito, o amor, o ciúme e a traição, temas que permeiam as nossas próprias tragédias pessoais: é a vida imitando arte e a arte se misturando com a vida!

Tampouco, teríamos Racine, com a trágica paixão de Fedra por Hipólito, nem teríamos o mergulho antropofágico de Corneillé, com a sua terrível Medeia.

Nos cultores da tragédia, que exaltam as nossas tristezas e desalentos, é que encontramos a verdadeira essência humana, enfim, aquele mal secreto que muitos escondem sob a máscara da conveniência social!!

A verdade, absoluta verdade, é que jamais compreenderíamos a alma dos homens, se não mergulhássemos nas tragédias e tristezas dos corações aflitos!

Quero confessar a todos que a minha tristeza encontra na música e na poesia a sua verdadeira catarse, perpassando as minhas tragédias, que desvanecem diante da doce morte de Romeu e Julieta!

Para mim, e para o poetinha Vinícius de Moraes,

"Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
E tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor!
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim
Tristeza não tem fim"
(“A Felicidade”, letra de Vinícius de Moraes e música de Antônio Carlos Jobim)

Peço escusas, assim, em tom de lamento, pelo meu triste repertório musical, que pode espantar os espíritos menos dramáticos, os que vivem no paraíso e só compreendem a vida pela bem aventurança, esquecendo que só a tempestade da alma traz o sossego e a maturidade.

Peço-lhes perdão, contudo, queridos amigos, por deixar transparecer, nas estradas do mundo virtual, que os meus caminhos nem sempre são ornados de flores! Mas assim é a vida...

Para sobreviver no deserto, eu preciso me libertar das correntes da alteridade e seus significantes, construindo a felicidade em mim e por mim, sem o outro e a despeito dele. Egoísmo? Não! Amor próprio...

A felicidade possível, que posso construir como algo meu, pode ser apenas um lenitivo para o medo da morte, algo que me permita perceber que a beleza da vida está na incerteza dos caminhos, apesar da inevitabilidade do destino.

Só assim, ciente de que a felicidade está dentro e não fora do que sou, posso desfrutar a vida, mesmo sabendo qual será o seu fim...

É como ler as tragédias gregas ou shakespearianas a que me referi: sei que acabam em tragédias, mas, ainda assim, preciso desfrutar a poesia do caminho, encontrando em cada palavra o encanto e a magia de viver. O trágico está em mim e na minha própria morte, tão certa e inevitável quanto nas tragédias da literatura.

Desfrute a vida real com o mesmo espírito que deve movê-lo ao desfrutar as tragédias da ficção, sempre mirando o caminho, e não o final da obra. Lá como cá o destino é o mesmo... Nascemos para morrer! Trágico, mas inevitável.


Jorge Araken Filho, apenas um coletor de palavras perdidas nos ermos do tempo.